O jornalista José Casado, colunista da revista “Veja”, escreveu um artigo — “Quase metade diz ter medo com a reeleição de Lula ou a eleição de Flávio Bolsonaro” — que, aqui e ali, ecoa as ideias do cientista político Antônio Lavareda.

“Novidade na atual disputa pelo voto nesse Brasil conservador é o aviso de fadiga política que os eleitores repetem há meses em diferentes pesquisas. Quase metade diz ter medo do futuro com a reeleição de Lula ou a eleição de Flávio Bolsonaro. E dois terços se declaram indecisos a cinco meses da eleição. É prenúncio de uma temporada eleitoral com fortes emoções”, frisa José Casado.

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Ronaldo Caiado: o líder do PSD tem o que mostrar e discurso afiado | Foto: Rômullo Carvalho

Por que os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, permanecem entusiasmados, apesar de não pontuarem tão bem quanto Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)? Exatamente porque não há nada definido. O quadro de hoje parece e é “inercial”. Porque não há campanha e debate acirrados. Adiante. Ronaldo Caiado (ou Romeu Zema) pode retirar Flávio Bolsonaro e substitui-lo na polarização com Lula da Silva.

Por que Ronaldo Caiado e Romeu Zema podem crescer, tornando-se uma ameaça eleitoral a Flávio Bolsonaro? Porque têm, além de discurso — o do bolsonarista é frágil e inconsistente —, o que mostrar. Porque foram governadores por sete anos e três meses e, por isso, sabem gerir . Já o postulante do PL é conhecido por não ter dado conta de administrar uma loja de chocolate (que teria sido usava como “lavanderia” de dinheiro de rachadinha do filho de Jair Bolsonaro).

Romeu Zema: o ex-governador de Minas Gerais tem experiência administrativa | Foto: O Tempo

José Casado cita uma pesquisa qualitativa do instituto Idea. “Restou evidente o desconhecimento” a respeito de Flávio Bolsonaro. De acordo com a pesquisadora Cila Schulman, “as pessoas reconhecem o nome de família [Bolsonaro], mas não conseguem dizer uma segunda frase a respeito de Flávio Bolsonaro”. Parte da intenção de voto pode ser de Jair Bolsonaro e não de Flávio Bolsonaro.

“O candidato presidencial do PL ainda é apenas um sobrenome, beneficiário de transferência massiva do voto anti-Lula”, sublinha o colunista.

O discurso messiânico de Flávio Bolsonaro, que supera o de Iris Rezende, é registrado por José Casado. O “filho do homem” (Jair Bolsonaro) está se apresentando como “um projeto de Deus”. Um projeto para o país, por enquanto, nada.

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Lula da Silva: o presidente é uma raposa política | Foto: Divulgação

De acordo com uma pesquisa, 53% dos brasileiros são conservadores. Mas Felipe Nunes, o chefão das pesquisas do instituto Quaest, sugere que, ao examinar o conservadorismo, não se deve confundir direita com extrema direita.

“Apenas 3% dos brasileiros podem ser classificados como de extrema direita; são quase 6 milhões de pessoas nessa bolha pequena e barulhenta. E o grande traço autoritário distintivo desse grupo dentro do campo conservador não é religião, não é família, não é ordem. É a disposição autoritária, ou seja, aceitam a ideia de que a ditadura pode ser preferível à democracia”, assinala Felipe Nunes.

Por que Lula da Silva, “não” sendo conservador, ganha eleição para presidente? “O lulismo está longe de ser fenômeno tipicamente de esquerda, progressista. Lula é visto pela sociedade como um conservador até pela maneira como trata alguns temas: o Bolsa Família, por exemplo, é na origem um programa liberal”, postula Felipe Nunes.

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Felipe Nunes: o voto conservador chega a 53% dos eleitores | Foto: Divulgação

“Lula não é Boulos, não é a Gleisi Hoffmann. Lula é outra coisa, e isso lhe dá vantagem eleitoral maior, é capaz de penetrar nos conservadores. Por quê? Porque, originalmente, ele ofereceu a fórmula do Estado liberal, com proteção mínima, com programas sociais de proteção básica, em educação e saúde — segurança e a discussão das igualdades só entraram depois na agenda”, pontua Felipe Nunes.

Mas o fato relevante mesmo — e as pesquisas quantitativas nem sempre apuram bem isto — é que o país está cansado tanto do lulismo e quanto do bolsonarismo. Então, o que busca? Uma alternativa para derrotá-los? Por enquanto, não. Adiante, quem sabe. Portanto, há espaço para uma terceira via se tornar segunda via.