Euler de França Belém
Euler de França Belém

Autran Dourado resgata em livro histórias de Juscelino Kubitschek

O prosador mineiro conta histórias impagáveis do presidente Juscelino Kubitschek, de quem foi secretário de Imprensa

Juscelino Kubitschek (1902-1976), eleito presidente da República com 36% dos votos (a maioria, 64%, votou contra sua candidatura), deixou o governo consagrado. Na sua gestão, o país cresceu, em média, 7%. Seus adversários — os que avaliam que a função do governo é cortar gastos, não investir — criticavam, com acidez, a inflação de 30% ao ano e o endividamento externo (a dívida saltou de 1,9 bilhão para 3,1 bilhões de dólares). “Não houve crescimento [da dívida] tão grande como se alardeou”, assinala o coronel Affonso Heliodoro dos Santos, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília.

O JK dos dados está devidamente documentado, o que falta, mesmo, é ressaltar os traços do indivíduo que, articulada e rapidamente, se tornou estadista — embora não fosse, e embora quisesse ser, um Winston Churchill (na verdade, era tão malicioso quanto Franklin D. Roosevelt). Os livros de história, necessariamente sisudos, não dão conta do homem-personagem. Daí que as memórias, que podem destacar o indivíduo do meio da massa, possibilitam conhecer Juscelino, ou, pelo menos, facetas desse personagem que, se nos lembra o homem comum, era, na verdade, mais complexo do que nos garante a vã historiografia. Daí a relevância de trabalhos como os de Josué Montello e, mais recentemente, o do escritor Autran Dourado. “Gaiola Aberta — Tempos de JK e Schmidt” (Rocco, 228 páginas), de Autran Dourado, é magnífico e, naturalmente, polêmico (o jornalista Mauro Santayana o atacou duramente). O resgate do poeta Augusto Frederico Schmidt vale o livro. Lendo Autran Dourado estamos bem próximos do homem Juscelino. O filé do livro é isto: a redescoberta do ser humano de carne e ossos (e sex appeal?).

Autran Dourado foi secretário de Imprensa de Juscelino durante oito anos, em Minas Gerais (JK governador) e Rio de Janeiro (JK presidente). É óbvio que o escritor-auxiliar sabe mais do que contou. Por discrição, ou não se sabe o quê, optou por calar-se. No entanto, há insinuações mais maliciosas do que maldosas.

Certa vez, Schmidt, sempre espirituoso, disse a Autran Dourado: “Administrar e governar um país é uma coisa muito secundária”. O escritor mineiro riu e disse: “Muitíssimo”. Irritado, JK perguntou de que estavam rindo. Schmidt mentiu: “De uma história do poeta e anjo Jaime Ovale”. O presidente, não muito culto, sugeriu que Ovale fosse convidado para visitar o Palácio das Laranjeiras. Schmidt explicou que era impossível: “Ele morreu antes de você tomar posse”.

Íntimo de JK, Autran despachava com o presidente até em locais poucos ortodoxos. “A minha intimidade com JK ia a tal ponto que chegava mesmo ao ridículo de eu despachar com ele no banheiro, o que não me agradava muito. Me incomodava sobretudo ele ficar se ensaboando na banheira.” Mas, esclarece rápido Autran, “não havia nele o mais longínquo traço de homossexualismo. Uma vez, como ele mergulhasse o corpo na banheira, me deu uma aflição enorme, cuidando que ele ia estragar o relógio de ouro que tinha no pulso. Não resisti e disse ‘o relógio’! ‘Você é mesmo um capiau do sul de Minas, este relógio é à prova d’água’, disse ele. É a última novidade. JK sempre foi muito progressista e novidadeiro”.

Há um debate interminável sobre a retidão de JK: roubou ou não roubou? Não morreu rico, pelo menos (o presidente-general Ernesto Geisel disse que a investigação procedida pelos militares não provou nada contra o político de Diamantina). Como não poderia deixar de ser, JK fez seu tráfico de influência, mas, como Getúlio Vargas, se não roubava, deixava roubar (ou roubavam sem que ele soubesse ou pudesse impedir). Autran Dourado é econômico nessa questão, mas conta uma história curiosa: “Eu estava no Palácio do Catete quando me chegou às mãos um papel da maior importância, um desses assuntos perigosos e inadiáveis, relativo a uma negociata em andamento, de um aparentado do Juscelino, que as más-línguas diziam ser sócio dele, não sei se verdade ou não. A fim de que a bomba não estourasse na minha mão, resolvi ir ao Palácio das Laranjeiras, residência presidencial”.

