Euler de França Belém
Euler de França Belém

Charge sobre Geddel Vieira provoca demissão do chargista Osmani Simanca, do jornal “A Tarde”

O político aparece grudado num prédio — como se fosse uma preguiça gigante — construído de maneira ilegal, o que provocou sua demissão do governo de Michel Temer

A charge que mostra Geddel Vieira grudado no edifício que o derrubou do governo do presidente Michel Temer provocou a demissão do chargista Osmani Simanca, do jornal “A Tarde”

A charge é um território livre, mesmo em jornais nos quais a liberdade é como água no deserto. Não dá para censurar ou reduzir a força do humor: ou é livre ou não é. Pois no jornal “A Tarde”, da Bahia, segundo o chargista Osmani Simanca, a charge é um território sob controle. Osmani Simanca criou uma charge, divertida e inteligente — na qual o político Geddel Vieira, um lavajatista empedernido (pode ser um dos próximos presos), aparece grudado como um carrapato ou uma preguiça gigante num edifício-ostentação. Como se sabe, o prédio foi (ou está sendo) construído sem respeitar regras mínimas de urbanismo de Salvador e a história ganhou a imprensa nacional. Geddel Vieira, que tem um apartamento no edifício, acabou demitido do governo do presidente Michel Temer. O jornal poderia não ter publicado a charge, mas publicou e, depois de publicada, decidiu demitir o chargista — o mordomo da hora.

Osmani Simanca trabalhou mais de 15 anos em “A Tarde” e, como o jornal não quer apresentar explicações sobre a demissão — a verdade é tão incômoda que, às vezes, não pode ser expressada —, decidiu publicar uma carta no Facebook, que transcrevemos integralmente a seguir:

“Serei sempre muito grato pela oportunidade que tive, quando há mais de 15 anos comecei a trabalhar em ‘A Tarde’, periódico com uma tradição jornalística de mais de 100 anos. Foi sem dúvida uma honra publicar, aprender e aperfeiçoar-me com meus caros colegas e amigos. Durante minha estadia no diário ganhei importantes prêmios nacionais e internacionais e meus desenhos publicados originalmente em ‘A Tarde’ foram, frequentemente, reproduzidos por outros jornais e revistas ao redor do mundo.

Osmani Simanca: criatividade provocou demissão

Depois da penúltima mudança na direção do jornal comecei a ser questionado sobre o conteúdo das minhas charges, sendo algumas delas censuradas. Estes desenhos proibidos foram reproduzidos com grande sucesso em outras mídias. Havia muito tempo que textos e matérias completas dos meus colegas eram cortados, mas não a charge. A charge era um pequeno oásis num deserto de tesouras.

É difícil ter liberdade sem independência econômica. A maior parte da imprensa sempre dependeu da propaganda dos governos. Isto não seria problema caso estes governantes não pressionassem jornais e jornalistas, e se jornalistas e jornais democráticos não se deixassem pressionar para escrever elogios ou críticas desmerecidas. Nosso rumo deve ser sempre definido pela ética e pela virtude, coisas raras nestes tempos sombrios, cheios de ódio e intolerância. Dizia Joseph Pulitzer: ‘Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma’.

Com a última mudança na direção do jornal, as pressões aumentaram ao ponto que tive que explicar o que era uma charge, e qual era o papel da sátira política em uma sociedade democrática e na imprensa livre. Fui indagado sobre quem me dava as pautas ao que respondi que as pautas eram os fatos, os quais pesquisava em profundidade, consultando várias fontes e colocando minha opinião na forma do jornalismo gráfico, caracterizado pela charge ou caricatura política. Fui advertido para não mexer em determinados temas e personagens, uma tarefa impossível no meio da putrefação política e ética em que se encontra o Brasil.

Quero agradecer às demonstrações de solidariedade de meus colegas, amigos e leitores por referencia a minha demissão sem justa causa e cuja verdadeira causa, de maneira resumida, expliquei neste texto.

Termino aqui, com este pensamento de Eurípedes: ‘Todo o céu é da águia o caminho,/Toda a terra é do homem nobre a pátria’.”

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Que cousa!

Filipe Costa

Esse é o reflexo de um país cada vez afundado na mediocridade política e carente de ética.