27 de abril e as receitas do passado que intoxicam o presente
28 abril 2026 às 20h00

COMPARTILHAR
Faltam 248 dias para acabar o ano e me pus a pensar em outras coisas que estão acabando ou já acabaram de vez. Experimente procurar no cardápio de algum restaurante um bife a cavalo. Aposto que você não vai encontrar ou, se encontrar, me avise. Foi um prato bastante popular no passado, uma fonte rica em proteína para um trabalhador faminto. Um bife servido com ovos fritos por cima, como um cavaleiro monta o cavalo.
E o que dizer do caracalcio (era assim mesmo que se escrevia), ou da vitamina Marta Rocha? Alegre-se se não fizerem parte de suas memórias, significa que você veio ao mundo bem depois de mim.
O caracalcio nasceu em um tempo em que energia, vigor e vitalidade não vinham encapsuladas em pequenas pílulas. Tudo se resolvia não no balcão da farmácia, mas da lanchonete, à base de banana, leite e liquidificador potente para dissolver tudo.
A receita clássica levava cerveja preta caracu, guaraná em pó, banana, aveia, amendoim, mel e, reza a lenda, ovo cru com casca e tudo. Seria daí o cálcio do nome. O liquidificador triturava até virar uma massa espessa, quase mastigável. Uma bomba energética capaz de sustentar por boa parte do dia.
Já a vitamina Marta Rocha era mais delicada. Um clássico majestoso, à altura da nossa Miss Brasil 1954: leite, banana, morango (algumas lanchonetes apelavam para beterraba em pó), achocolatado, creme de leite ou sorvete. Não tinha receita fixa; cada lugar adaptava a sua, desde que o resultado fosse rosado.
Tudo isso acabou. São sabores de um outro tempo. É assim mesmo. Nada de nostalgia, quer dizer, pero no mucho. Tenho sentido uma onda nostálgica varrendo o mundo ultimamente. Não tem nada a ver com comida. O cardápio agora é outro: Autoritarismo à Moda da Casa, Culto ao Líder em Molho Madeira, Nacionalismo flambado com Guarnição de Medo, Censura Grelhada com Repressão Crocante, Inimigo Interno à Milanesa.
Um menu claramente indigesto para qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. Pena que muitos não o tenha. Vale lembrar que um famoso chef dessa cozinha experimental, chamado Benito Mussolini, encerrou sua carreira no dia 27 de abril de 1945, quando foi preso pela resistência antifascista italiana ao tentar fugir. No dia seguinte, foi fuzilado e exposto em praça pública, como símbolo da queda do fascismo, um ingrediente que nunca foi muito saudável e sempre acaba provocando intoxicações históricas.
Agora que você chegou até aqui comigo, diga-me se não há razão em pensar que existe algo de cabalístico em certos dias. Alguns podem chamar de ironia histórica; eu apelo logo para o sobrenatural, a boa e velha maldição. Veja bem.
Antonio Gramsci foi um grande intelectual marxista e um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Ele e Mussolini respiraram o mesmo ar conturbado da Itália do início do século XX. Mussolini passou pelo Partido Socialista Italiano, quando rompeu em 1914 e viria a se tornar o pai fundador do fascismo. Gramsci também passou pelo PSI antes de fundar o PCI.
Em 1926 Gramsci foi preso. Mussolini já estava no poder. Depois de onze anos de cárcere, muito doente, morreu em 27 de abril de 1937.
Gramsci morreu num 27 de abril, Mussolini foi preso num 27 de abril. Gramsci morreu um dia antes daquele que o mandou para a cadeia, mas foi Mussolini quem ficou preso no século XX, embora seu espírito ande assombrando por aí. Gramsci, não. Gramsci atravessou o tempo.
Marta Rocha, caracalcio, Gramsci e fascismo. Que salada, heim? Essa definitivamente não estava no cardápio. Alguém, com paladar mais exigente, pode torcer o nariz e recusar o prato, alegando tratar-se de uma salada Frankenstein, cheia de partes arrancadas de contextos distintos. Não nego, e digo mais: o epíteto é apropriado. E você talvez ainda não tenha percebido o porquê.
No dia 27 de abril de 1759 nasceu Mary Wollstonecraft, filósofa iluminista, feminista antes do feminismo ter nome, autora de Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher (1792). Seu texto pioneiro nasce no calor da Revolução Francesa. Ao reivindicar razão, educação e cidadania para a mulheres, Wollstonecraft expõe a contradição de um tempo em que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) proclamava liberdade, igualdade e fraternidade, desde que restritas aos homens.
Nossa salada Frankenstein fica pronta com o molho servido por Mary Wollstonecraft. Afinal, ela é a mãe de Mary Shelley, a criadora da criatura, quem trouxe ao mundo o Prometeu moderno. Não há um ditado que afirma não existir almoço grátis? Pois então, no dia 27 de abril, nada é gratuito.
Se o fascismo é uma receita requentada, montada com sobras de medo, ressentimento e culto ao líder, Gramsci tentou nos ensinar a ler o rótulo antes de consumir. E Wollstonecraft, muito antes deles, já alertava para a importância de não se sufocar a razão.
Talvez não seja uma salada elegante. Mas convenhamos, é honesta. Dias como o 27 de abril são como garçons de restaurante rodízio. Estão sempre passando com um prato diferente que a gente ainda não provou. Não existe regime que resista.
Leia também: 12 de abril, um dia que fez muita gente perder o sono

