Augusto Diniz
Augusto Diniz

Casos Alvim e Wajngarten mostram importância do trabalho sério do jornalismo brasileiro

São profissionais da imprensa que se dedicam a descobrir e divulgar informações e documentos que não interessam aos poderosos na transparência da gestão pública

Com trechos de discurso do ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, o então secretário Roberto Alvim, da Secretaria Especial da Cultura, fala em cultura verdadeira em vídeo que foi excluído após demissão | Foto: Reprodução/ Twitter Secretaria Especial da Cultura

“Do meu lado aqui o Roberto Alvim, nosso secretário de Cultura. Depois de décadas, agora temos sim um secretário de Cultura de verdade, que atende o interesse da maioria da população brasileira, a população conservadora e cristã. Muito obrigado por ter aceitado essa missão. Já sabia que não ia ser fácil, né?” É assim que, na live de quinta-feira, 16, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) apresenta o então bastante elogiado secretário especial da Cultura, Roberto Alvim. Bolsonaro foi da vibração com a presença de Alvim na equipe de governo à demissão do auxiliar em pouco mais de 15 horas.

Se você não viu o vídeo do agora demitido secretário especial de Cultura, que até o governo resolveu apagar das páginas oficiais – mas que é encontrado facilmente em qualquer plataforma audiovisual na internet -, o conteúdo todo é uma junção de afrontas à humanidade, à pluralidade da cultura e do povo brasileiro e um desrespeito à história e à memória das famílias que tiveram parentes assassinados pelo regime nazista alemão. Mas é graças à imprensa que você conseguiu descobrir os motivos que levaram à queda de Alvim do cargo.

O presidente Jair Bolsonaro soltou a seguinte nota, por volta de 13 horas de quinta-feira, para comunicar a demissão do secretário especial de Cultura:

– Comunico o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do Governo. Um pronunciamento infeliz, ainda que tenha se desculpado, tornou insustentável a sua permanência.

– Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas.

– Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum.

Jair Messias Bolsonaro, presidente da República.

– Comunico o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do Governo. Um pronunciamento infeliz, ainda que…

Posted by Jair Messias Bolsonaro on Friday, January 17, 2020

Mas a jornalista e colunista da Folha de S.Paulo, Monica Bergamo, revelou às 14h55 daquele mesmo dia que o embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, foi falar pessoalmente com Bolsonaro e pedir a demissão de Alvim do governo pelo incômodo que o conteúdo do vídeo causou à comunidade israelita, país parceiro do governo brasileiro. A frase final da nota do presidente, “manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum”, já dava indícios do real motivo da retirara do problema da equipe de governo com a queda de Alvim.

Na noite anterior, o mesmo presidente Bolsonaro estava em sua live no YouTube e Facebook a atacar a imprensa por, segundo o chefe do Executivo nacional, “mentir” e ser contra seu governo. Resta ao político responsável por 121 das 208 ofensas dirigidas aos jornalistas em 2019 reconhecer que seu discurso é feito para um público específico e só convence os chamados convertidos, um eleitorado fiel disposto a acreditar 100% em tudo que Bolsonaro disser. Mesmo quando se trata de um completo absurdo.

Se não fosse o trabalho sério da imprensa, a suspeita de corrupção do chefe da Secretaria de Comunicação, Fabio Wajngarten, não seria descoberta e teria a repercussão que o caso continua a ter. Enquanto o governo e seus apoiadores dizem acreditar que jornalistas e veículos de comunicação são inimigos do progresso, do Brasil e do presidente Jair Bolsonaro, os resultados estão colocados para qualquer um que não se informe apenas por meme no WhatsApp veja: denúncias baseadas em fatos, com os envolvidos ouvidos, inclusive com a versão dada para o caso, assim como na situação que envolve Wajngarten.

Não houve a mesma rapidez do governo para tomar uma solução no caso Wajngarten, mas a pressão só existe porque a imprensa fez seu trabalho. É triste que em 2020 tenhamos que perder tempo para explicar o que significa o jornalismo. Mas já que isso se faz necessário, que continuemos a ter profissionais e veículos que deem luz a fatos como os verificados na Secretaria Especial da Cultura e na Chefia da Secretaria de Comunicação.

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