Brasil está cansado de lulismo e bolsonarismo, mas ainda não sabe que pode derrotá-los
02 maio 2026 às 21h00

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O jornalista José Casado, colunista da revista “Veja”, escreveu um artigo — “Quase metade diz ter medo com a reeleição de Lula ou a eleição de Flávio Bolsonaro” — que, aqui e ali, ecoa as ideias do cientista político Antônio Lavareda.
“Novidade na atual disputa pelo voto nesse Brasil conservador é o aviso de fadiga política que os eleitores repetem há meses em diferentes pesquisas. Quase metade diz ter medo do futuro com a reeleição de Lula ou a eleição de Flávio Bolsonaro. E dois terços se declaram indecisos a cinco meses da eleição. É prenúncio de uma temporada eleitoral com fortes emoções”, frisa José Casado.

Por que os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, permanecem entusiasmados, apesar de não pontuarem tão bem quanto Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)? Exatamente porque não há nada definido. O quadro de hoje parece e é “inercial”. Porque não há campanha e debate acirrados. Adiante. Ronaldo Caiado (ou Romeu Zema) pode retirar Flávio Bolsonaro e substitui-lo na polarização com Lula da Silva.
Por que Ronaldo Caiado e Romeu Zema podem crescer, tornando-se uma ameaça eleitoral a Flávio Bolsonaro? Porque têm, além de discurso — o do bolsonarista é frágil e inconsistente —, o que mostrar. Porque foram governadores por sete anos e três meses e, por isso, sabem gerir . Já o postulante do PL é conhecido por não ter dado conta de administrar uma loja de chocolate (que teria sido usava como “lavanderia” de dinheiro de rachadinha do filho de Jair Bolsonaro).

José Casado cita uma pesquisa qualitativa do instituto Idea. “Restou evidente o desconhecimento” a respeito de Flávio Bolsonaro. De acordo com a pesquisadora Cila Schulman, “as pessoas reconhecem o nome de família [Bolsonaro], mas não conseguem dizer uma segunda frase a respeito de Flávio Bolsonaro”. Parte da intenção de voto pode ser de Jair Bolsonaro e não de Flávio Bolsonaro.
“O candidato presidencial do PL ainda é apenas um sobrenome, beneficiário de transferência massiva do voto anti-Lula”, sublinha o colunista.
O discurso messiânico de Flávio Bolsonaro, que supera o de Iris Rezende, é registrado por José Casado. O “filho do homem” (Jair Bolsonaro) está se apresentando como “um projeto de Deus”. Um projeto para o país, por enquanto, nada.

De acordo com uma pesquisa, 53% dos brasileiros são conservadores. Mas Felipe Nunes, o chefão das pesquisas do instituto Quaest, sugere que, ao examinar o conservadorismo, não se deve confundir direita com extrema direita.
“Apenas 3% dos brasileiros podem ser classificados como de extrema direita; são quase 6 milhões de pessoas nessa bolha pequena e barulhenta. E o grande traço autoritário distintivo desse grupo dentro do campo conservador não é religião, não é família, não é ordem. É a disposição autoritária, ou seja, aceitam a ideia de que a ditadura pode ser preferível à democracia”, assinala Felipe Nunes.
Por que Lula da Silva, “não” sendo conservador, ganha eleição para presidente? “O lulismo está longe de ser fenômeno tipicamente de esquerda, progressista. Lula é visto pela sociedade como um conservador até pela maneira como trata alguns temas: o Bolsa Família, por exemplo, é na origem um programa liberal”, postula Felipe Nunes.

“Lula não é Boulos, não é a Gleisi Hoffmann. Lula é outra coisa, e isso lhe dá vantagem eleitoral maior, é capaz de penetrar nos conservadores. Por quê? Porque, originalmente, ele ofereceu a fórmula do Estado liberal, com proteção mínima, com programas sociais de proteção básica, em educação e saúde — segurança e a discussão das igualdades só entraram depois na agenda”, pontua Felipe Nunes.
Mas o fato relevante mesmo — e as pesquisas quantitativas nem sempre apuram bem isto — é que o país está cansado tanto do lulismo e quanto do bolsonarismo. Então, o que busca? Uma alternativa para derrotá-los? Por enquanto, não. Adiante, quem sabe. Portanto, há espaço para uma terceira via se tornar segunda via.

