Euler de França Belém
Euler de França Belém

Amor leva o casal Lale e Gita a sobreviver nos campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau

Posto para trabalhar como tätowierer em Auschwitz-Birkenau, o judeu Lale Eisenberg decide ajudar as vítimas do nazismo da Alemanha

Nos campos de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, apesar da crueldade dos nazistas da SS, havia espaço para a solidariedade e o amor, como é o caso da paixão dos judeus Lale e Gita

Se a história macro da Segunda Guerra Mun­dial já foi contada por historiadores da estirpe de Richard Evans, Richard O­very, Antony Beevor, Andrew Roberts, Ian Kershaw (biógrafo de Hitler), Max Hastings, Timoty Snyder, Laurence Rees, Martin Gilbert, Peter Longerich (biógrafo de Himmler e Goebbels), Nor­man Davies e Robert Gel­lately, a micro história, a de personagens isolados, ainda está sendo resgatada tanto por pesquisadores quanto por escritores. “O Tatuador de Auschwitz” (Planeta, 234 páginas, tradução de Carolina Caires Coelho e Petê Rissatti), de Heather Mor­ris, é um romance histórico. Mais “histórico” do que “ro­man­ce”, por assim dizer. É um desses livros pequenos com uma história grandiosa. É a “história real de um amor que desafiou os horrores dos campos de concentração”. No caso Aus­chwitz e Birkenau, campos de concentração e extermínio localizados na Polônia.

A história de Lale e Gita, que se conheceram em Auschwitz, é extraordinária.

Aos 26 anos, Luwig Eisen­berg, conhecido como Lale, era um jovem belo, educado e galanteador de Krompachy, Eslová­quia. Com a Alemanha de Adolf Hi­tler vencendo a guerra na Eu­ro­pa, até com certa facilidade, o go­verno da Eslo­váquia avisa às fa­­mílias dos judeus que um de seus integrantes teria de trabalhar para os nazistas. Max, o ir­mão mais velho, prontificou-se a ir, mas, como era casado e tinha dois filhos, Lale decidiu substitui-lo.

O tätowierer

Em 23 de abril de 1942, ao lado de outros judeus, Lale é transportado para Auschwitz num trem. Levou livros, um pouco de dinheiro e roupas. Lá, de cara, tomaram-lhe tudo, inclusive os amados livros e ganhou o número 32407 tatuado no braço esquerdo. Olhando a tatuagem, pensou: “Como alguém pode fazer isso a outro ser humano?”

Na entrada de Auschwitz, Lale leu “arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”). O jovem deu a si mesmo um conselho: “Faça o que lhe disserem. E sempre observe”. O comandante do campo, Rudolf Hoess, ameaçou: “Façam o que lhes disserem para fazer e sairão livres. Desobedeçam, e haverá consequências”.

Levado para o bloco 7, Lale prometeu a si: “Vou sobreviver e sair deste lugar. Vou sair daqui como um homem livre”.

Depois do trabalho na construção de blocos para o campo de concentração, Lale, outros judeus e alguns russos — como Andor e Boris — recebem uma comida, uma sopa estranhíssima, que não os alimenta adequadamente.

Um kapo, prisioneiro que se tornara chefe dos demais, simpatizando-se com Lale, convida-o para ser seu servo: levar sua comida e limpar suas botas. Era uma “promoção”.

Certo dia, várias pessoas são colocadas num ônibus e um integrante da SS joga um produto no seu interior. Há uma grande movimentação no veículo e, depois, silêncio. As pessoas haviam sido mortas. Lale fica abaladíssimo. No dia seguinte, não se levanta e arde em febre. “Demora sete dias para recuperar a consciência.” Debilitado, teve tifo.

Quando o corpo de Lale estava sendo jogado num carrinho para mortos e moribundos, o amigo Aron, com a ajuda do francês Pe­pan, arrancou-o de lá, salvando sua vida.

Quando melhorou, Lale recebeu o convite de Pepan (professor de economia em Paris), o tätowierer — o tatuador de Auschwitz-Bi­r­kenau (campos próximos, ambos na Polônia) —, para auxiliá-lo.

Inicialmente, Lale rejeita o convite, mas, pensando na sobrevivência, aceita se tornar tatuador. O primeiro-sargento Houstek, da SS, parece entusiasmar-se com o fato de ele falar eslovaco, alemão, russo, francês, húngaro e um pouco de polonês.

