Euler de França Belém
Euler de França Belém

9 pessoas de Goiás são citadas no explosivo livro de Malu Gaspar sobre a Odebrecht

São políticos (Iris, Eurípedes Júnior, Mabel, Fábio Tokarsky e Delúbio Soares), empresários (Joesley e Wesley Batista) e uma ministra do STJ (Laurita Vaz)

“A Organização — A Odebrecht e o Esquema de Corrupção Que Chocou o Mundo” (Companhia das Letras, 639 páginas), da jornalista Malu Gaspar, é um livro de rara excelência sobre próceres do capitalismo retardatário patropi. Os fatos mais escabrosos são apresentados de maneira serena e didática, sem nenhum xingamento, moralismo e avaliação ideológica. A autora sugere que sua obra é uma “reportagem”. É mais do que isto. É uma narrativa (jornalística, histórica, econômica e sociológica) de como funciona o mundo empresarial e político brasileiro. A história nem começa com os governos de Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves (governador em Minas), do PSDB, Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT. A radiografia é ampla e mostra o general Ernesto Geisel, antes de ser presidente, protegendo a Odebrecht de Norberto Odebrecht, ainda sem a forte presença de Emílio Odebrecht e Marcelo Odebrecht, filho e neto do patriarca. A pesquisa da repórter é, desde já, incontornável àqueles que pretendem estudar e entender a história do empresariado nacional. Saiba que, apesar da corrupção — um detalhe central, mas não o único —, trata-se de vencedores, que, dependendo da visão de quem interpreta, se tornam anjos ou demônios decaídos. O estudo é muldimensional.

O texto a seguir enfocará apenas oito políticos e empresários e uma magistrada de Goiás que mantiveram ligação, direta ou indiretamente, com proprietários ou executivos da Odebrecht. Ter relação com os odebrechteiros não significa, necessariamente, que a pessoa tenha sido envolvida em processos de corrupção. Os mencionados são: Delúbio Soares (duas vezes), Eurípedes Júnior (duas vezes), Fábio Tokarsky (uma vez), Henrique Meirelles (uma vez), Iris Rezende (uma vez), Joesley Batista (cinco vezes), Laurita Vaz (uma vez; é goiana de Anicuns), Sandro Mabel (uma vez; paulista radicado há anos em Goiás) e Wesley Batista (duas vezes). A JBS é mencionada sete vezes. O Partido Republicano da Ordem Social (PROS), dirigido por Eurípedes Gomes de Macêdo Júnior — nascido em Brasília, mas cuja base eleitorado é Planaltina de Goiás, município do Entorno de Brasília —, é citado três vezes.

Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT

Delúbio Soares: como tesoureiro nacional do PT, foi um dos primeiros petistas a receber dinheiro da Odebrecht e acabou preso | Foto: Divulgação

Malu Gaspar relata que as digitais da Odebrecht estão presentes na “Carta ao Povo Brasileiro”, de 2002, na qual, com o objetivo de ganhar as eleições, o PT de Lula da Silva, escaldado por três derrotas consecutivas, se apresentava de maneira moderada. “A criação de uma Secretaria Extraordinária de Comércio Exterior, ligada diretamente à Presidência da República” era uma ideia da equipe de Emílio Odebrecht, que pretendia expandir seus negócios em outros países.

O médico Antônio Palocci era o interlocutor designado por Lula da Silva para negociar com a Odebrecht. “Da primeira vez que solicitou dinheiro ao amigo, Lula pediu que Emílio acertasse os detalhes sempre com Palocci”, assinala a pesquisadora. Pedro Novis, executivo da empresa, repassava o dinheiro para a campanha.

Em seguida, Antônio Palocci e Pedro Novis sugeriram nomes de subordinados para coordenar a questão dos repasses de dinheiro. “Pela Odebrecht, cabia a Antônio Ferreira providenciar o envio de dinheiro, segundo as instruções do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, professor de matemática e sindicalista em Goiás”, relata Malu Gaspar. O petista havia sido professor no Lyceu de Goiânia, que fica no Centro da cidade.

Pedro Novis revelou que a Odebrecht doou “20 milhões de reais (…) à campanha de Lula em 2002”. Segundo Malu Gaspar, “a quantia é quase a metade do que o PT declarou ao TSE ter gasto na campanha, mas na papelada a Odebrecht apareceu doando bem menos: 1 milhão de reais”. A empresa deixara claro “que o ‘apoio expressivo’ ao PT não seria gratuito”.

Durante o governo de Lula da Silva, em 2005, Roberto Jefferson concedeu entrevista à “Folha de S. Paulo” e declarou que um conluio entre o PT e o PSDB de Aécio Neves controlava Furnas. “Jefferson disse ter ouvido do próprio ex-diretor [Dimas Toledo, aliado de Aécio Neves] que ele dava 1 milhão de reais mensais ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares.”

