A mulher se impõe sem gritar e sem atos de força

Quando eu tinha 9 anos, meu pai disse que eu não poderia continuar estudando. Estudei, fiz faculdade e me tornei empresária

Mulheres protestando, do pintor Di Cavalcanti

Helenir Queiroz

Se você acha que pode ou acha que não pode fazer alguma coisa, nos dois casos você tem razão. A frase de Henry Ford reflete bem as consequências do nosso conformismo ou da luta determinada por nossos sonhos.

Não é diferente na rota das mulheres. Há as que dirigem seu próprio destino e há quem se conforma com os caminhos que aparecem.

O mundo dos negócios sempre foi um feudo masculino da mesma forma que o trabalho doméstico tem sido uma atribuição feminina, apesar de as mulheres  ocuparem quase a metade das vagas de empregos. A mulher trocou o avental pelo uniforme, mas ainda resiste a vestir o tailleur. Elas foram para o mercado, mas tanto as empresárias como as empregadas não deixaram a casa e os filhos; incorporaram o novo papel.

Grande parte dos homens entra no mundo dos negócios de forma natural. É o que se espera deles pois sempre dominaram o meio empresarial e político. Para as mulheres as coisas não são tão naturais assim. Elas precisam abrir o caminho.

Pintura de František Dvořák

As barreiras começam muito cedo, na limitação da visão de futuro, muitas vezes transmitida pelos pais. Isso tem mudado muito. Mas até mesmo estudar já foi um grande desafio.

Quando eu tinha 9 anos de idade, meu pai me disse que eu não poderia continuar estudando pois tinha que ajudar minha mãe a cuidar dos oito irmãos e das tarefas de casa.

Inconformada, lutei com unhas e dentes para continuar a estudar. Enxergava nos estudos o passaporte para sair daquele microcosmo. Consegui ser a única criança a frequentar o turno da noite, no Colégio Estadual de Itapuranga.

Meu pai agiu como determinava o figurino da época. Na visão dele o melhor futuro para mim seria casar com um homem trabalhador que garantisse o meu sustento e dos filhos.

Mas meus sonhos passavam pela Universidade e não pelo casamento.

A falta de clareza sobre o caminho a seguir leva as jovens a criarem elas mesmas as grandes barreiras que vão cercear seu futuro. Por incrível que pareça nos dias de hoje, contam-se aos milhares as jovens que engravidam na adolescência e abandonam os estudos para casar ou cuidar de filhos.

E às vezes levam suas filhas a repetir o mesmo padrão de comportamento. Uma diarista que trabalhou comigo se tornou avó aos 32 anos.

Por sua natureza a mulher tende a dar prioridade à família. É comum se sentir culpada por deixar os filhos para trabalhar. Muitas chegam a abrir mão dos estudos e da profissão.

O homem recebe outra carga cultural. Ele tem que trabalhar. Tem que crescer. Tem que vencer. Ainda é estranho quando um homem escolhe cuidar da casa e dos filhos.

As mulheres que são determinadas e têm uma visão clara dos seus sonhos não se conformam e rompem as barreiras. Sempre há histórias de muita luta de mulheres bem sucedidas, principalmente as mais velhas, que lidaram com forte preconceito contra a presença feminina no campo profissional.

Terminei o curso de Engenharia Elétrica no final dos anos 70 e era uma raridade uma mulher trabalhar nessa área. Na minha primeira visita técnica fui impedida de entrar numa construção de um prédio pois, segundo o mestre de obras, não era permitida a entrada de mulheres em obras de construção.

Mas agora os tempos são outros. Angela Merkel dá as cartas na Europa e já tivemos uma mulher na presidência do país, ainda que tenha nos decepcionado demais.

Na luta aprendemos que ser mulher pode ajudar e muito.

A mulher é educada para buscar a mediação e alternativas de consenso no seio da família, o que não significa menos empenho na solução dos problemas. Por natureza somos mais flexíveis, temos mais jogo de cintura.

Para evitar competir em desvantagem a mulher sabe esperar a hora certa. Planeja mais. Escolhe com quem falar e de que modo. Tem diversas formas de abordar uma situação difícil. Usa as armas necessárias. Faz com capricho o dever de casa.

E assim consegue se impor sem ser no grito ou na força.

E aos poucos o tailleur vai colorindo e trazendo charme às mesas onde se decide rumos da economia e da política para nosso país.

Helenir Queiroz, empresária, foi presidente da Associação Comercial e Industrial de Goiás. E-mail: [email protected]

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