Enfurecido, JK jogou os papéis no chão. Esperou que Autran Dourado se abaixasse para pegá-los, mas o escritor continuou em pé. Então, JK abaixou-se, colheu os documentos e perguntou ao auxiliar o que deveria ser feito. “Eu disse como seria a melhor maneira de ser detida a negociata, e sobretudo que não aparecesse o nome do seu aparentado. Ele releu, e ficou algum tempo de cara amarrada, sem dizer nada; acabou concordando comigo. Ao nos despedirmos, disse ‘não fale disso a ninguém. Muito obrigado’.” Como qualquer pessoa normal, JK não gostava de portadores de mensagens ruins, mas, diferentemente dos imbecis, sabia examiná-las com isenção. “A serviço del-Rei, prudência; el-Rei de perto queima, de longe esfria”, a frase do padre Antônio Vieira era uma espécie de mantra para Autran.

Josué de Castro era um condestável para o meio intelectual, devido, sobretudo, ao seu livro “Geografia da Fome”. O livro de Autran Dourado deixa a imagem de Josué de Castro um tanto arranhada, até porque o trecho é pouco esclarecedor. Josué de Castro, deputado pelo PTB, “disse ao presidente que Jango estava de acordo com sua nomeação para ministro da Agricultura”. JK mandou o secretário de Imprensa encaminhar o ato para publicação. “Não sei que inspiração maldita me assaltou o espírito, que resolvi guardar o ato na minha gaveta e esperar para ver”, conta.

“No dia seguinte os jornais publicaram a notícia e a foto. Juscelino mandou me chamar. Quando me viu, perguntou ‘o que você fez com o ato de nomeação do Josué’. O coração em pânico, disse guardei-o, ou mandei-o para o Sette (Câmara), não me lembro. Juscelino ergueu os braços e disse ‘bendita inspiração! O Jango esteve aqui e me disse não concordar com a nomeação’”. Autran Dourado não diz se Josué mentiu ou se João Goulart recuou.

A história julga com muito rigor os governantes que só se preocupam em conter despesas e em acatar as ordens dos organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse sentido, melhor do que Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek negociavam com mais perspicácia. Cumpriam pouco do que estava prescrito nos acordos. Autran Dourado acredita que JK, por ser “ingênuo”, achava que poderia iludir o FMI. No Ministério da Fazenda, JK colocou um ministro rigoroso, Lucas Lopes (pai de Chico Lopes, o que esteve no Banco Central), mas não atendia seus rogos de cortar os gastos públicos. “JK era um homem imaturo. Mas, sem os homens imaturos que têm um grande sonho, o que seria do mundo?”

Jânio Quadros, o esperto, enganou JK

Não há político bobo — há, isto sim e às vezes, político inculto. Mesmo os incultos aplicam rasteiras nos intelectuais e jornalistas. Um auxiliar de Juscelino, Geraldo Carneiro, julgando-se muito esperto, caiu na lábia de Jânio Quadros.

Se dizendo depressivo por causa da morte do pai, a barba por fazer, Jânio Quadros dizia a Geraldo Carneiro: “Vou renunciar ao governo de São Paulo. Diga ao presidente que não tenho recursos e vou precisar de um emprego”. Geraldo contou a história a JK, que apresentou uma solução: “Vai haver em Paris uma reunião da Unesco. O Jânio se licencia do governo de São Paulo e eu o nomeio delegado do Brasil. Ele vai ganhar uns 10 mil dólares e descansar e beber em Paris. Quando voltar, estará outro. Calmo, reassumirá, e se chegará mais a mim”.

Habilidoso, Jânio Quadros exigiu uma carta de JK nomeando-o para a “missão”. No fim, por recomendação de Autran Dourado, JK mandou apenas um telegrama. “Três dias depois Jânio reuniu a imprensa e leu o telegrama. ‘Infelizmente não posso no momento abandonar o povo de São Paulo’, disse ele. ‘Não aceitarei o convite do presidente’. Quando eu entrei no gabinete de JK, ao contrário do que esperava, ele estava sorridente. Perguntei se ele havia lido o jornal de São Paulo que eu lhe enviara. Ele disse que sim, mais uma vez aprendera que em política qualquer moleque pode lhe passar a perna”. JK, como diz Autran Dourado, foi ludibriado como um patinho, por confiar no auxiliar.

Se Jânio Quadros era maneiroso, João “Jango” Goulart, pelo contrário, era “pouco” inteligente. “Jango era sabidamente muito ignorante. Eu guardava comigo uns bilhetes que ele escrevia ao presidente, sempre pedindo alguma coisa para os seus pelegos. A fim de não cair em erro de regência, ele os escrevia à maneira de mensagem telegráfica. Que esperto, o mocorongo, disse San Thiago [Dantas]. O que não impede de ser de uma ignorância comovedora. E se dobrou de rir. Quando viu o que tinha dito, recolheu o riso.”

