Brasil inventou direita que, mesmo tendo viabilidade eleitoral, é golpista
03 outubro 2026 às 21h00

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Esquerda e direita, quando têm viabilidade eleitoral, costumam deixar de ser golpistas.
Durante anos, o Partido Comunista do Brasil, o PC do B, pregou a luta armada. Era crítico contundente do Partido Comunista Brasileiro, o PCB. O Partidão era tachado de reformista, de não revolucionário.
O PT, quando surgiu em 1980, era relativamente radical, mas, mesmo naquela época, não era comunista. Era, por certo, de esquerda, mesclando socialistas, socialdemocratas e comunistas moderados (José Genoino, egresso do PC do B e PRC, era um deles).
O presidente Lula da Silva é de esquerda, mas não é comunista. Porque, sim, é possível ser de esquerda, e não ser comunista.
Ao contrário do PC do B e do PCB, que nunca tiveram viabilidade eleitoral, o PT cresceu, se fortaleceu e se tornou o adversário mais consistente da direita e da centro-esquerda (o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, não o de hoje, que tenta se apresentar praticamente como bolsonarista).
Por que, se tem viabilidade eleitoral, a direita brasileira é golpista? Porque não acredita na democracia. É filha dos políticos e generais que articularam a ditadura civil-militar, que permaneceu no poder, de 1964 a 1985, longos 21 anos
Com viabilidade eleitoral — cinco vitórias para presidente da República —, o PT nunca foi golpista. Pautou-se, sempre, pelo respeito às regras da democracia — a luta pela alternância no poder. Quando perdeu eleições, recolheu-se, não tentou derrubar o eleito. Quedou-se na oposição, às vezes excessiva — como o que fez com Fernando Henrique Cardoso (que nunca foi neoliberal — é da esquerda socialdemocrata) —, sem atentar contra a democracia.

O Brasil “inventou” um fenômeno: a direita que, mesmo tendo viabilidade eleitoral — elegeu Jair Bolsonaro em 2018, derrotando o PT de Fernando Haddad —, é golpista.
A direita bolsonarista é forte — fortíssima. Mas o que reduz sua robustez é exatamente o golpismo. É o que a torna vulnerável.
Por que, se tem viabilidade eleitoral, a direita brasileira é golpista? Porque não acredita na democracia. É “filha” dos políticos e generais que articularam a ditadura civil-militar, que permaneceu no poder, de 1964 a 1985, longos 21 anos.
Tem-se, Brasil do século 21, uma direita capaz de ganhar eleições, mas que não acredita na democracia. O que é danoso… para a democracia. Se não fosse golpista, e tão reacionária, seria tolerável para os democratas
A direita patropi disputa eleições, tem viabilidade eleitoral, mas falta-lhe uma tradição democrática na qual inspirar-se. Os Bolsonaros consideram como seu histórico a ditadura, e não a democracia anterior a 1964 ou posterior a 1985.

O bolsonarismo não quer apenas arrancar o PT do poder. Quer impedi-lo de voltar ao governo federal. Por isso, depreende-se, planeja constituir praticamente uma democradura no país — com o controle de um obstáculo que tem se revelado resistente ao seu desiderato, o Supremo Tribunal Federal.
O golpismo articulado por Jair Bolsonaro e pelos generais Braga Netto e Augusto Heleno (que trabalhou no gabinete de Sylvio Frota, o general que planejou a derrubada do presidente Ernesto Geisel, na segunda metade da década de 1970) chegou a planejar o assassinato do presidente Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin (conservador, com ligações com a Opus Dei) e do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes (que, apesar das acusações recentes, foi decisivo para derrotar, ainda que parcialmente, os golpistas. A democracia deve muito ao magistrado).
Tem-se, portanto, uma direita capaz de ganhar eleições, mas que não acredita na democracia. O que é danoso… para a democracia. Se não fosse golpista, e tão reacionária, seria tolerável para os democratas.


