Euler de França Belém
Euler de França Belém

Bolívar Lamounier diz que corporativismo chantageia o governo

Ante um presidente que perdeu legitimidade, grupos articulados pressionam e alcançam seus objetivos, quase sempre com prejuízo da sociedade

Bolívar Lamounier, cientista político, diz que “festival de financiamento para a compra de caminhões” inviabilizou o negócio dos caminhoneiros

Doutor pela Universidade da Califórnia, Bolívar La­mounier, de 75 anos, é um dos mais importantes cientistas políticos patropis (e muito bom prosador). Na edição da revista “Exame” que está nas bancas, concedeu uma entrevista à repórter Flávia Furlan que deveria provocar debate acirrado — pró e contra.

Instado a comentar a greve dos caminhoneiros, que parou um país que não poderia ter parado — porque está em fase de retomada do crescimento econômico —, Lamounier afirma que “o Brasil é um país refém do corporativismo, com grupos de interesse que se organizam para exigir recursos públicos. Esses são os atores reais da política. Dois terços dos gastos públicos vão para os 20% mais ricos, para as corporações”.

O corporativismo está in­viabilizando o Brasil, sugere La­mounier. “Os pequenos ca­minhoneiros teriam de mudar de atividade. O festival de financiamento para a compra de veículos no governo Dilma Rousseff inviabilizou esse negócio por enquanto.”

Motoristas foram “ao BNDES obter crédito para comprar um caminhão para transportar uma carga que não seria produzida. Mas aí entra o corporativismo: os caminhoneiros estão num grupo com capacidade de defesa, então eles preferem ficar nele a procurar outro”. É como se o capitalismo patropi, mesmo quase sem ferrovias, estivesse dispensando caminhões — um tanto por causa da crise recessiva. Outro tanto, é provável, pelo excesso de oferta… de caminhões-caminhoneiros.

Lamounier afirma que o governo do presidente Michel Temer — que tem acertos na economia (não é o cientista político que está dizendo isto), mas perdeu legitimidade para governar (quase todo mundo diz que é pior do que de fato é, como presidente; na verdade, o gestor “requalificou” o político, mas não o suficiente para legitimá-lo e ao seu governo) — foi, no caso da greve dos caminhoneiros, chantageado. “A tática usada pelos caminhoneiros é chamada na literatura política de anarcossindicalismo, que é levar a situação a um caos de tal maneira que o governo cede.”

Se a paralisação não beneficiou a população, por que o apoio aos caminhoneiros? “Nos­sa sociedade tem uma veia populista. Ela quer tudo mais barato, mas com menos impostos.”

O cientista político sugere que outros países conseguiram superar o corporativismo “com um modelo de gestão econômica apropriado e com uma política séria. O melhor exemplo é Margaret Thatcher, na Inglaterra. Ela quebrou o corporativismo negociando de forma dura com os trabalhadores, principalmente os do setor de carvão, que chantageavam o país. Ela deixou a situação chegar ao extremo. Se tivéssemos um pouco de senso, enfrentaríamos também nossas corporações”.

Lamounier não diz, mas seria vital enfrentar também o populismo de parte da mídia. Inicialmente, até a poderosa TV Globo cercou-se de uma cautela excessiva nas críticas à greve dos caminhoneiros — que parecia, aos olhos dos incautos, fazer um bem imenso ao País, quando, na verdade, prejudicava inclusive os motoristas e donos de caminhões (era e é o chamado tiro no pé). Fica-se com a impressão de que a pós-malta (o “pós” se refere à sua organicidade e à falta de espontaneidade) — Paulo Francis certamente não usaria outro termo, retirando, claro, o “pós” — conseguiu o que parecia impossível: acua, de maneira competente, jornais e emissoras de televisão. A força da pós-malta assusta os repórteres, sobretudo os responsáveis pela cobertura de rua. São os que estão sendo agredidos com escasso protesto de seus sindicatos. Um “dirigente” chegou a recomendar a um jornalista de televisão que, para sua segurança, deixasse de cobrir um acontecimento. Noutras palavras, os agressores estão “certos” — não os agredidos.

Presidente fraco

Inquirido sobre as eleições de outubro deste ano, La­mounier não é nada otimista. “A única certeza é que o governo que sair dela será fraco, manipulado pelas corporações, com um Congresso que às vezes coopera, mas às vezes chantageia. Se Lula não for candidato, e Fernando Haddad entrar no jogo, ele não terá apoio do partido, no qual muita gente o classifica como tucano. Bolsonaro escolheu um economista ultraliberal [Paulo Guedes], e um deles durará pouco. Já Ciro Gomes vem de um partido pequeno, o PDT, e teria dificuldade em lidar com o Congresso. O candidato pode ter mais de 50% no segundo turno, mas não força política.”

Uma pena que a jornalista da “Exame” não tenha perguntado sobre as folhas de pagamento dos funcionários públicos em todo o País. Em alguns Estados, a folha consome quase 80% de tudo aquilo que alguns governos arrecadam. Tudo indica que se trata de tema tabu e, por isso, nem jornalistas, mesmo os liberais, querem discuti-lo. Teria, afinal, o funcionalismo público se tornado praticamente uma nova classe social, que apropria-se da maioria dos recursos dos Es­ta­dos? Ou, diria Lamounier, é mais um setor corporativista ar­ticulado para controlar o Estado e, sobretudo, seus recursos?

A economista Ana Carla Abrão, ex-secretária da Fa­zenda do governo de Goiás, é uma das poucas a discutir a questão da folha de pagamento do funcionalismo público. Ao menos às claras e sem subterfúgios. No momento, com a corrupção acuada — o que não quer dizer inteiramente controlada —, os salários dos funcionários públicos, mais do que qualquer outra coisa, estão inviabilizando vários governos, dos piores aos melhores. À porta de uma eleição, com um eleitorado indócil — à espera de mais favores do Estado, como se este tivesse uma fábrica incontrolável de dinheiro e minas de ouro e diamante —, os políticos se contorcem para não discutir o tema. O corporativismo, articulado com raro profissionalismo, é capaz de destruir candidatos e suas campanhas rapidamente, com a massificação de uma ideia que, ainda que realista, não é do agrado da “maioria” (que é como a “minoria” se disfarça).

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Elder

Concordo! Setores da iniciativa privada se acostumaram com o dinheiro fácil do Estado. Principalmente o jornalismo, que muito age como se fosse Relações públicas de entes governamentais em troca de verbas publicitárias. É a iniciativa privada que mete o pau no Estado, mas que só sabe fazer negócios com ele. Triste!