Com uma viagem de JK para Portugal, Jango assumiu, e, conversando com Augusto Frederico Schmidt e Autran Dourado, disse que a Europa era muito velha, não tinha nada de interesse maior. “Que o Brasil, sim, era o país do futuro. O Schmidt, embora eu lhe segurasse o braço, se levantou e disse ‘um homem da sua posição, pelo seu cargo, não tem o direito de dizer uma bobagem dessas’. E se levantou, dizendo baixinho para mim: ‘Diga ao Juscelino que foi um gesto impensado, volto mais tarde para explicar’”.

Kennedy dos Trópicos

Juscelino, conclui Autran Dourado, amava mesmo as pessoas humildes, que também o adoravam. Tanto que era favorito para as eleições de 1965. JK só pensava nelas (eleições e, vale acrescentar, mulheres).

Juscelino era uma espécie de Kennedy patropi. Como Kennedy, adorava as mulheres, o poder, divulgar o que fazia. Ao contrário de Kennedy, não era bonito, mas sua simpatia abundante virava beleza depois de alguns minutos de conversa, pelo menos para as mulheres, que o achavam irresistível. Mas talvez JK fosse mais parecido, do ponto de vista político, com outro norte-americano, Franklin D. Roosevelt. JK, como Roosevelt, avaliava que o Estado devia, sim, financiar o desenvolvimento.

No final do livro, Autran Dourado diz: “Não conseguira entender bem o homem Juscelino, tão contraditório, que havia atrás do mito que eu ajudara a criar”.

Resgate de Augusto Frederico Schmidt, personagem que a história esqueceu

Juscelino Kubitschek, Autran Dourado (ao centro, escondido) e Augusto Frederico Schmidt | Foto: Reprodução

Nos governos há “personagens” que, mesmo decisivos, não são captados pelos historiadores, sempre em busca dos grandes homens, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. A história esquece quem não está na proa. Ao recuperar a figura de Augusto Frederico Schmidt — visto em outras memórias tão-somente como lobista ou autor de frases grandiloquentes postas na boca de Juscelino Kubitschek —, Autran Dourado praticamente justifica o livro.

As relações de Autran Dourado e Schmidt eram boas, mas às vezes tensas. “Se eu fosse você, não teria junto de mim um escritor com uma capacidade de observação como a dele, como demonstra nesse livro. E sabendo o que ele deve saber de você”, disse Schmidt a Juscelino.

Autran Dourado demorou a escrever as memórias, e só o fez instado pelo escritor e crítico literário Silviano Santiago. A rigor, com o livro, não prejudica, em nada, a imagem do mineiro JK. Deixa o mais nuançado, digamos.

Schmidt é visto amorosa e criticamente por Autran Dourado. “O Schmidt seria um belo exemplo de homem político que nunca exerceu cargo público, exceto sua missão à ONU, mas influenciou bastante o governo de JK. Ele só se prejudicava por ser um homem extremamente vaidoso e de apetite às vezes desmedido. Era o ghost-writer de JK, que a ele confiava os discursos realmente importantes, nos quais desejava dizer alguma coisa. O presidente não carecia de dizer o que queria, o poeta era de um faro e de uma visão impressionante sobre o Brasil. Depois de escrito o discurso, JK dizia ‘é incrível, Schmidt, era isso mesmo que eu queria dizer!’ Eu ria escondido”, escreve Autran Dourado. (Hoje, em vez de ir adiante do que pensa o governante, os auxiliares costumam ficar aquém. Preferem preservar os empregos a dizer uma verdade inadiável ao chefe.)

Se há exageros nos elogios a Schmidt, pelo menos Autran Dourado dimensiona uma voz que estava silente. “O poeta foi muito injustiçado, e boa parte dessa injustiça se deve ao fato de ter sido ele rico, intelectual, muito inteligente e de grande visão [era amigo de Valéry Larbaud]. É preciso que se diga, e disso dou testemunho: metade da grandeza do governo de JK se deve a ele, e eu lhe faço agora justiça. Em geral os políticos brasileiros gostam de aves de voos rasteiros, das rolinhas por exemplo, tão à maneira de seus espíritos acanhados. Para mim, uma das virtudes de JK foi ter sabido escolher o Schmidt e saber usá-lo. Mas JK no fundo tinha inveja da grandeza, brilho e capacidade dele.”

