Euler de França Belém
Euler de França Belém

Chico Pinheiro e a violência da esquerda contra a Imprensa

É preciso conter a violência contra jornalistas e discutir o mito da imprensa isenta

Chico Pinheiro e Ali Kamel: até quando jornalistas brasileiros vão propalar o mito paralisante da imparcialidade? | Fotos: Divulgação

A cobertura da prisão do ex-presidente Lula da Silva não mostrou uma mídia parcial. Mostrou uma mídia que tentou, de todas as formas, cobrir o fato de maneira ampla. Fora dos espaços concedidos à opinião, tanto pró quanto contra a prisão, o comportamento de jornais, revistas e emissoras de televisão e rádio apresentaram coberturas decentes.

Fica-se com a impressão, porém, de que setores da esquerda, radicalizados, cobram uma cobertura parcial, quer dizer, contra a prisão de Lula da Silva. Mais: tudo indica que setores que são adeptos da violência como método político sequer queriam que a prisão do ex-presidente fosse noticiada.

Curiosamente, os sindicatos patronais fizeram uma defesa mais enfática dos jornalistas, criticando a violência dos apoiadores do PT, do que os sindicatos dos jornalistas. No afã de criticar as empresas, como se estivessem incentivando os profissionais a fazerem uma cobertura parcial, fazem uma defesa tímida dos repórteres. É um equívoco. O filósofo Ruy Fausto, de esquerda, disse numa entrevista à revista “Veja”: “Quem defende um caminho fora da liberdade está indo na direção errada”.

O PT não está destruído e tomara que se mantenha ativo. O partido representa, na maioria das vezes, uma esquerda moderada, avessa à violência. Os arroubos anteriores e atuais, que soam mais como tática (pura ameaça, pressão) do que como estratégia política, não representam o pensamento médio do petismo. Numa possível ausência do PT, tendências radicais tendem a ocupar uma parte do palco, ainda que minúscula, para defender a violência, métodos antidemocráticos. Um PT estável, ao contrário do que imagina parte da direita, contribui para a estabilidade democrática, para conter os radicais.

A prova de que o país está maduro, incluindo o PT — que, insisto, é democrático, apesar do barulho que faz, a partir de sua linguagem bélica (vide a senadora Gleisi Helena Hoffmann) —, é que Lula da Silva, um dos mais importantes líderes políticos brasileiros, foi preso, levado de São Paulo para Curitiba, e nada aconteceu. Apesar de alguma baderna, pressão articulada por petistas, como sindicalistas, nada aconteceu de sério. As instituições continuam sólidas, o país está tranquilo. Nenhum “exército” deu as caras.

Na semana passada, o diretor de Jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, advertiu o apresentador do Bom Dia Brasil, Chico Pinheiro, porque o jornalista, num áudio vazado, fez a defesa de Lula da Silva. Tudo bem que, ao apresentar o programa da TV Globo, o profissional seja isento, distanciado. Mas, privadamente, tem direito à liberdade de se manifestar sobre política, futebol, economia, comida, cachorros. Chico Pinheiro é de esquerda, todos sabem disso, mas quem pode apontar um deslize dele como profissional?

Não deixa de ser uma tolice o mito de que, por trabalhar numa determinada empresa de comunicação, o repórter não pode ter opinião sobre os fatos. Em geral, os que mais professam imparcialidade são os menos isentos e imparciais. Independência, imparcialidade e isenção são, quando se trata de jornalismo, sinônimos de hipocrisia. O que se deve sugerir aos telespectadores, ouvintes e leitores é outra coisa: ante o fato de que não existe imparcialidade, é preciso exigir que os meios de comunicação devem buscar a objetividade como uma espécie de ilha da utopia — dando as informações de maneira ampla e contemplando, em termos de opinião, correntes políticas contrárias.

Não fique surpreso, leitor, se a Globo, no dia que demitir Ali Kamel, alegar que não pode contar com os préstimos de um jornalista que escreveu o livro “Não Somos Racistas” (por sinal, muito bom).

O Brasil precisa dotar-se de mais abertura e tolerância com o pensamento divergente.

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