A fuga de Juan Carlos, o rei acusado de suborno

O “por qué no te vás”, que poderá ter sido dita pelo filho, já se cumpriu e o rei, de fato, se foi. Mas pode ser que entregar os anéis não seja suficiente

Halley Margon

De Barcelona

Os principais jornais brasileiros ignoraram ou deram quase nenhuma importância à notícia que durante a semana passada esteve na primeira página de praticamente todos os grandes jornais do planeta: a fuga com destino até agora ignorado (início da madrugada de sexta-feira, 6 de agosto) do rei da Espanha Juan Carlos I (ressalte-se que a televisão deu destaque ao caso). Bem ao contrário do estardalhaço que fizeram quando esse mesmo rei, alguns anos atrás, então como chefe de Estado, mandou que outro chefe de Estado (Hugo Chávez, da Venezuela) calasse a boca.

Juan Carlos pedindo para Hugo Chávez se calar: retorno do colonialismo | Foto: Reprodução

O “¿por qué no te callas?” era indicativo de algumas coisas.

Primeiro, de uma tremenda falta de educação. Há uma certa civilidade que, hipocritamente ou não, é rotineiramente respeitada entre autoridades que, num determinado ambiente, comparecem não como pessoas representando a si mesmas, mas como ocupantes de postos que, por direito e escolha (gostemos ou não), lhes foram designados pela gente do seu país. Bolsonaro pode ser um “despreparado” ou um “crápula”, mas, até onde sei, foi escolhido presidente pelos eleitores brasileiros e, enquanto assim permanecer, será tratado em pé de igualdade pelos presidentes ou chefes de Estado de qualquer outro país. Essa é a norma. Gostássemos ou não de Chávez, tanto quanto o rei dos espanhóis naquela reunião, ele era o representante dos venezuelanos.

Segundo, havia muito mais que falta de educação na fala de Juan Carlos I. Havia arrogância. A asquerosa arrogância do conquistador e do colonizador face aos dominados. O psiquiatra e pensador caribenho (nascido na pequena Martinica) Frantz Fanon escreveu fartamente sobre essa relação num livro que, seis décadas após sua publicação, permanece tremendamente atual, “Os Condenados da Terra” (Editora UFJF, 376 páginas, tradução de Enilce Albergaria Rocha).

Os aplausos à frase de efeito do monarca repetiram-se mundo afora, encobrindo a descortesia e passando muito ao largo da arrogância que em qualquer outra circunstância deveria ser notada e rechaçada.

Talvez por isso a grande mídia brasileira, campeã nas louvações à ofensa dirigida ao inimigo de então, num indisfarçável ato falho agora mesmo deixe passar em brancas nuvens a manchetaça que nenhum grande jornal do Ocidente perdeu: “O epílogo pouco glorioso do reinado de Jan Carlos” (“Le Monde”), “Rei e ladrão de galinhas” (“France Inter”), “Suspeito de corrupção, Juan Carlos decide abandonar a Espanha” (“France Info”), “Uma escapada típica de um vulgar delinquente em fuga” (“Libération”). No grandão “NYT” uma das manchetes do dia 3/08 foi: “Juan Carlos, o ex-rei da Espanha, deixa o país em meio a várias investigações”. No “Washington Post”: “Onde está Juan Carlos? A Espanha se pergunta sobre o futuro do antigo monarca”. E por aí afora, na Inglaterra, Itália, Alemanha. Em algum momento, “O Globo” teria titulado algo bastante respeitoso: “Suspeito de corrupção, o rei Juan Carlos deixará a Espanha” — pelo menos foi o que li num dos jornais daqui. O “Estadão” também foi comedido: “Suspeito de corrupção, rei emérito Juan Carlos I deixa a Espanha”.

O fato é que o rei não deixou a Espanha, como afirmou os jornais carioca e paulista (e igualmente uma das vice-presidentes do atual governo espanhol). O rei se evadiu. Não se sabe como e nem para onde — por hora, apenas especulação, alguns dizendo que escapou rumo à República Dominicana, outros que foi na direção oposta, para Abu Dhabi. Não é réu confesso nem criminoso transitado em julgado, mas está a um passo de se tornar, tanto para o tribunal suíço que deu início ao processo, quanto para a Promotoria do Estado espanhol. “A partida de Juan Carlos I da Espanha foi decidida em uma reunião direta entre Felipe VI e seu pai, após um acordo alcançado por intermediários sobre como evitar que o escândalo envolvendo as contas do último em paraísos fiscais danifique a Monarquia”, escreveu “El País” do dia 5 último.