Um fato irritava JK: Schmidt escrevia seus discursos e não guardava segredo da autoria. “Outro defeito de Schmidt era introduzir nos discursos interesses seus de natureza não muito canônica.” Num discurso, Schmidt introduziu ideias para favorecer a Orquima, empresa que presidia (na verdade, a empresa era dirigida por Kurt Weill. Delicado, Autran Dourado diz que Schmidt era “uma espécie de relações públicas”, sinônimo de lobista). Para evitar contratempos, o secretário de Imprensa podava trechos e insistia para JK ler os discursos antecipadamente. JK não lia e ainda dizia para Autran: “Vá pentear macaco”. JK não tinha paciência para ler textos extensos e, mesmo, curtos. Registre-se que Schmidt ficava irritado com os cortes.

O presidente Café Filho — aliado de militares e de Carlos Lacerda (que dizia: “Juscelino não será candidato, se for candidato não será eleito, se for eleito não tomará posse, se tomar posse não governará”) — mostrou a JK um manifesto dos militares que vetavam a sua candidatura.

Ao sair do gabinete de Café Filho, JK ligou para Schmidt, que desconfiava da coragem do pessedista. Autran Dourado confirmou que JK era corajoso. E sugeriu uma frase para o discurso que marcaria a posição de Juscelino a respeito do veto dos militares: “Deus poupou-me o sentimento do medo”. “É bonita e de muito efeito, disse Schmidt. Mas será que o nosso homem a dirá? Vamos ver, acho que sim, experimentemos, disse eu.” JK e o general Nelson de Melo encresparam-se com a frase. A mulher do general Nelson, Odete, foi chamada para “decidir”. Convencida por Schmidt de que Nelson seria o chefe da Casa Militar, Odete deu o “parecer”: “Pode dizer, numa hora como esta é preciso se mostrar homem. É o que se espera”.

Pronunciado o discurso, a frase ficou famosa. “JK parecia realmente convencido de que era muito corajoso”, ironiza Autran Dourado. Adiante, contemporiza: “O convívio veio me revelar, junto a um certo lado mesquinho, um Juscelino para mim desconhecido: corajoso, firme, decidido, generoso ao extremo, tendo mesmo a coragem de enfrentar o general Lott, que, já no governo e intramuros, com muito sentimento é verdade, ele chamava de o Condestável, cuja presença o incomodava, talvez por ver nele seu protetor e vigilante. Quando Lott teve de deixar o Ministério para se candidatar à Presidência, JK me disse todo alegre e eufórico: ‘até que enfim fiquei livre do Condestável’”.

Num de seus livros de memórias, Juscelino se diz o único criador da Operação Pan-Americana. Autran Dourado resgata a história do verdadeiro formulador — o poeta Schmidt, que tinha o hábito de receber os amigos pelado (“gordo, grande e peludo, o sexo à mostra”, anota o escritor).

Autran Dourado contou ao poeta que o vice-presidente dos Estados, Richard Nixon, foi recebido pelo povo em Caracas a pedradas, “depois de ser cuspido em Lima”. Schmidt perguntou: “O que o Juscelino pretende fazer? Ele me telefonou para que fosse providenciado um telegrama formal de solidariedade ao Eisenhower, disse eu”.

Inteligente, Schmidt percebeu a oportunidade de um gesto mais grandioso. “Nada disso, um telegrama é muito miúdo e provinciano. Juscelino não é mais simples mineiro, mas o chefe da nação, a quem compete dirigir a nossa política externa. Onde está o homem?”

Localizado JK, Schmidt disparou a metralhadora: “Chegou o momento de você crescer internacionalmente, afirmar-se como um grande estadista. Na carta que me proponho a escrever, você deve manifestar-se a sua convicção de que alguma coisa necessita ser feita para recompor a face da unidade continental, que foi duramente atingida. Dizer-lhe que você ainda não tem um plano minucioso, detalhado e objetivo, apenas umas ideias sobre o pan-americanismo, cujo destino o preocupa. Que poderá expor-lhe oportunamente o que pensa, se a ocasião se apresentar. Vou escrever uma carta memorável!”

Schmidt desligou o telefone e disse: “Tenho até o nome, Operação Pan-Americana”.

José Maria Alkmim perguntou quem havia escrito a carta, e JK, sem sequer corar, disse: “São umas ideias antigas que eu tinha sobre pan-americanismo, o Schmidt foi apenas a mão que escreveu”. Alkmim, língua de trapo, replicou: “Só a mão?” JK enfureceu-se: “Você está querendo insinuar, na presença deles (Sette Câmara e Autran), que eu sou um mentiroso!?”

O Departamento de Estado Norte-Americano espantou-se com a proposta de JK-Schmidt. O chanceler Foster Dulles veio ao Brasil e sugeriu que os investimentos maciços fossem apenas no país, não para os vizinhos. Schmidt disse “não” e Juscelino repetiu o “não” — queria apoio para toda a América Latina.

