Escândalo financeiro abala a família real espanhola

Juan Carlos I repassou milhões de euros para a amante, Corinna Larsen. Para que serve a monarquia mesmo?

Halley Margon

De Barcelona

Se existe, qual seria bem, grosso modo, o ato fundacional do mundo moderno? Na minha mísera imaginação, desde sempre, a modernidade começa com a Revolução Francesa (1789), a queda da Bastilha, o estrepitoso e dramático fim da monarquia com Luis XVI e sua consorte sendo levados à guilhotina — a mesma que no ano seguinte executaria Danton,  em abril de 1794, e o próprio Robespierre, três meses depois. Acabar com o regime dinástico dando fim às suas máximas figuras parece tão natural para o nosso mundo quanto as fábricas, os automóveis, a energia elétrica. Reis e rainhas, príncipes, princesas e derivados, uma fantasia da infância dos homens tanto quanto os contos de cavalaria, um anacronismo que havia muito tinha sido deixado para trás. A execução dos reis de França um inevitável ato simbólico, um aviso de que a história seguia e precisava seguir adiante liquidando tudo aquilo que impede que se mova.

Juan Carlos I e Corinna Larsen: jogadas financeiras | Foto: Reprodução

Mas não é assim e a própria revolução providenciou, em seguida, seu recuo, o termidor, o poder do Diretório e logo a restauração. Ademais, não apenas as monarquias continuaram existindo em quase toda a Europa, reposicionadas dentro do sistema de poder e tornadas quase figurativas (além de dispendiosas), como reis e rainhas são ainda cultuados como entidades míticas a serem respeitadas e queridas — duzentos anos depois da degola do casal real franco-austríaco. Alguns querem dar fim ao símbolo e às eventuais obscenidades que incorpora ou permite, outros o reivindicam — é o caso, por exemplo, do partido da ultradireita espanhola que se empenha em evocar a figura do rei como representação da unidade nacional, do sentimento patriótico, da herança do povo e coisas que tais. Sim, porque a Espanha é um dos países europeus que preservou a monarquia e a viu se fortalecer na transição do franquismo para democracia.

Dos 27 Estados que integram atualmente a União Europeia oito são monarquias parlamentaristas, o que dá quase um quarto do total (Reino Unido, Espanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia, Noruega e Luxemburgo). No Reino Unido a monarquia aparentemente é tão sólida quanto a rainha Elizabeth (que na Espanha é chamada de Isabel II), o uísque, o futebol (com os grandes clubes controlados por milionários russos, mas quem se importa?) e a própria Commonwealth (uma comunidade de 53 países que faziam parte do velho império britânico).

Na Espanha, já não é assim. Primeiro, a questionam os cada vez mais barulhentos e inquietos independentistas da Catalunha que, por óbvio, não reconhecem a autoridade do rei porque sequer lhes agrada a tutela do Estado nacional espanhol. Nisso não estão isolados. Agora mesmo, no aniversário da proclamação da II República, em 14 de abril de 1931, ninguém menos que uma das principais figuras do governo Pedro Sanches e líder do Podemos Pablo Iglesias aproveitou a data para voltar a criticar a Monarquia e a figura do rei.

Não bastasse isso, um tremendo escândalo financeiro envolvendo a figura do antigo rei Juan Carlos I, de 82 anos, veio se somar a uma série de comportamentos considerados pouco adequados à Coroa que, segundo o próprio Felipe VI, herdeiro do trono, “deve (…) observar uma conduta íntegra, honesta e transparente”. Juan Carlos I abdicou em 2014 para que o filho assumisse.

Milhões de euros “por gratidão e amor”

Antes de prosseguir, lembremos que o rei agora envolto em lama até o pescoço e abandonado aos leões pelo filho é a mesma figura pública que imponente, como cabe a todo rei e chefe de Estado de um importante país do velho mundo, se dirigiu ao ex-presidente da Venezuela Hugo Chaves para mandar que calasse a boca. O famoso “¿Por qué no te callas?”. Coisas de quem tem sangue azul.

Felipe VI: irritação com o pai | Foto: Reprodução

A partir de agora, outras frases poderão se juntar à sua biografia. Por exemplo aquela pronunciada pela ex-amiga Corinna Larsen num depoimento à Justiça suíça. Corinna, uma bela alemã de origem dinamarquesa e 56 anos de idade, mais conhecida como Corinna zu Sayn-Wittgenstein, era casada com o aristocrata alemão Casimir zu Sayn-Wittgenstein-Sayn. Após o divórcio em 2005, Corinna continuou a usar o sobrenome, o título da princesa e o tratamento de S.A.S (Sua Alteza Sereníssima), atiçando a revolta da família zu Sayn-Wittgenstein. Desde 2006, seu nome está indelevelmente ligado ao do rei emérito (Juan Carlos) que, em 2012, transferiu 65 milhões de euros para uma conta sua. Interrogada pela promotoria de Genebra em dezembro de 2018, declarou que referida transferência foi feita “por gratidão e amor, para garantir seu futuro e o de seus filhos” — a íntegra do depoimento acaba de sair à luz.

