A história da Rússia vai além da extinta União Soviética

Não há interesse do governo russo em perseguir uma política que não seja a do militarismo com um verniz geográfico e histórico

Vinicius Melo

A Rússia invadiu a Ucrânia. Há relatos de caças ucranianos e russos sendo derrubados, ataques ao que parecem ser embarcações da marinha mercante russa, e vídeos do que aparenta ser a queima de documentos em um ministério em Kiev. Vladimir Putin até o momento não demonstrou estar disposto a recuar desta decisão, apesar de possíveis consequências tanto para o país que governa quanto para Europa e o mundo.

Assistimos muitas discussões a respeito das motivações do gigante eurasiático em relação a sua política para com seu vizinho; nota-se, porém, um foco excessivo no passado recente da Rússia como núcleo da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O argumento é que, após um período de enfraquecimento, o objetivo de Putin é recuperar a força que seu país possuía no período da Guerra Fria como baluarte da experiência socialista.

É compreensível que a ideia da URSS venha a nossas mentes quando falamos da Rússia; afinal, durante o breve século XX, a potência socialista foi protagonista de momentos seminais da história – com destaque para a Segunda Guerra Mundial (da qual emergiu como um dos vitoriosos) e da Guerra Fria (e sua disputa político-ideológica com os EUA). Gerações viveram em um mundo onde era impossível ignorar o que a União Soviética representava, tanto por apoiarem ou rejeitarem a ideologia comunista, quanto pelo sempre presente risco de uma guerra nuclear que poderia destruir a vida na Terra como a conhecemos.

Vladimir Putin e Ióssif Stálin | Foto: Reprodução

Porém, é preciso termos uma perspectiva histórica maior em relação ao colosso russo para que possamos compreender melhor os acontecimentos no continente europeu.

A história da Rússia, obviamente, não começa com a Revolução de Outubro de 1917. Suas origens remontam ao Principado de Kiev no século IX (eis os laços históricos com ucranianos e bielorrussos), que duraria até o século XIII, quando caiu vítima das incursões mongóis lideradas por Batu Khan. Isso levaria ao surgimento de outros núcleos ao Norte, dentre os quais Moscou – a Moscóvia da Idade Média, palco da ascensão do Czar Ivan IV, “O Terrível” (ou “Pavoroso”, no que seria uma melhor tradução). A Moscóvia, assim como o Principado de Kiev, encontraria sua derrocada, no início do século XVII, com diversos povos (suecos, poloneses, cazaques e lituanos) disputando seu território. Por fim, em 1613, a dinastia Romanov ascenderia ao poder, iniciando um período de expansão do poderio russo que se estenderia por séculos.

A Geografia tem um papel importante na história de países e povos. Não se trata de determinismo, mas ela tem um peso tão importante quanto o das idéias; no caso da Rússia, esse peso faz-se notar. As estepes são uma área de planície com poucas fronteiras geográficas, onde o deslocamento por longas distâncias é facilitado, o que favorece movimentos de populações. Os sucessivos Estados russos enfrentaram movimentos expansionistas de mongóis, tártaros e outros povos, e a expansão territorial tornou-se uma necessidade para garantir sua segurança. A isso, somamos o fato de que o acesso ao mar dos russos é limitado (em sua maioria) ao litoral do Ártico, onde a navegação é dificultada pelo gelo; a busca por saídas para mares quentes, como o Atlântico e o Mediterrâneo explica a tentativa do Império russo de se expandir às custas de um enfraquecido Império Turco Otomano no século XIX.

