Euler de França Belém
Euler de França Belém

Complexidade das ideias e da linguagem da literatura de Philip Roth é avessa ao cinema

As contradições da vida derrubam quaisquer planejamento de se construir “indivíduos” e “famílias” perfeitos. “Pastoral Americana” é um romance notável

O romance do escritor americano Philip Roth e o cartaz do filme de Ewan McGregor; o primeiro é uma obra-prima, como literatura e, até, filosofia, mas a película, embora bem feita e até fiel ao conteúdo, não tem alma

“Pastoral Americana” (Com­panhia das Letras, 478 páginas, tradução de Rubens Figueiredo) é, ao lado de “O Complexo de Portnoy” e “O Teatro de Sabbath”, o romance que po­derá dar, um dia, o Nobel de Li­teratura ao escritor americano Philip Roth, de 84 anos. É uma obra-prima que, tratando da vida nos Estados Unidos, tem caráter universal.

Prosador de amplo preparo intelectual, Philip Roth é autor de uma prosa límpida, o que às vezes pode ser confundido com simplicidade, quando, na verdade, é altamente sofisticada. “Pastoral Americana” é literatura da melhor qualidade e, ao mesmo tempo, filosofia.

O romance conta a história do judeu americano Seymour Levov, o Sueco, um atleta excepcional que se torna dono de uma fábrica de luvas. É um homem rico, alto e bonito. Casa-se com uma ex-miss, belíssima, de origem pobre. Eles são pais de Meredith. Uma família quase perfeita, não fosse pelo fato de Merry ser gaga. O narrador sugere que os judeus querem se integrar e, ao mesmo tempo, “se manter à parte”. Seymour é um dos integrados que amam os Estados Unidos e avaliam o país como uma terra de oportunidades. “Não havia nele nenhuma impostura — e isso era o pior.”

Não há vida perfeita, ao contrário do que Seymour pensa. Não há co­mo “acertar” as vidas dos indivíduos seguindo um planejamento rígido ou não. Pois, sonhando em construir o lar ideal, Seymour percebe seu sonho evaporar quando a filha engaja-se, na década de 1960, ao lado de discípulos de Che Guevara e Frantz Fanon, e coloca uma bomba num mercadinho. Um médico morre. A terrorista de 16 anos desaparece. Mais tarde, Seymour descobre, pela própria Merry, que a jovem matou mais três pessoas. Ninguém fez sua cabeça, necessariamente, ao contrário do que pensava o pai. Ela escolheu colocar as bombas, por ser crítica da Guerra do Vietnã. Ao reencontrá-la, o Sueco descobre que aderiu a uma religião indiana, o jainismo.

O narrador, de maneira enfática, diz que “a gente acaba entendendo mal as pessoas. (…) Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, en­tender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estamos errados. (…) A ilusão que a gente tem de que algum dia pode vir a acertar é a loucura que nos empurra para diante”. O sentido da vida pode ser apreendido integralmente quando se está vivendo? Há quem acredite que sim, mas talvez não seja possível de maneira ampla, porque a nossa vida não depende só de nós, depende da interação com outros indivíduos. Nós determinamos e somos determinados, mas, no meio, há o imponderável. Ao perder a filha para a esquerda e, depois, para a religião, o Sueco, frisa o solitário personagem-narrador Nathan Zuckerman, “aprendera o pior que a vida pode ensinar — que ela não faz sentido. E quando isso acontece, a felicidade nunca mais é espontânea. É artificial e, mesmo então, obtida ao preço de um tenaz alheamento de si mesmo e da história”.

Philip Roth: “Pastoral Americana”, ao lado de “O Complexo de Portnoy” e “O Teatro de Sabbath”, certamente dará o Nobel de Literatura ao escritor americano

O experimental James Joyce, com seu personagem Leopold Bloom — o incomum homem comum do romance “Ulysses” —, certamente apreciaria o homem comum de Philip Roth, um agente da vida e, ao mesmo tempo, um joguete da vida e da história. O narrador pergunta: “Mas quem é que está preparado pa­ra o impossível que vai acontecer? Quem está preparado para a tragédia e para o absurdo do sofrimento? Nin­guém. A tragédia do homem despreparado para a tragédia — esta é a tragédia do homem comum”. É a tragédia de Seymour, mas talvez de todos nós, e não apenas do homem comum.

Somos capazes de compreender todo o nosso caráter trágico? Talvez não. Nem todos conseguem se submeter a uma análise profunda de si, para entender-se e sair ileso. Mas Merry, ao ser diferente da educação dada em casa e não seguir a tradição dos Levov, fez Seymour “enxergar” — uma Homero judaica guiada pela mão de Virgilio e Dante (“Pastoral Americana” é, por certo, uma “Divina Comédia” escrita por um judeu americano). Seymour “havia entendido que nós não vimos uns dos outros, que só parece que vimos uns dos outros”. Uma geração não domina ou guia a outra, ao menos não inteiramente, seja pela via do comportamento, seja pela via do pensamento. Seymour descobre pela experiência, uma experiência que não queria, que “era incapaz de evitar o que quer que fosse. Sempre fora, embora somente agora [a filha terrorista, a mulher o traindo com um arquiteto, o pai morto] parecesse preparado para acreditar que fabricar excelentes luvas sociais de senhora em tamanhos subdivididos em quatro não garantia de maneira alguma a criação de uma vida que se encaixasse com perfeição em todo mundo que ele amava. Longe disso. Você acha que pode proteger uma família e não pode proteger nem a si mesmo. (…) O desvio é que prevalecia. Não se pode detê-lo. Da forma mais imprevista, o que não se esperava que acontecesse acabara acontecendo, e o que se esperava que acontecesse não tinha acontecido”. O que se instala, dentro da aparente ordem da vida das pessoas, é uma desordem consistente e, quiçá, invencível.

O leitor certamente observará que não se trata de uma história linear e o fim do romance pode ser encontrado no “fim” e noutra parte. Não há livro de Philip Roth mal escrito, mas em “Pastoral Americana” — no qual sugere que, se há beleza na vida, ela advém do trágico, do imponderável —, ele se supera. Tentar entender a imperfeição dos indivíduos talvez seja o caminho para uma percepção, ainda que não romântica, mais prazerosa do mundo.

O Brasil é citado duas vezes, devido a carneiros e à cantora Carmen Miranda. Um trecho lembra a descrição do homem cordial feita pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda: “Como de hábito, sua reação automática em face de sua incapacidade de apreender a fundo a causa e o efeito consistia em recuar à antiga estratégia que sempre usara na vida e mostrar-se tolerante e benévolo”. O narrador está tratando de Seymour, um, apesar de tudo, grande personagem. Um homem bom que a realidade traga e devasta.

Filme sem alma

O filme “Pastoral Americana”, de Ewan McGregor, contém algumas imprecisões, devido provavelmente à necessidade de condensar uma história tanto densa quanto extensa. No geral, a adaptação é fiel ao texto de Philip Roth. Mas curiosamente, apesar da fidelidade à história contada pelo romance, falta-lhe alma.

Fica-se com a impressão de que o problema não é o cinema em si, mas a literatura de Philip Roth, que, embora pareça simples, é complicada de adaptar para a tela. Até agora, depois de vários filmes, talvez seja possível sugerir que não há uma adaptação que tenha captado o cerne de sua literatura desencantada e dotada de um humor corrosivo e, por vezes, brutal. Sua linguagem não parece permeável ao cinema.

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