Eurípedes Júnior e Fábio Tokarsky

Eurípedes Gomes de Macêdo Júnior: o presidente nacional do PROS recebeu apoio da construtora Odebrecht na disputa eleitoral de 2014 | Foto: Reprodução

Nascido em Brasília, no dia 1º de abril, há 45 anos, Eurípedes Júnior é o que se costuma chamar de uma “força da natureza”. Criou o PROS praticamente do nada, em Planaltina de Goiás, município de 90 mil habitantes, e o transformou num partido nacional, com forte presença em Brasília. As pessoas que o conhecem sugerem que seu pragmatismo absoluto assustaria até um realista como Nicolau Maquiavel. Trata-se de uma raposa, que, na eleição deste ano, não conseguiu eleger seu candidato a prefeito de Planaltina. Mesmo não tendo faltado dinheiro à campanha, seu aliado Carlinhos do Egito (Carlos Alves do Egito) ficou em terceiro lugar.

Em 2014, Dilma Rousseff candidatou-se à reeleição e a Odebrecht avisou que, por meio da Braskem, a então presidente “poderia contar com 100 milhões” de reais. A combinação foi feita com Guido Mantega, o ministro da Fazenda, e Antônio Palocci.

Fábio Tokarski: o ex-deputado estadual e professor universitário recebeu dinheiro da construtora Odebrecht para o PC do B no Estado de Goiás | Foto: Reprodução

Guido Mantega disse a Marcelo Odebrecht que “o PT precisava pagar 57 milhões de reais aos partidos em troca de apoio a Dilma — 20 milhões dos quais seriam divididos entre o PROS, PRB, PDT e PC do B. Outros 37 milhões seriam destinados ao PR, ao PP e ao PSD. E Mantega queria serviço completo. Os homens da organização deveriam procurar os líderes partidários em nome da campanha, combinar os pagamentos e entregar o dinheiro”. O texto entre aspas é da autora do livro, não do ex-ministro. Dilma Rousseff estava de olho nos três minutos e dezenove segundos do PROS, PDT, PSD e PC do B no horário gratuito de televisão.

Como Marcelo Odebrecht demorou a agir, Guido Mantega voltou a ligar: “Eu já resolvi 37” (milhões de reais). “Na conversa, Marcelo ficou sabendo que o socorro viera de Joesley Batista, dono do grupo JBS, que nos códigos internos da Odebrecht era chamado de Açougueiro” (a família Batista, antes de criar o Friboi, um grande frigorífico, era dona de um açougue, em Anápolis). O ministro insistiu que o PT ainda precisava de 20 milhões de reais.

Coube a Alexandrino Alencar, registra Malu Gaspar, repassar dinheiro tanto para Eurípedes Júnior e Fábio Tokarsky. O PC do B “destacara o deputado estadual de Goiás Fábio Tokarsky para recolher o dinheiro”. (Fábio Tokarsky está inelegível. Mas é corrupto? Não há provas de que seja. Sua história, como militante da esquerda, sempre foi decente. A jornalista frisa que “recolheu”, e não que tenha ficado com o dinheiro.)

Adiante, o livro frisa que “Alexandrino Alencar” entregou “500 mil reais ao deputado federal Salvador Zimbaldi, enviado pelo presidente do PROS, Eurípedes Júnior, dentro de sua sala no Edifício Odebrecht”, em São Paulo.

Iris Rezende e Henrique Meirelles

Prefeito Iris Rezende | Foto: Reprodução

O prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), é mencionado unicamente na página 409. Quando estava fazendo o impossível para libertar Marcelo Odebrecht da cadeia, Emílio Odebrecht decidiu procurar aliados influentes.

“Emílio [Odebrecht] tinha pedido ao ex-governador de Goiás Iris Rezende que convencesse a ministra Laurita Vaz, que ele acreditava ter sido indicada para o cargo por influência do governador, a soltar Marcelo com uma liminar no recesso do Judiciário. E passara dias se dizendo confiante de que a ministra ‘daria um jeito’. Nada aconteceu, mas Emílio e [Maurício] Ferro continuavam apostando que, em algum momento, o bom e velho ‘relacionamento político e estratégico’ acabaria funcionando”, anota Malu Gaspar.

No blog Coluna Esplanada, o repórter Leandro Mazzini, fonte da informação de Malu Gaspar, escreveu que “Iris tentou contato com a ministra do STJ através de amigo próximo, mas Laurita Vaz não quis conversa”.

Na época, 2015, Iris Rezende estava sem mandato (havia sido prefeito até 2012 e foi eleito novamente em 2016). O encontro entre ele e Emilio Odebrecht teria se dado numa fazenda do político goiano, no Mato Grosso.

Henrique Meirelles é citado, en passant, por ter participado de um encontro público com Lula da Silva, Emílio Odebrecht e quatro ministros, na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 2004. O engenheiro de Anápolis, atual secretário da Fazenda do governo de São Paulo, era então presidente do Banco Central. Não há, portanto, nada que o desabone.