Com duas mesas, frascos de tinta e muitas agulhas, Pepan e Lale tatuam centenas de judeus em Birkenau, “o inferno dos infernos”.

Ao tatuar o número 34902 numa bela jovem, Gita, Lale treme. Tudo sinaliza que era amor à primeira vista. O namorador de outrora parece ter encontrado sua alma gêmea.

Depois de algum tempo, ao se apresentar para o trabalho, Lale não vê Pepan e Houstek avisa: “Você é o novo tätowierer”. Ao seu assistente Leon, ele diz: “Talvez isso salve a sua vida”.

Como tatuador-chefe, a vida de Lale “melhorou”, pois passou a receber refeições extras (que dividia com os amigos do bloco 7), mas chegou a ser chamado de “colaborador” por outros judeus. Seu controlador passou a ser Stefan Baretski, da SS.

Num domingo, Lale revê Gita, em Birkenau. Com o apoio do guarda Baretski, escreveu uma carta para a garota, que trabalha no “Canadá” — local “onde os prisioneiros separam os pertences das vítimas”.

Numa breve conversa, Gita lamenta para Lale: “Sou apenas um número. Você deveria saber disso. Foi você quem me deu”. Ela vivia no bloco 29.

Com o objetivo de conseguir comida e, às vezes, medicamentos, Lale começa a negociar joias, como diamantes, e dinheiro com os poloneses não judeus Victor e Yuri, que não eram prisioneiros e trabalhavam nas construções de blocos do campo de concentração, passaram a ser os “contrabandistas” do tatuador.

Em troca de diamantes e dinheiro, que eram retirados das roupas dos judeus de Aus­chwitz-Birkenau, Victor e Yuri entregam linguiça e até chocolate para Lale, que repassava para a kapo do bloco de Gita e para os amigos.

Quando Gita teve tifo, para evitar que os nazistas a matassem, as amigas, com o apoio de Lale, conseguiram protegê-la. Até o namorado conseguir remédio por intermédio de Victor.

Com o apoio de Baretski, Lale consegue transferir Gita para a administração do campo de Birke­nau. Lá, com o aquecimento, havia mais chances de ela se recuperar.

Quando Gita estava bem, Lale a surpreende com um pedaço de chocolate. Ela diz: “Por que chocolate é bem mais gostoso quando alguém nos serve na boca?” Escondidos dos olhares implacáveis dos nazistas, os dois se beijam ardentemente. A jovem reclama que não escovava dentes havia vários meses.

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Josef Mengele

No momento em que Lale e Leon estavam tatuando judeus, o médico Josef Mengele aparece em busca de “pacientes especiais”. Estava sempre assobiando músicas.

“Um dia, em breve, tätowierer, vou levar você”, diz Men­gele para Lale. Pega, na verdade, Leon. Mais tarde, Leon se apresenta, magérrimo, e relata que havia sido castrado pelo médico.

O namoro entre Lale e Gita continua. Estão apaixonados. Ela é realista: “Não temos futuro”. Lale pensa diferente: “Vamos sobreviver e construiremos uma vida onde seremos livres para nos beijar quando quisermos, fa­zer amor quando quisermos”. Ele sugere que, em Aus­chwitz-Birkenau, “escolher viver é um ato de rebeldia”.

Ao entrar numa câmara de gás, com vários judeus mortos, Lale desespera-se. Numa conversa com Gita, ele assinala: “De­ram-me a chance de participar da destruição de nosso povo, e eu escolhi fazê-lo para sobreviver. Posso esperar que um dia eu não seja julgado como criminoso ou colaborador”. Estava arrasado.

Denunciado, o contrabando de Lale é descoberto e dois oficiais da SS aparecem para prendê-lo. Jakub, um prisioneiro gigante que o tatuador havia alimentado, aparece para torturá-lo. “Como você, tätowierer, faço o que preciso para sobreviver”, afirma.

Espancado, ainda que não em excesso, Lale não revela os nomes das pessoas que o ajudaram no escambo de pedras preciosas e dinheiro por linguiça e chocolate.

Mesmo alquebrado, Lale é obrigado a carregar pedras. Está condenado e será fuzilado. Numa tentativa de se salvar, pede a Baretski que diga a Gita para informar Cilka que está no bloco 31, o dos que, provavelmente, serão mortos.

Cilka era obrigada a se relacionar sexualmente com o comandante-sênior de Birkenau, Sch­warzhuber. Ela pede e o nazista-chefe salva a vida de Lale.