Assim, motivada pela preocupação com sua segurança, a Rússia ascendeu ao status de um Grande Poder no Velho Mundo. Emergiu como um dos vitoriosos das Guerras Napoleônicas e, ao longo do século XIX, trabalhou ao lado de Grã-Bretanha, Áustria e Prússia para evitar a eclosão de outra guerra generalizada no continente – o chamado Concerto Europeu (a França seria admitida mais tarde). Esse arranjo garantiu a estabilidade e paz relativa até a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Em suma, a Rússia tem uma relevância na política internacional que data de séculos. Pode-se alegar que com o advento da Revolução Industrial e suas consequências sociais e econômicas, a Rússia viu seu poder relativo decair face aos demais Poderes europeus, já que sua estrutura social arcaica impedia mudanças mais profundas, e é verdade. Mesmo assim, nunca pôde ser considerada um ator desprezível. O período de retraimento após o fim da URSS, marcado por uma relativa retirada do cenário internacional devido aos problemas internos enfrentados durante a transição de modelo socioeconômico não é algo completamente estranho à história russa.

Por sua vez, Putin representa para uma parte considerável da população russa um período de retomada não apenas dos padrões de vida – terrivelmente abalados após o fim da URSS e a transição atabalhoada para o capitalismo – como também uma retomada do prestígio internacional. Não custa lembrar ao leitor que os anos 1990 na Rússia foram marcados pela presidência de Boris Yeltsin, que além de ter governado durante um período socialmente turbulento, teve diversas de suas aparições em eventos oficiais internacionais marcadas por uma evidente embriaguez e cenas constrangedoras. Durante seus dois primeiros governos, Vladimir Putin conduziu reformas econômicas que reduziram a vulnerabilidade russa à especulação financeira e permitiram a recuperação do padrão de vida da população. Existe uma razão para que goze de apoio substancial (o que obviamente, não muda o fato de ter paulatinamente reduzido as liberdades civis).

A Rússia tem razões para se incomodar com a expansão da União Europeia para o Leste Europeu, bem como a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte para a mesma região; e nunca é demais lembrar que a motivação para a criação da OTAN era a defesa contra uma possível agressão/tentativa de expansão da esfera soviética (chama a atenção o fato de que a aliança militar tenha se expandido após 1991). O entorno russo é historicamente uma área de interesse do país, onde fez sentir sua presença ao longo da história. A isso, soma-se o desagrado de Moscou com o que vê com um crescente unilateralismo por parte dos EUA, sendo um ponto de virada na relação entre os dois países a ação militar unilateral estadunidense contra o Iraque em 2004, contrariando a Organização das Nações Unidas. Quando Putin refere-se ao fim da URSS como uma catástrofe geopolítica, ele quer dizer que os EUA, agora sem um rival geopolítico de relevo, viram-se livres para agir sem nenhum contrapeso, o que contribuiu para a instabilidade mundial – não se trata do desejo de uma volta da União Soviética.

A estratégia de Putin para contrabalançar esses movimentos é questionável, ainda que suas preocupações tenham certa razoabilidade. A coerção via força militar pura e simples é uma via bastante limitada, e que pode ter o efeito de dar à expansão da OTAN e da EU o caráter de uma profecia autorrealizada; uma via alternativa para Moscou se consolidar como um pólo atrativo não apenas para os antigos territórios do Império e da URSS e pavimentar o caminho para um papel de maior relevância nas relações internacionais seria uma estratégia de persuasão; conforme sugerido por Dmitri Trenin, citado por Robert Kaplan em A vingança da Geografia, a Rússia poderia fazer uso de sua influência cultural nestes países como forma de manter sua influência, e possivelmente ampliá-la. A isso se somariam uma inserção no eixo econômico do Oceano Pacífico a partir da cidade de Vladivostok, na região mais oriental do país. Uma aproximação política com a Europa e econômica com a Ásia poderiam constituir uma alternativa para uma política russa no século XX.

Infelizmente, os acontecimentos das últimas horas parecem confirmar que não há interesse do governo russo em perseguir uma política que não seja a do militarismo com um verniz geográfico e histórico. Parafraseando o já citado Kaplan, Putin não tem ideias ou ideologia a oferecer à Ucrânia: o que ele tem é apenas a geografia. E apenas isso não basta.

Vinícius de Souza Melo é mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

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