Depois da Operação Pan Americana (OPA), os Estados Unidos aumentaram os investimentos na América Latina, até em empresas estatais, como a Petrobrás. Schmidt acreditou que, até por gratidão, seria nomeado ministro das Relações Exteriores. Mas JK vetou. E explicou o “motivo” para Autran Dourado: “‘O Schmidt está certo de que será o ministro do Exterior. Eu mesmo um dia tive a leviandade de chamá-lo de ministro. Procure o homem e lhe diga que eu, por poderosas razões políticas, não tenho outro jeito senão nomear o San Thiago Dantas’, disse o presidente. Mas o senhor vai mesmo nomear o San Thiago? disse eu. Ele sorriu e disse ‘não’, é porque o Schmidt é inimigo do San Thiago e, à ideia da nomeação do San Thiago, ele abrirá mão de suas pretensões. Mas por que o Schmidt, com tantos títulos e serviços prestados, não pode ser ministro? disse eu”.

Autran Dourado diz que “JK demorou a responder, vi que ele se sentia envergonhado diante de mim”. Mas teve coragem de dizer: “Por vários motivos, principalmente porque ele é um homem muito inteligente e brilhante. Diga a ele que pode indicar quem quiser para ministro e que quem vai mandar na política externa do Brasil é ele. O outro será pro forma. Sugira alguém medíocre como o Negrão de Lima, que é quem na verdade me convém”.

Ao ser informado do veto, Schmidt chorou e disse: “O Juscelino é um canalha!” Depois, mais contido, arranjou uma explicação: “É, Autran, a política não é feita por homens de alma delicada como a nossa”. Autran Dourado diz que JK tinha inveja de Schmidt. “Se Schmidt tivesse ido para o Itamaraty, por seu jeito de ser, pelo seu grande talento, a grande figura da política externa brasileira seria ele e não o presidente. A OPA é realmente de quem a concebeu: de Augusto Frederico Schmidt”. Justiça, tardia, mas feita.

Mulheres
Um sheik árabe no país do futebol

Juscelino Kubitschek era mulherengo, dos piores (ou melhores, dependendo da ótica). Cantava até as mulheres dos amigos, as que davam sopa, lógico. Amigos contam que algumas mulheres achavam JK charmosíssimo — não era raro ser cantado por mulheres do primeiro escalão da beleza.

A atriz Kim Novak ficou impressionada com a conversa e o charme daquele homem feio, mas jeitosíssimo com as mulheres. Segundo o biógrafo Claudio Bojunga, nada aconteceu entre eles. Não por falta de vontade de Kim Novak e, sobretudo, de JK. Mas não deu tempo.

Os casos de Juscelino eram muitos. O amor por Maria Lúcia Pedroso parece ter sido o mais intenso. “Maria Lúcia era linda, apesar da baixa estatura. Loiríssima, era parecida com a atriz Kim Novak”, conta João Pinheiro Neto, autor do sensacionalista “Juscelino — Uma História de Amor”. Maria Lúcia, casada com o deputado José Pedroso, era ciumenta: “Ou você dissolve seu comitê feminino, ou nunca mais vai me ver”. JK não dissolveu, nem Maria Lúcia (Lucinha, segundo Autran Dourado) sumiu. Pinheiro Neto, fofoqueiro exemplar, garante que JK quis se casar com Maria Lúcia.

No seu “Gaiola Aberta”, Autran relata uma desavença com o marido de Maria Lúcia: “O deputado José Pedroso mandou me dizer que ia me dar um tiro na cara”. O coronel Nélio Cerqueira Gonçalves ofereceu um revólver para o escritor: “Eu agradeci a gentileza e disse ‘do José Pedroso eu só tenho medo de chifrada’. O Nélio riu, sabia o que eu queria dizer, no Palácio do Catete não era segredo”.

Sarah, a oficial, metia medo em JK, que a chamava, para os amigos, de “tigre” e “onça”. Certa vez, apaixonado, disse para seus auxiliares mais próximos: “Não volto mais para o Rio. Para a Sarah, jamais! Para a Presidência, não sei”. Dias depois, JK estava bem, sorrindo, “lampeiro”, como diz Autran Dourado.

Juscelino, segundo o bem informado Geraldo Carneiro, teve várias paixões, mas, “descabeladas”, só três.

Homem descuidado, Juscelino perdeu uma parte de seus diários, que foi encontrada por um chantagista. O escroque exigiu que JK o indicasse para diretor financeiro de uma empresa privada. JK conseguiu a nomeação.

O infarto do presidente Juscelino

Medo de político Autran Dourado não tinha, mas pelava de medo de Sarah Kubitschek. “Como Juscelino, como toda gente, eu tinha medo dela.” Chamado por Sarah, às 7h30, o secretário de Imprensa ficou arrepiado.