De volta ao trabalho de tatuador, ao lado de Leon, Lale encontra-se com Gita e diz: “Feche os olhos e conte até dez”. Quando abre os olhos, ele frisa: “Eu ainda estou aqui. Nunca vou deixar você de novo”. O ânimo da garota não é o mesmo do conterrâneo.

Sob a proteção da kapo, Lale e Gita transam num bloco das mulheres. “Fazem amor com vagar e delicadeza. Ele sente seus olhos rasos d’água e segura as lágrimas. É o amor mais profundo que ele já sentiu.”

O reencontro

Em 1944, judeus húngaros começam a chegar em Auschwitz e Birkenau (Andor Stern, brasileiro filho de húngaros, possivelmente estava entre eles) e os ciganos, que haviam se tornado amigos de Lale, são levados para o crematório. A cigana Nadya conforma-se: “Não tenho escolha, Lale. Vou aonde o meu povo vai”.

Quando Lale e Leon estão tatuando judeus, cinzas do crematório começam a cair sobre suas cabeças. Sabendo que os ciganos haviam sido assassinados, o primeiro não se contém: “Seus desgraçados! Malditos desgraçados!” “Sente vontade de vomitar.” Mengele ameaça matá-lo.

Devido ao assassinato de judeus e ciganos, Lale, mesmo sempre tão confiante de que irá sobreviver, deprime-se. As palavras de Gita acariciam sua alma atormentada: “Você vai honrá-los [os ciganos] ao permanecer vivo sobrevivendo a este lugar e contando ao mundo o que aconteceu aqui”. Lale beija-a — com o “coração carregado de amor e tristeza”.

Em Birkenau, judeus que trabalhavam para os nazistas na operação das câmaras e crematórios, os sonderkommando, rebelam-se. Mas os integrantes da SS reagem e matam vários.

Lale começa a receber informações de que os soviéticos estão se aproximando dos campos de extermínio. “Mais pessoas estão deixando Birkenau do que entrando.” Chega 1945.

Leon “se foi”, possivelmente morto pelos nazistas. Gita conversa com Lale: “Os oficiais da SS… eles estão agindo de modo esquisito. Parecem estar em pânico”. O tatuador desafia o cruel Baretski: “Eu olho no meu [espelho, figurativamente] e vejo um mundo que vai derrubar o seu”.

Com os soviéticos à porta, já na Polônia, os oficiais da SS começam a destruir registros de Auschwitz-Birkenau.

Os prisioneiros são retirados dos campos. Gita consegue gritar para Lale: “Furman. Meu nome é Gita Furman!” Até ali, não havia dito seu sobrenome (o nome dela era Gisela Fuhrmannova). Ele devolve: “Eu te amo”.

Quando eram levadas de Birkenau para Auschwitz, Gita e algumas polonesas decidem escapar. Em Bratislava e Cracóvia, tentando encontrar parentes, Gita registra seu nome e endereço na Cruz Vermelha. Assusta-se ao ver dois soldados soviéticos, nas proximidades do apartamento onde está morando. Mas eram seus irmãos, Doddo e Latslo — eslovacos que haviam se tornado partisans.

Graças ao seu domínio de várias línguas, entre elas o russo, Lale começa a trabalhar para os soviéticos. Ele contou aos soldados e oficiais da terra de Stálin que “subvivera” em Auschwitz-Birkenau durante três anos.

De volta a Krompachy, encontra-se com a irmã, Goldie. Ao vê-lo, “ela desmaia”. Ele descobre que os nazistas mataram seus pais, Jozef e Serena Eisenberg, e que o irmão morreu lutando contra os alemães.

Goldie casou-se com um russo e seu sobrenome é Sokolov.

Comprando um cavalo e uma carroça, Lale sai à procura de Gita. Ao encontrá-la, “cai de joelhos”, paralisado. Ela diz as palavras mágicas: “Eu te amo”. Lale “desperta”: “Quer se casar comigo?” Ela concorda: “Sim, quero”.

Lale e Gita casaram-se em 1945, decidiram morar em Bratislava e se tornaram pais de Gary, nascido em 1961. Os dois conseguiram sobreviver, em larga medida, porque se encontraram e se apaixonaram em Birkenau. Uma era a “energia” do outro. Judeus do campo de extermínio decidiram proteger os apaixonados e, deste modo, contribuíram para que permanecessem vivos. Até o virulento Baretski protegeu-os.

O restante e os detalhes da bela e dolorida história ficam para aqueles que decidirem ler o excelente livro.

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