Bebês coronials: o impacto da pandemia na primeira infância

É melhor estimular e observar com calma por alguns meses ao invés de diagnosticar e medicar antecipadamente. Assiste-se ao aumento da medicalização das crianças

Renata Wirthmann

Especial para o Jornal Opção

Esse texto tem o propósito de aprofundar no tema sobre o impacto do distanciamento social, absolutamente necessário nos dois primeiros anos da pandemia da Covid-19, para as crianças e adolescentes.

Nessa escrita de hoje escolhi focar na primeira infância, mais especificamente, nos bebês e crianças que nasceram e tiveram seus primeiros anos de vida na pandemia e as consequências do distanciamento social para a constituição da subjetividade, para o desenvolvimento da linguagem, para a relação com o Outro (cultura) e com os outros (outras pessoas).

Um bom ponto de partida são as manchetes de jornais e revistas, acessível a todos, mas este é, também, um dos assuntos que mais tem aparecido nos consultórios, creches e escolas de quem trabalha com crianças pequenas: a preocupação dos pais em relação ao desenvolvimento dos seus bebês nascidos em 2019, 2020 e 2021. Esses bebês ganharam até um nome geracional próprio, os bebês “coronials”. É inevitável aos pais que já tinham filhos comparar o desenvolvimento dos seus filhos nascidos anteriores a pandemia com os que nasceram na pandemia.

Podemos notar a diferença ainda na gestação, estar grávida durante uma epidemia ou uma pandemia viral é extremamente angustiante para a gestante, assistimos isso no surto de zica e assistimos isso agora na pandemia da Covid-19. Nas olimpíadas do Rio de Janeiro, por exemplo, atletas gestantes de outros países desistiram de vir ao Brasil competir com receio de contrair zica e comprometer o desenvolvimento dos seus bebês. Assistimos essa mesma preocupação nas gestantes durante a pandemia, o pavor de que a doença viral, que se espalhava numa velocidade assustadora pelo mundo, pudesse afetar o desenvolvimento cerebral do bebê. Mais tarde as pesquisas indicaram que não, mas só após mais de um ano de pandemia e angústia.

Supondo um efeito colateral da pandemia, não seria melhor estimular e observar com calma por alguns meses ao invés de diagnosticar e medicar antecipadamente? Estamos assistindo assustados ao aumento da medicalização das crianças e recomendamos uma pausa

Passada a gravidez, nova angústia, o risco de contaminação de um recém-nascido. Se construiu um novo contrato social da pandemia: informar pelas redes sociais que o bebê havia nascido, mas que não receberia visitas. O contrário do que sempre fizemos. Pouquíssimos contatos, muitos decidiram seguir sem a ajuda de babás, sem faxineira ou qualquer funcionária na casa. Sem ajuda também de parentes. Vimos inúmeros bebês confinados em casa exclusivamente com uma ou duas pessoas da própria casa, sem apoio externo. As mães exaustas e isoladas com pouca ou nenhuma ajuda para um trabalho que, certamente, precisa de uma multidão. “É preciso uma aldeia para se educar uma criança”, diz o provérbio e, de repente, as mães tiveram que se tornar uma aldeia inteira para seus filhos.

A frustração dos pais de não poder fazer batizados ou festa de aniversário do primeiro ano, mas, sobretudo, a consequente falta de encontros sociais para inaugurar esta pequena libra de carne, como nos diria Lacan, no mundo e, consequentemente, na linguagem. Eis que os primeiros sinais de que algo não estava indo bem também para o bebê começaram a surgir. Importante destacar que quando as coisas não vêm bem para os pais, já é de se esperar que não vão bem para os filhos, afinal, como descreveu a psicanalista argentina Alba Flesler: “A criança é o sintoma dos pais. Os pais localizam, na criança, sintomas que, por serem seus também, aparecem amplificados no filho”. Temos uma geração de bebês que nasceram sob uma insígnia impossível: “Ele não pode adoecer” e essa determinação se estendeu para além da Covid e se tornou: “esse bebê não pode chorar”, ou, ainda, “a este bebê não pode faltar nada” e, finalmente, “eu, mãe, não posso faltar a este bebê”. Mas como se constituiu um sujeito sem falta?