“Chamamos você aqui porque o Juscelino teve um infarto, disse ela. Queríamos saber a sua opinião, você que é o secretário de Imprensa. Todos aqui são favoráveis a que não se divulgue nada. A minha opinião, dona Sarah, é que se deve revelar o fato. De jeito nenhum, disse ela. Primeiro tem o Jango, vice-presidente, que é figura suspeita para os militares. Juscelino não pode demonstrar fraqueza.” Os jornalistas desconfiaram e começaram a cobrar informações sobre a doença do presidente. Para enganá-los, Autran colocou o chapéu de JK e entrou num helicóptero. “A uma certa distância acenei para os jornalistas, como fazia JK.”

Em Belo Horizonte, Autran ligou para um jornalista, que falou do infarto. Resposta do secretário de Imprensa: “Infarto coisa nenhuma, você quer uma declaração dele? Redigi uma declaração de JK sobre um fato qualquer importante, li para o meu amigo, que informou ao Rio que o presidente estava bem e que tudo não passava de boato”.

O presidente que se cercou da fina flor da intelectualidade

Talvez por ser “inculto” (ma non troppo), mas não bobo, Juscelino Kubitschek cercou-se da mais fina flor da intelectualidade de seu tempo. Cristiano Martins, tradutor da “Divina Comédia”, a obra-prima de Dante, de Goethe e Rilke, escrevia para JK. Suas muito bem escritas cartas nada diziam, conta Autran Dourado. O governante precisa de cartas desse estilo que, aparentando dizer muito, nada dizem. Os poetas Alphonsus Guimaraens e Nilo Aparecida Pinto, além de Cristiano, cuidavam da correspondência. O diplomata Sette Câmara — competente, segundo Autran Dourado — era subchefe de gabinete. A tese de direito de Sette Câmara, “The Retification of International Treatise”, ganhou prefácio de Hans Kelsen. O grande crítico literário Álvaro Lins (que começou bem e terminou mal) era o chefe da Casa Civil. O secretário de Lins era Francisco de Assis Barbosa (biógrafo de Lima Barreto). O subchefe do gabinete civil era o autor de “O Amanuense Belmiro”, Cyro dos Anjos, que contava com o apoio de Darcy Ribeiro (que, jovem, já era bem falastrão). O contista Murilo Rubião foi chefe de gabinete do JK governador de Minas.

“JK, que tinha mania de escritor, nunca teve nenhum problema de corrupção com qualquer dos seus escritores de estimação”, sustenta Autran Dourado.

Se adorava seus escritores, ou pelo menos fingia, JK não tolerava intelectuais, sobretudo os pedantes. Os do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), JK achava meio ridículos, mas tolerava. O Iseb tinha como membros notórios “o filósofo Roland Corbisier, de pensamento muito confuso, Hélio Jaguaribe e o diplomata Oscar Lourenzo Fernandes, que vinham tentando atuar no governo da República desde o segundo período de Getúlio Vargas, sem muito êxito, e que eram motivo de chacota”.

Embora inteligente e, politicamente, muito esperto, JK, na opinião de Autran Dourado, “tinha às vezes ideias que à primeira vista me pareciam brilhantes, mas ele não se detinha nelas, não as aprofundava. Assim como apareciam, iam embora como o vento. E surpreendentemente uma ideia insignificante o prendia de maneira estranha. Eu atribuo o fato ao seu entourage, de que ele gostava tanto, de algo grau de ignorância e mesmo cafajestismo”.

De novo, o autor de uma ideia “original” não foi JK, mas Augusto Frederico Schmidt. “Logo no início do governo JK, o Schmidt aconselhou-o a conviver com gente mais culta e inteligente. Cafajeste é para campanha, para carregar nos ombros, disse ele. Já tenho os meus escritores, que não me dão problemas, disse JK. Mas você não convive com eles, não os convida para almoçar e jantar, não lhe dá importância, disse o poeta. Eles são máquinas de trabalhar, mas de qualquer maneira dão nome ao seu governo. Quando chega a hora de jantar estão mortos de cansaço.” JK disse para Schmidt sugerir um intelectual. Schmidt indicou Afonso Pena Júnior. “Aquela múmia ainda está viva? disse JK dando uma enorme gargalhada, no que foi seguido pelo entourage. Um grupo de intelectuais da altitude de Afonso Pena Júnior jamais faria coro de gargalhada a um dito que o presidente considerava brilhante ou inteligente.” É por isso que todo governante “precisa” ter, ao seu lado, gente que não pensa, mas que sabe seguir e adornar o poderoso. JK “não se sentia muito à vontade diante dos homens cultos ou eruditos”.

Certa vez, sentindo-se só, JK mandou chamar Autran Dourado. Depois de conversas miúdas, pediu sugestão sobre um bom estudo a respeito de políticos. O escritor indicou “Mirabeau ou o Político”, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset. “Filósofo? disse ele franzindo o nariz.”