Felipe VI e Juan Carlos: a fotografia diz muito sobre o clima político e familiar | Foto: Reprodução

Não surpreendeu a ninguém. A coisa já vinha se complicando para o rei emérito havia algum tempo (ver meu artigo publicado aqui quase um mês atrás, em 12 de julho passado — “Escândalo financeiro abala a família real espanhola”¹).

O sumiço de Juan Carlos I serve ou poderia servir a inúmeros interesses. Dada a pressão que a cada dia se avoluma sobre a casa real e o próprio governo, parece ter sido a única saída viável. (Imagine-se a cena do rei cercado por policiais sendo conduzindo à prisão.) A operação de encobrimento seria reforçada com uma intensa campanha diversionista, em andamento há mais de um mês. O rei em exercício, Felipe VI, segundo os jornais, decidiu junto ao suspeito declarado, seu genitor, como deveria ser a fuga (a “deixada” do país, na versão entregue à imprensa). Pai e filho atuando em sigilosa sintonia em benefício do trono e dos privilégios estabelecidos e garantidos pela Constituição de 1978 — até onde se possa levar. Mas o que aparece e é divulgado é a imagem do rei e sua jovem mulher caminhando pelas ruas do país, de norte a sul, da Galícia ou Andaluzia até as ilhas Baleares (para onde viajou na quinta-feira, 5 de agosto). Em Barcelona… aí já seria mais complicado. Qualquer passeio ali pelas Ramblas poderia terminar uma tremenda arapuca. Algo como 50% da população da Catalunha é hoje favorável à independência com relação ao Estado espanhol e a figura do rei já não é, inercialmente, nada bem quista — as figuras simbólicas, construídas ou mantidas tendo em vista a adoração mítica, são também facilmente odiadas. Por isso mesmo, nunca provavelmente um rei quis ser tão próximo do populacho e dos queridos súditos como Felipe VI quer neste momento.

Mas as ruas começam a ser ocupadas também pelos opositores da monarquia. Não são poucos os que desejam simplesmente abolir de vez o anacronismo — que custa dinheiro ao povo espanhol. Há pesquisas que apontam para uma maioria em torno de 60% dos votantes num eventual plebiscito para modificar a Constituição que deu fim ao franquismo e acabar agora com a monarquia parlamentar que rege o país desde então. Esse número pode e provavelmente está crescendo impulsionado pelo escândalo.

Enquanto isso, segue o imbróglio. Aparentemente não há como interromper o processo judicial (que, após se iniciar na Suíça, desaguou nos tribunais da Espanha). Ao menos aparentemente. Mas, como sabemos todos, no Estado democrático de direito moderno muitos mistérios (quase milagres) podem ocorrer. Longe dos olhos do povo, é claro. Depende da política, sempre. O embate será interessante e já alcançou o próprio cerne do governo de coalizão, com o Podemos manifestamente insatisfeito com a fuga do rei, enquanto o sócio majoritário (o PSOE, partido do chefe do governo Pedro Sánchez) tenta pôr panos quentes sobre a ferida.

A frase “o rei emérito não foge de nada, porque não está imerso em nenhuma causa” é de ninguém menos de uma das figuras estelares do PSOE, Carmen Calvo (uma dos quatro vice-presidentes do país, acima dos quais está apenas o chefe de governo). Aliás, parece tão dúbia quanto possível. Porque, ao contrário do que afirma, o rei emérito está, sim, imerso, para não dizer afundadíssimo, numa tremenda causa judicial. Por hora, é apenas suspeito de uma série de malfeitos e nada há, como se usa dizer, de tramitado em julgado. Mas a mancha é enorme e pode rapidamente se espalhar e crescer. A história não perde a chance de uma boa ironia e o “por qué no te vás”, que eventualmente poderá ter sido dita pelo filho ao pai autor do “¿por qué no te callas?”, já se cumpriu e o rei, de fato, se foi. Mas pode ser que entregar os anéis não seja suficiente.

¹ Leia mais sobre o assunto

Escândalo financeiro abala a família real espanhola

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.