Euler de França Belém
Euler de França Belém

Bolsonaro não deve ameaçar a Folha de S. Paulo. E os jornais podem dispensar verbas públicas?

A Imprensa não aprecia crítica. Mas o presidente eleito deve descer do palanque e aceitar a liberdade de imprensa como um dos pilares da democracia

Jair Bolsonaro , presidente eleito do Brasil: nada, na democracia, substitui as urnas

Os ombudsmen da “Folha de S. Paulo” descobriram que jornalistas não são afeitos a críticas, mesmo quanto estão errados. Ao menos um deles, Caio Túlio Costa, ganhou um inimigo visceral, Paulo Francis. Este chegou a escrever que o crítico interno tinha “cara de lagartixa”. Excedendo, Caio Túlio chamou o “Estadão” de “mausoléu”. Outros repórteres e editores rechaçaram, às vezes com veemência, as ressalvas ao seu material jornalístico. A Imprensa inglesa e americana é rigorosa com políticos, estejam no governo ou não. Um dos motivos é que, ligada mais ao mercado, não é dependente das verbas estatais. No Brasil, há jornais críticos, jornais convenientemente críticos e jornais que se tornam, ao longo do tempo, o sorriso do governo e a cárie da sociedade.

Durante a campanha, é possível que a “Folha de S. Paulo” tenha criticado mais o presidente eleito Jair Bolsonaro, do PSL, do que Fernando Haddad, do PT, o candidato derrotado?  Uma conclusão exigiria uma métrica precisa. Talvez seja possível sugerir que, no noticiário, o jornal foi tão crítico de Haddad quanto de Bolsonaro. Entretanto, no espaço de opinião — e a opinião que sai nos jornais acaba por ser, direta ou indiretamente, a opinião dos jornais —, houve certo desequilíbrio. A maioria dos artigos, sobretudo, os mais contundentes, foi desfavorável ao candidato do PSL. Isto, sem dúvida, desequilibrou a cobertura, o que induziu à conclusão, por parte dos bolsonaristas, de que a “Folha” estava praticamente bancando a candidatura de Haddad. Na opinião, a “Folha” parecia editada por Mino Carta, da “CartaCapital”. A reportagem teve, quase sempre, a feição dos Frias — crítica com todos, apartidária.

A Imprensa é uma instituição — um dos pilares da democracia — e o excesso do presidente eleito Jair Bolsonaro atinge mais do que um jornal isoladamente

Porém, mesmo na opinião, as críticas dos “folhistas” e colaboradores foram inaceitáveis e excessivas? Não. Ficaram no limite, mesmo as mais ácidas. Os políticos, Bolsonaro na linha de frente, precisam aprender a conviver com a crítica — inclusive a mais exigente e dura. A máquina estatal é gigante e se move praticamente sozinha. Longe dos olhos do presidente, que não é um ser onipresente, apesar dos órgãos de auxílio que são encarregados de informá-lo, o governo está sempre em movimento e, por vezes, sem controle. Uma imprensa ativa e sem amarras pode apontar os problemas — colaborando, de maneira cidadã e como se fosse uma auditoria externa, com o gestor, que poderá corrigir o percurso.

Uma Impressa amiga, acrítica, deixa tanto o governante quanto seus subordinados desatentos. Os gestores se tornam soberbos e, não raro, avaliam que não precisam dar satisfações à sociedade. Uma Imprensa vigilante, que tira a roupa do rei e dos homens-chaves da corte, costuma contribuir para repor indivíduos e o governo no eixo. No poder, Bolsonaro será melhor governante se tiver o apoio de uma imprensa que ponha o dedo na ferida e mostre, com diversidade de opiniões, se há algo errado e se o caminho a seguir pode ser outro. Presidentes que governam com uma Imprensa conivente e amiga costumam relaxar. A regra é cercar-se de aduladores. Um governo começa a acabar quando os aduladores se tornam dominantes e os governantes começam a acreditar no que dizem. Querem ajudar Bolsonaro? Sejam críticos e decentes e não temam perder sinecuras.

O momento é de os aliados mais racionalistas e menos apaixonados de Bolsonaro criarem coragem pra dizer: “Desça do palanque, presidente”. Depois de assumir, até poderá ficar no palanque por mais alguns meses, para evitar cobranças dos que acreditam que um país pode mudar de maneira radical por canetadas-decretos. Mas, a partir depois de seis meses, se não desmontar o palanque, os eleitores, inclusive os seus, vão desmontá-lo. A Bolsonaro, as figuras mais luminosas de seu entorno devem lembrá-lo: quatro anos não são a eternidade. Os que dizem que o presidente eleito está certo em tudo, inclusive quando ataca a Imprensa de maneira excessiva — para além da crítica —, vão acabar se tornando seus adversários, não seus aliados. Os melhores aliados e amigos de um presidente democrata são seus críticos. Os piores adversários são os áulicos, experts em criar viseiras. Fernando Collor foi vítima de si mesmo, mas também de seus aliados. Quando acordou, em 1992, não era mais presidente.

“O Globo” de terça-feira, 30, publicou uma reportagem, “Eleito volta a fazer ameças [sic] a veículos de imprensa”. O jornal nota que, depois de assinalar que era “totalmente favorável à liberdade de imprensa”, Bolsonaro “disse que irá cortar as verbas de propaganda oficial de veículos jornalísticos que agirem, na avaliação dele, ‘mentindo descaradamente’”. No caso da “Folha”, eventuais erros ocorrem, mas “mentir descaradamente” não é um de seus métodos de trabalho. “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e a “Folha de S. Paulo”, ao lado das revistas “Veja” e “Época”, são o que se têm de melhor na Imprensa patropi. Suas reportagens são feitas com rigor e as partes são ouvidas com precisão. Há erros? Há. Mas nada que desabone tais veículos.

Seria positivo que os jornais pudessem dizer: “Nos próximos quatro anos, não aceitaremos verbas do governo federal”. Aparentemente, não podem sobreviver sem tais recursos, sobretudo porque o mercado permanece recessivo. Mas não seria a hora de se emancipar do dinheiro público, cujo uso, pelos governantes, é menos para divulgar o que é de interesse da sociedade e muito mais uma maneira de controlar os meios de comunicação? Ou isto é uma utopia das mais utópicas? A Imprensa também precisa ser mais aberta à crítica. Por vezes, o que parece ameaça é apenas uma crítica mal formulada. Mas é preciso admitir que mesmo aquilo que “parece ameaça” merece crítica. A liberdade de Imprensa é um item chave da democracia.

A esquerda é mais hábil do que a direita e, mais do que nunca, quer um Bolsonaro — para facilitar a crítica e, mesmo, o ataque — com perfil autoritário. O presidente eleito vai cair nesta armadilha? É provável que Bolsonaro se torne mais democrático no poder do que fora do poder. Mas precisa começar a se livrar do ranço autoritário, que, a rigor, nem os militares de proa das Forças Armadas toleram.

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Arthur de Lucca

Não acompanho a imprensa mundial, mas parece-me que a dos Estados Unidos da America tiveram que engolir o Donald. E, não conseguiram derrubá-lo, apesar de ameaçá-lo no começo. Bolsonaro não falou que irá “cortar” verbas. Disse que irá pagar os 40% devidos e não os 80 “imagináveis” para a GloboLixo. Por isso levou tanta bordoada.
Arthur de Lucca – Goiânia, Go. 31/10/18.