As relações de Juscelino com os donos de jornais e os jornalistas eram muito boas. Pompeu de Sousa, diretor do “Diário Carioca” (DC), procurou Autran Dourado e disse: “Depois de amanhã o jornal não sai mais. É que o Horácio [de Carvalho, dono do jornal] raspou o caixa, foi para Paris, não temos dinheiro para pagar o pessoal da redação e da oficina, e já estamos no dia 12”. Autran Dourado contou a história a Juscelino, que disse: “O jornal não pode parar. Telefone para o Sebastião”. Sebastião Paes de Almeida, o empresário-presidente do Banco do Brasil. Paes de Almeida pediu que Autran Dourado levasse uma mala ao Copacabana Palace. “No outro dia, lá estava eu com a mala. Cumprimentei o Sebastião, que chamou alguém. Veio um jovem com outra mala, apanhou a minha, trocou-a pela dele, cheia de dinheiro. Meu coração batia descompassadamente.”

Mentira de Autran Dourado beneficiou leitores de Machado de Assis

No governo de Juscelino, a obra de Machado de Assis ainda não estava sob domínio público e, por isso, as edições “oficiais”, da Jackson Inc., eram muito descuidadas. Autran Dourado decidiu, então, pregar uma mentira. Disse ao amigo Marco Aurélio Matos que “o presidente estava interessadíssimo em desapropriar a obra do grande escritor ou declará-la de domínio público, só carecia de apoio popular e cultural, sobretudo jurídico, pois lhe teriam dito que a obra era legalmente da Jackson Inc. E ele lê Machado? disse Marco Aurélio. Pelo tipo psicológico [católico e sentimental] não parece. Algum amor mal contrariado, ultimamente só tem lido o mestre, disse eu”.

Empolgado, Marco Aurélio reuniu grandes jornalistas, como Carlos Castelo Branco, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira, todos machadianos, que começaram a defender a “desapropriação” da obra de Machado de Assis. Autran Dourado também agiu: “Procurei o dr. Gonçalves de Oliveira, consultor-geral da República, a quem disse que o presidente estava interessadíssimo em considerar a obra de Machado de Assis de domínio público. O caso é sério, diga a ele que eu preciso de uma semana para estudar bem o assunto e dar o meu parecer”.

Com o parecer nas mãos, Autran convocou a imprensa para o dia seguinte, “quando o presidente assinaria o ato. Levei comigo para o palácio o meu exemplar de ‘Dom Casmurro’, disse ao presidente que fingisse que estava lendo. O que você está me aprontando, me perguntou. Basta assinar aqui, amanhã o senhor vai ver que maravilha. No alto do parecer estava escrito apenas APROVO. JK assinou sem me perguntar o que era”.

“No dia seguinte foi fotografia de JK na primeira página de todos os jornais. Quando entrei no seu gabinete, ele disse isso, sim, é que é serviço. Eu não entendo a imprensa: fiz uma coisinha de nada e veja que repercussão.” Os machadianos deveriam agradecer, de joelhos, a mentira, uma mentira verdadeira, de Autran Dourado.

Um intelectual, Álvaro Lins, sai malíssimo do livro de Autran Dourado. Era honesto, concede Autran Dourado. O refinado crítico literário — que escreveu por exemplo sobre Proust — queria ser governador de Pernambucano.

Chefe do Gabinete Civil de JK, Álvaro Lins “tinha um hábito muito engraçado. Quando um parlamentar ou político importante ia procurá-lo, ouvia atenciosamente, tomava nota num papelucho, deixava-o sobre a mesa, e nele parecia não mexer mais. Como os assuntos não se resolvessem, alguns políticos procuravam principalmente o oficial de gabinete Geraldo Carneiro, que ficava mais perto do presidente”.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras, Álvaro Lins compareceu no dia da posse bêbado e com um discurso enorme e confuso. A “Tribuna da Imprensa” destacou a bebedeira de Lins. JK nomeou-o embaixador em Portugal. Não satisfeito com os problemas que deixara no Brasil, o embaixador começou a conspirar contra Salazar.

“Sobre a sanidade mental do Álvaro nada posso dizer com bastante certeza, somente dar dois indícios. O primeiro se refere à visita da rainha Elizabeth a Portugal, quando numa carta ao presidente ele disse que fez questão de se sentar ao lado dela para melhor lhe dizer como era Juscelino, traçar um retrato perfeito do grande estadista que ele era. Seguia-se uma narrativa um tanto ou quanto estapafúrdia, que não fazia muito sentido”, registra, com certo mau-humor, Autran Dourado.