Regalos de dezenas milhões de euros (houve outras transferências e regalos além dessa de 65 milhões) podem soar estranhos ao contribuinte comum e à gente que vive do próprio trabalho, mas no mundo dos monarcas parece ser comum. Tanto é assim que a loira alemã se refere a outros tantos regalos com muita naturalidade. Perguntada sobre uma transferência de 150 mil euros que recebeu da conta da fundação Zagatka (que segundo ela própria “é a fundação do rei Juan Carlos I”) “argumentou que poderia ser o reembolso de alguns pagamentos para presentes que ela havia feito com seu cartão de crédito em favor do rei”. Ou um terreno em Marrakech: “Foi um presente (do rei do Marrocos) para mim, não em favor de Juan Carlos I. Visitei o rei para agradecer. Queria construir uma casa ali. O rei sabia que eu ia ao Marrocos fazia vinte anos e decidiu me oferecer esse terreno”.

Toda a investigação do Ministério Público espanhol envolvendo o rei emérito diz respeito a indícios de lavagem de dinheiro e fraude fiscal. O que o investigam é  a  suposta cobrança de comissões sobre o trabalho realizado por um consórcio de empresas espanholas na Arábia Saudita.

“Juan Carlos I levou para Genebra em 2010, enquanto ele ainda era chefe do Estado espanhol, uma pasta cheia de notas, no total de 1,7 milhão de euros que colocou nas mãos de seu gerente Arturo Fasana. O dinheiro veio de uma doação que o sultão do Bahrein havia feito ao monarca espanhol. Posteriormente, em 2012, o rei transferiu quase 65 milhões de euros para Larsen — 100 milhões de dólares pelo câmbio de então. As evidências coletadas pelo Ministério Público Anticorrupção foram encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal devido ao status de Juan Carlos I”, noticia o jornal “El País”.

O relato da ex-amiga do rei é, no entanto, muito mais precioso ou novelesco. “Recebi um telefonema de Canónica (Dante Canónica, administrador da fundação criada pelo rei para receber comissões) informando que Juan Carlos I queria me dar um presente. Não me falou de uma quantidade concreta. Disse que queria se encontrar comigo. Fui ao seu escritório. Ele me explicou que o rei queria me oferecer um regalo (…). Juan Carlos I queria assegurar um bom futuro aos meus filhos e a mim.”

Abusado, o promotor suíço pergunta à loira se tinha algum conhecimento sobre a origem do dinheiro. Por que a pobre moça iria se interessar em saber coisas como esta? Não, ela não perguntou. Mais tarde, porém, lhe explicaram “que vinha de uma doação do rei Abdalá em favor de Juan Carlos I. Não me explicaram a razão dessa doação, mas se trata de uma prática muito comum entre reis”, informou a bela Corinna.

Como um dos resultados do imbróglio, pelo menos até agora, Felipe VI se viu obrigado a anunciar “sua decisão mais dolorosa: privar o pai da alocação de quase 200.000 euros por ano que ele recebia de recursos públicos” ao mesmo tempo que “renunciava a qualquer herança que possa lhe corresponder em suas contas no exterior”. Além disso, aproveitando-se da crise provocado pelo coronavírus, lançou-se a uma intensa campanha de afirmação da sua imagem marcando presença diária nas ruas junto ao povo. Do pai, quer distância — no que conta com o entusiasmado apoio de Pedro Sanches. Segundo “El País” do dia 08/07 o presidente “agradece à Casa Real por ‘colocar distância’ com Juan Carlos I ante as ‘perturbadoras informações que nos perturbam a todos’”.

Que se saiba ninguém deu testemunho de haver ocorrido, mas não será descabido se o atual monarca tiver se dirigido reservadamente ao genitor e, muito duramente, perguntado: “¿Por qué no te vas?”

Pode ser que não seja suficiente e a interrogação feita pelo líder do Podemos Pablo Iglesias nas páginas do principal jornal da Espanha, no final de 2018, se apresente numa dimensão inédita desde a redemocratização: “Para que serve hoje a monarquia?”

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