Diante da falta os pais começaram a relatar bebês assustados que choravam muito quando viam pessoas novas, incluindo avós e outros parentes. São bebês por vezes mais agitados e com a rotina de alimentação e sono difícil de regular, resultado possível, por exemplo, de bebês que não gastavam tanta energia durante o dia, afinal as atividades em confinamento ficaram mais limitadas. Bebês com estimulações restritas, por mais que os pais tentassem ser criativos, afinal uma ou duas pessoas não substituem toda uma comunidade. Em confinamento, sem creche, sem avós e sem funcionárias, a televisão, o tablet e o celular se tornaram o principal apoio de muitas famílias durante a pandemia e a recomendação de que crianças até dois anos fiquem afastadas das telas foi por água abaixo levando, inclusive, a uma confusão de diagnósticos sobretudo com o autismo, especificamente para esta faixa etária. Num primeiro momento pensávamos que a grande preocupação era não contrair o vírus, pouco a pouco fomos percebendo outros prejuízos e ainda teremos que lidar com esses prejuízos por alguns anos.

Em cada idade temos assistido o aumento de diagnósticos e esse aumento deve ser observado com cautela. Supondo um efeito colateral da pandemia, não seria melhor estimular e observar com calma por alguns meses ao invés de diagnosticar e medicar antecipadamente? Estamos assistindo assustados ao aumento da medicalização das crianças e recomendamos uma pausa. Importante lembrar que toda conclusão deve vir precedida pelo instante de ver e o tempo de compreender e, só depois, o momento de concluir.

O tempo lógico de Lacan é de extrema importância e precisa ser, também, praticado pelos psiquiatras infantis, neuropediatras e por essa nova especialidade, os pediatras do comportamento. Esses profissionais estão saltando rápido demais para o momento de concluir, muitas vezes sem nunca atender diretamente a criança, apenas pela demanda e desespero dos pais.

Eis o meu pedido aos profissionais que trabalham com crianças: lembrem-se dos dois anos de pandemia e retroajam antes de concluir seus diagnósticos, tentem perceber o que é da criança e o que é da pandemia

Vale recordar a teoria: o instante de olhar é o primeiro tempo do sujeito e é um tempo que tem, como principal característica, a antecipação. O segundo tempo é de elaboração, que exige uma retroação para construir tal elaboração. Muito importante retroagir antes de concluir. Eis o meu pedido aos profissionais que trabalham com crianças: lembrem-se dos dois anos de pandemia e retroajam antes de concluir seus diagnósticos, tentem perceber o que é da criança e o que é da pandemia: dois anos de distanciamento para uma criança de dois anos é sua vida inteira. É imprescindível observá-la no contexto do mundo pós-distanciamento social.

O que temos que elaborar antes de concluir? Retomar ao fato de que quando a criança ia ao mundo, antes da pandemia, ela encontra diferenças: o carro que buzina na rua, a tia que ri alto, o tio que joga pra cima, a outra criança que pega seu brinquedo. Cada encontro no mundo lá fora vai levando o bebê a ir compondo um pedaço de si e compondo partes do mundo com diferentes sons, cores, exigências, expressões. Sem essa imersão os pequenos não conseguem interpretar o que está acontecendo nesses ambientes, e, ao invés de espelhar os sorrisos, sons e expressões o bebê responde com angústia e choro, se fechando ou recusando do mundo exterior.

Temos recomendado matricular os bebês e crianças em creches e pré-escolas, ou seja, integrá-los ao mundo presencial. Após o difícil processo de adaptação a estes espaços pra além da casa, temos assistido crianças nitidamente mais sociáveis e felizes

O que temos recomendado? Matricular os bebês e crianças em creches e pré-escolas, ou seja, integrá-los ao mundo presencial. Após o difícil processo de adaptação a estes espaços pra além da casa, temos assistido crianças nitidamente mais sociáveis e felizes, com o olhar mais atento, movimentos mais amplos, um verdadeiro salto rumo a estruturação do sujeito. A boa notícia é que um banho de cultura e linguagem provoca uma resposta muito rápida em bebês e crianças pequenas.

Renata Wirthmann é psicanalista e professora associada do curso de Psicologia da Universidade Federal de Catalão (UFCAT). Possui pós-doutorado em Teoria Psicanalítica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorado em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB) e mestrado em Psicologia pela UnB. Suas principais linhas de pesquisa são estudos psicanalíticos da psicose, autismo, infância e adolescência. ([email protected]). Colaboradora do Jornal Opção.

Leia o primeiro artigo da série

O impacto da pandemia nas crianças e adolescentes

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