Empresários Joesley e Wesley Batista

Joesley e Wesley Batista: os irmãos da transnacional JBS são citados no livro de Maluf Gaspar | Fotos: Câmara dos Deputados/ Marcelo Camargo

Seguindo o pai, Joesley e Wesley Batista são responsáveis por criar uma multinacional a partir do Brasil — a JBS. A empresa hoje tem raízes em vários países, como Argentina, Austrália e Estados Unidos. São vencedores e a empresa integra o chamado grupo dos “campeões nacionais” — empreendimentos patropis anabolizados por fartos financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O livro afirma que, em 2012, Joesley Batista, tido como chefão da JBS, teria dado dinheiro a Fernando Pimentel, então ministro da Indústria e Comércio, para bancar candidatos a prefeito em Minas Gerais. Como narrado acima, o empresário, segundo Guido Mantega, doou 37 milhões de reais para a campanha de Dilma Rousseff em 2014. O dinheiro era para “comprar” apoio dos líderes de partidos políticos.

Adiante, na página 502, fala-se no encontro fatídico entre o então presidente da República Michel Temer e Joesley Batista, no Palácio do Jaburu. Temer disse ao empresário: “Tem que manter isso, viu?” “Isso” era o apoio ao ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, que estava preso, e ao operador financeiro Lúcio Funaro.

Os capos da Odebrecht notaram que eram tratados mais duramente do que os capos da JBS, Joesley e Wesley Batista. Por quê? Malu Gaspar sublinha que “a resposta era previsível: os irmãos Batista não tinham passado anos em guerra contra a Lava Jato”. E a JBS contara com os préstimos de Marcelo Miler, que “tinha ajudado o escritório que defendia a JBS, antes mesmo de deixar o MP para se tornar advogado”.

Ex-deputado federal Sandro Mabel

Sandro Mabel: ex-deputado federal | Foto: Alex Malheiros

Sandro Antonio Scodro nasceu em Ribeirão Preto (SP), há 61 anos, e se tornou milionário antes de participar da política. Ele dirigiu, durante anos, a empresa Mabel, que depois vendeu para a Pepsico. É mais conhecido como Sandro Mabel, nome com o qual disputou várias eleições. Atualmente, é presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg).

Transcrevo a seguir o longo trecho em que Sandro Mabel é citado, ao lado de outros políticos, como Eduardo Cunha (MDB) e Arlindo Chinaglia (PT).

“Nas primeiras horas de manhã de 10 de dezembro de 2008, Henrique Valadares [presidente da Odebrecht Energia] se encontrou com um grupo de deputados para um café da manhã no apartamento de Eduardo Cunha, do PMDB do Rio. Cunha era um dos mais poderosos parlamentares do Congresso. Controlava não só o presidente de Furnas, Luís Paulo Conde, mas também cerca de cinquenta deputados de vários partidos. Era ainda especialista em fazer brotar escândalos no Congresso, convocando audiências públicas e abrindo CPIs, e em seguida achacar as empresas para acabar com o fuzuê. Daquela vez, porém, era o contrário. Cunha estava sendo pago para criar o tumulto, empurrando o governo para o corner.

“Sua performance havia sido acertada dias antes, na sala VIP de uma empresa de táxi-aéreo no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro — velho ponto de encontro entre Cunha e Valadares. O executivo ofereceu ao deputado 50 milhões de reais para que ele reunisse apoio no Congresso de modo a ‘neutralizar’ o governo. O parlamentar não só aceitou a missão como especificou de que forma distribuiria o butim. Seriam 20 milhões de reais para sua ‘bancada’; 10 milhões para o presidente da Câmara, o petista Arlindo Chinaglia; 10 milhões para o líder do PMDB, Sandro Mabel; e outros 10 milhões para Romero Jucá, por quem passava todo o dinheiro para o PMDB no Senado”. A história está na página 214.

O sobrinho de Lula da Silva

Malu Gaspar: jornalista que está explicando a histórica dos capitalistas brasileiros tão bem quanto os melhores economistas | Foto: Roberto Teixeira

O leitor certamente percebeu que destaquei tão-somente o tema goianos-Odebrecht. Mas o livro, evidentemente, contém muito mais. Por exemplo, como os governos petistas financiaram obras em Cuba e Angola (detalhe: o governo militar de Ernesto Geisel foi o primeiro a investir em Angola, e como “aliado” da Odebrecht e dos comunistas soviéticos); a história do “sobrinho” de Lula da Silva, Taiguara Rodrigues dos Santos, é impressionante, assim como tantas outras. É uma obra valiosa, que, contando a história da Odebrecht, não deixa de ser uma grande história do Brasil.

Malu Gaspar é repórter da revista “Piauí”, espécie de “New Yorker” tropiniquim, foi editora da revista “Veja”, no Rio de Janeiro, chefe da sucursal carioca da revista “Exame”, repórter e correspondente da “Folha de S. Paulo”. O brilhante livro “Tudo ou Nada — Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X”, é de sua autoria.

E-mail: [email protected]

Leia sobre outro livro de Malu Gaspar

Jornalista Malu Gaspar escreve O Capital no Século 21 no Brasil segundo São Eike Batista

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