12 de abril, um dia que fez muita gente perder o sono
14 abril 2026 às 10h00

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Faltam 263 dias para acabar o ano. Se fizermos um movimento rápido dos olhos, vamos perceber que 12 de abril é um dia que fez muita gente perder o sono. Digo movimento rápido dos olhos porque essa é a tradução em português para a sigla R.E.M., uma nomenclatura usada pela medicina e pela neurociência. É um dos estágios do sono. Sono REM. Legal, não é?
Legal mesmo é a sonoridade de Murmur, disco lançado no dia 12 de abril de 1983 pela banda R.E.M, formada por alguns jovens universitários em Athens, na Geórgia (EUA). Um marco do rock alternativo, para alguns. Digo isso porque você pode preferir o War, do U2, lançado na mesma época. Não tem problema. A vida é assim mesmo, não precisa de consenso.
Quando movimento meus olhos rapidamente em direção ao dia 12 de abril e os eventos que marcaram sua existência ao longo do tempo, parece que vivemos ali um estado REM da história. Calma, não me abandone, vou explicar melhor: na medicina, o sono REM é aquele momento em que o cérebro acelera suas atividades, os olhos se movem rápido dentro das pálpebras, os sonhos chegam. O corpo fica paralisado. A mente voa.

Avalie você se não é um dia agitado. Em 12 de abril de 1633, Galileu Galilei foi acusado de heresia pelo Tribunal do Santo Ofício, em Roma. O STF da inquisição, digamos assim, seu instrumento jurídico. O que aquele homem de 69 anos havia feito? Disse aos quatro ventos que a Terra se movia em torno do Sol. Pois foi a gota.
O problema é que a igreja e o senso comum da época diziam o contrário. A Terra era o centro do universo. Os olhos de Galileu tremeram sob as pálpebras e ele viu o movimento, entendeu o sistema, mas foi obrigado a se calar sob pena de ser obrigado a morrer contra sua vontade. Valha-me. Utilizando-se de lunetas e matemática, Galileu viu que a Terra não estava parada, mas o planeta mesmo ele não viu.
Mais de três séculos depois, em 12 de abril de 1961, um cidadão chamado Yuri, nome soviético bastante comum que significa algo como “aquele que trabalha a terra”, fez o que nenhum outro humano havia feito. Veja só a força simbólica desse poema que a história nos legou: um lavrador, um homem da terra, foi o primeiro ser humano a sair da Terra e voltar. A bordo da Vostok 1, o cosmonauta Yuri Gagarin deu uma volta completa em torno do planeta e disse: “a Terra é azul”. O que Galileu enxergou com o cérebro, Gagarin viu com os olhos.
Se o sono REM, sobre o qual conversamos no início, é o momento em que a mente dispara sem que o corpo acompanhe, o signo de Áries talvez seja seu equivalente simbólico no zodíaco. Um bom ariano, como os nascidos no dia 12 de abril, age antes de pedir licença ao pensamento. Há um filho do 12 de abril que parece ter vivido toda sua vida em estado REM. Raul Pompeia era de temperamento explosivo, avesso a concessões, comprava brigas públicas homéricas, escrevia artigos ferinos e não levava desaforo para casa. Foi combatido, perseguido e morreu jovem.
O Ateneu, o livro que o projetou para além do seu tempo, age como uma voz que insiste em atravessar os anos e dizer: “ainda estou aqui”. E está. Como também está a obra de Walter Salles, outro nascido em 12 de abril, cineasta que se dedicou a filmar um país que tenta, entre lembranças e silêncios, não esquecer de si.
Se o sono REM é o momento em que a mente dispara antes que o corpo acompanhe, o 12 de abril parece ser o dia em que a história entra nesse mesmo estado: tudo se move rápido, as ideias voam, os olhos tremem sob as pálpebras fechadas. É preciso acordar para ver o movimento.
Então, o que tenho a lhe dizer, ao fim e ao cabo, é que em um 12 de abril não dá para deitar a cabeça no travesseiro e mergulhar de uma vez em um sono profundo. Antes, o sono REM acontece para levantar pontes improváveis entre o que fomos e o que ainda não sabemos ser.
E, ainda que os agentes do Santo Ofício – ou do ICE – insistam em fazer da Terra um pesadelo, faça como Galileu e diga: “E, no entanto, ela se move”.