Noutra carta, Álvaro Lins foi ainda mais ridículo: “Álvaro dizia que havia levado consigo alguns discos com discursos do presidente. Para matar a saudade, ele se deitava no chão e se punha a ouvir a voz de JK. O presidente não leu a carta, passou-a para mim”, diz, maldoso, Autran Dourado.

Juscelino planejou fazer sessões de análise

O trabalho pesado na Presidência da República comia o tempo de Autran Dourado, que acabava praticamente nada escrevendo. Estafado, tentou se matar: “Acabei o resto do uísque, fui para o banheiro. Fechei o basculante e liguei o aquecedor. E comecei a sentir muito forte o cheiro de gás. E acreditei ouvir nitidamente uma voz feminina me dizer, estranhamente soando nítida dentro de mim, não faça isto, não se deixe vencer. Não se deixa vencer pelo demônio. Na sua mesa, no escritório, há uma coisa para você”. De fato, havia. Seguindo conselho do psicanalista Helio Pellegrino, Autran se curou escrevendo. JK, ao saber das sessões de análise, disse que, ao acabar o governo, faria análise.

Fidel Castro era o rei do tédio

O construtor de Brasília, Israel Pinheiro, detestava gastar dinheiro com publicidade. Talvez por isso a imprensa bombardeava a construção da capital — a Ferrovia Norte-Sul da época. Autran Dourado, ampliando ideia do coronel Afonso Heliodoro, sugeriu que Juscelino Kubitschek convidasse o escritor inglês Aldous Huxley e o ministro da Cultura da França, André Malraux, para visitar Brasília.

Malraux apaixonou-se por Brasília, a capital da esperança. Huxley, sempre extravagante, depois de ter viajado de Ouro Preto para Brasília, disse: “Uma viagem do ontem para o amanhã, do que terminou ao que vai começar, das velhas realizações para as novas promessas”. Sucesso absoluto, Malraux e Huxley.

Dos visitantes de Brasília, Fidel Castro foi o mais entediante. Escreve Autran Dourado: “Mal nos assentamos e o carro se pôs em movimento, dois policiais cubanos treparam nos para-lamas dianteiros e começaram a dar pancada em quem tentasse se aproximar de JK e Fidel. JK, que não gostava de seguranças e guarda-costas, me disse depois ter ficado horrorizado. Eles não careciam daquilo, os candangos são gente calma e pacífica, desejavam apenas nos ver de perto e saudar o visitante”.

Enjoado do papo-quase-cabeça de Fidel Castro, JK chamou Autran, que não pôde atendê-lo. “Quando me dirigia para o interior da biblioteca, fui barrado pelo barbudo que ali estava como guardião. Estranhei e disse alto que a casa era minha, que eu era secretário de Imprensa do presidente. Mesmo assim o barbudo não me deixava entrar. Vendo o meu estado, JK me perguntou o que estava acontecendo. É este barbudo que não quer me deixar entrar, disse eu. Não tenho o interesse pelo que estão conversando, o senhor é que me chamou, mas eu só fico de fora se aquele outro barbudo sair. Era nada mais, nada menos do que o famoso revolucionário Che Guevara, viria a saber depois.”

A confusão foi proveitosa para JK. “Estou louco para mijar, não aguento mais este cucaracha!” Na hora do banquete, Fidel Castro fez um discurso de uma hora. Até os pratos, certamente, “dormiram”.

Como Darcy convenceu JK a criar a UnB

Darcy Ribeiro tentou convencer o escritor Cyro dos Anjos a levá-lo a Juscelino Kubitschek. Darcy queria sugerir a construção de uma universidade em Brasília. Autran Dourado disse: “Posso tentar, mas não leve nada escrito para ler (sabia de sua fama)”.

Quando Autran Dourado relatou a ideia de Darcy, o presidente fechou a cara. “Não, de jeito nenhum! Não quero nem estudante nem soldado em Brasília, no máximo corpo de guarda.” O secretário de Imprensa retrucou: “…(a universidade) será a base cultural da cidade. O senhor está pensando que constrói uma cidade monumental, uma capital modelo e, no final das contas, está fazendo a maior cidade do interior, acanhada e provinciana. JK arregalou os olhos e disse é capaz de você ter razão, vou pensar no assunto”.

Convencido de que a ideia era boa, e daria repercussão, JK recebeu Darcy, que, falando demais, agradou o presidente, que não queria, porém, ouvir nada sobre currículos. “O que interessava mesmo a ele era dizer que estava erguendo a mais importante e moderna universidade do Brasil. Era o que ele mais perguntava ao Darcy. O Darcy percebeu logo esse lado de JK e era sobre o que ele mais falava.”

Resenha publicada pelo Jornal Opção em 2000.

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