Elder Dias
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A contragosto dos bolsonaristas, Globo volta a receber mais verba do governo federal

Desafiar a imprensa numa espécie de queda de braço para que ela adira ao governismo quase nunca é boa ideia

Bolsonaro levanta placa de insulto à Rede Globo ao chegar a Cascavel (PR) | Foto: Reprodução

Foram dois anos atípicos para o maior conglomerado de comunicação da América Latina. Diante de um governo que sempre a tachou como “lixo” e “comunista”, a Rede Globo teve de aguardar uma determinação do Tribunal de Contas da União (TCU) para ter restabelecida sua condição, para sua TV, de maior cota de publicidade pela Secretaria de Comunicação (Secom).

No primeiro ano de Jair Bolsonaro (ainda sem partido, mas em breve no PL, ao que tudo indica) no poder, a Globo foi apenas a 3ª colocada em verbas da Secom, recebendo R$ 47 milhões de publicidade. A Record liderou o ranking e o SBT ficou em 2º lugar. Em suma, conforme prometera durante a campanha, o presidente enxugou os repasses à emissora, contrariando todas noções de coerência entre audiência e distribuição de recursos.

Neste ano, no entanto, a TV Globo voltou em 2021 a ser contemplada com a maior fatia do investimento de publicidade estatal federal da Secom (Secretaria de Comunicação) do Palácio do Planalto. A Record e o SBT disputam o 2º lugar de audiência e tem uma postura mais amigável ao governo do que a Globo, emissora a qual Bolsonaro, sempre que pode, continua a se referir negativamente.

Desde junho do ano passado, quando o governo recriou o Ministério das Comunicações visando aninhar o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN) e assim ganhar reforçar a base no Legislativo, o TCU firmou a ordem de a emissora líder em audiência passar novamente – assim como ocorria nos governos anteriores – a receber mais recursos.

Bolsonaro continua a criticar a grande imprensa, sempre que pode. Foi assim na última semana, ao desacreditar a informação sobre a atual gravidade da pandemia na Europa, ressaltada por um apoiador no indefectível “cercadinho” de bolsonaristas na saída do Palácio da Alvorada. “Você tá vendo muito a Globo”, resmungou o presidente. Certamente, se pudesse, secaria de vez a fonte da empresa.

Na realidade, desafiar a imprensa numa espécie de queda de braço para que adira, de certo modo, ao governismo quase nunca é boa ideia. Governos fariam melhor se cumprissem as regras para distribuição de verbas publicitárias de acordo com o alcance de cada veículo. Em gestões federais passadas, por exemplo, a de Dilma Rousseff (PT), havia grande oposição de certos veículos – um exemplo, o Estado de S. Paulo, assumidamente de direita –, mas nem por isso foi denunciado qualquer caso de revanchismo.

É da democracia que governos sejam criticados, notadamente por uma imprensa livre. Quando isso ocorre dentro de uma relação saudável, ambos crescem. Não é o que vem acontecendo, porém, na esfera federal, nos últimos anos.

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