Bento Fleury
Bento Fleury

Geografia sentimental das casas de Goyaz

Há uma Geografia sentimental para as casas de Goiás. Casas que, da terra foram brotadas e são como relicários que recontam uma história singular de nossa formação social

Casas de Goiás – refúgios do lugar como referência e identidade | Foto: Acervo de Bento Fleury

Há uma Geografia sentimental para as casas de Goiás. Casas que, da terra foram brotadas e são como relicários que recontam uma história singular de nossa formação social. Em casa cidade goiana, há, senão, uma rua com algumas dessas construções antigas que sobraram da fúria iconoclasta do presente e que legitimam o nosso jeito de viver em épocas passadas. Foram elas levantadas em dias antigos, na força descomunal dos escravos de outras eras, que, ao carrearem  pedras, constituíram nossa verdadeira sociedade.

As casas não eram esconderijos, como caixotes uns sobre os outros, em que não se conheciam os vizinhos e que a fuga da convivência era algo completamente desconhecido. Como hoje as casas e apartamentos são gaiolas de medo e solidão em meio à multidão!

Há um mapeamento para as casas antigas goianas. Construções singelas, rústicas, que utilizavam a matéria prima da própria terra. Paredes levantadas em taipa de pilão, sobre alicerces de grandes pedras tapiocangas; com o barro socado junto ao esterco de gado; ligaduras com arames ou tabocas, ripamento com madeiras retiradas em santa lua. Aroeiras que se eternizaram em esteios, caibros e vigamentos resistentes à inclemência destruidora das eras. Pinturas com a cal ou ocre, que seguiam o alinhamento de um tempo já esquecido.

E assim elas eram feitas, grosseiramente, sem muita ciência ou planejamento, mas com segurança, em portas e janelas descomunais para a entrada e saída de homens tenazes e mulheres destemidas, na luta e labuta pela sobrevivência num tempo de tantas adversidades. Tudo era longe, era distante, era difícil. Aqui era o fim do mundo, onde o Judas perdeu as botas, lonjura, oco de mundo, de muita “sozinhez”.

Como cantou Fernando Perillo: “Goiás é solidão/até por tradição”. E tem razão o grande músico palmeirense.

E no traçado urbano das cidades antigas, em ruas, vielas, larguinhos, praças, becos, travessas, as casas brotavam do chão. Algumas de dois lances, grandiosas, sobrados com porões sombrios e escadarias; outras mais simples, recortadas na paisagem. Janelas e mais janelas que espiavam as ruas calçadas de pedras, subindo e descendo ladeiras, em águas centrais, como vias romanas.

Os quintais eram pequenas chácaras com suas privadinhas, bananeiras, cisternas e hortas, na largueza do chão parado.

Na paisagem goiana, os telhados patinados pelo tempo emergiam do fundo verde dos laranjais, das bananeiras e das cajazeiras dos quintais cercados por muros de terra socada, ou de taboca; onde debruçavam jasmins ou os bracinhos pretos das jabuticabeiras que ofertavam seus frutinhos. Poeticamente, assim eram as ruas goianas num tempo a muito passado.

E na consciência do lugar como ponto de referência da identidade, na categoria geográfica da permanência do homem em seu espaço, as casas goianas foram sendo tecidas pouco a pouco, a formarem a mancha urbana de tantas vilas, arraiais, distritos ou cidades; cada qual a seu tempo, a seu formato, a sua dimensão.

No Arraial de Santana de Goiás, depois Vila Boa de Goyaz e mais tarde, em 1818, a Cidade de Goiás, as casas foram construídas sustentadas umas nas outras, a se agarrarem no subir e descer de ladeiras, em torno do Rio Vermelho, ao se dividirem em dois distritos, do Carmo e de Santana.

No traçado desigual de Vila Boa, as ruas marcavam contornos diferentes e eram conhecidas por denominações populares: Rua da Pedra, Rua da Água, Rua das carroças, Rua Direita, Rua da Cambaúba, Rua do Moreira, Beco do Vila Rica, Beco da Cachoeira, Beco do Cisco. Denominações que vieram de tempos imemoriais.

Em Meia Ponte, hoje Pirenópolis, também há belíssimas casas em ruas diferentes, de nomes também próprios como a Rua Direita, Rua Nova, Rua da Prata, Rua do Rosário, Beco do Teatro, Rua Aurora, Rua do Bonfim. Belas casas foram construídas em outros séculos, como o casarão de Joaquim Alves de Oliveira onde funcionou a primeira biblioteca de Goiás e a Imprensa Matutina, do jornal pioneiro. Há em Pirenópolis casas que transbordam alegria, paz, conforto, numa cidade que soube envelhecer.

As velhas casas espiam os morros verdejantes em imensos abraços vegetais. Casas que foram marca e identidade de tanta gente em portas que se abriam e fechavam aos destinos humanos. Portais imensos que garantiram o que hoje somos. Território da intimidade, a casa goiana se eterniza. Porta da rua tão alta, que se abria à calçada de pedras.

Porta do meio sempre cerrada, escorada com a pedra, que vinha do rio, num tempo imemorial da família. Sempre o barulho da pedra sendo arrastada, no abrir da porta, na chegada de tanta gente, que não mais existe. A pedra ficou, como ressaltou poeticamente Cora Coralina.

Palco da união familiar era a casa goiana! De gente que se reunia, comia, conversava, brigava também, nos laços infinitos do tempo. Gente que sonhava debaixo dos telhados antigos, velhos sonhos, em noites enluaradas, derramadas pelas janelas, ou a ouvirem a cantiga da chuva fininha no telhado sem forro, em respingos que lembram doces saudades…

Em todas há uma chamada de saudade: Casa goiana, da Rua da Cambaúba, em Vila Boa de Goyaz. Casa goiana, do Largo da Matriz, em Pouso Alto. Casa goiana, da Rua das Flores, em São Sebastião do Alemão. Cada casa que é um pedaço dolorido do coração! Casa goiana, da Rua Direita, em Bonfim de Goyaz. Casa goiana, da Rua do Meio, em Santa Cruz de Goyaz. Casa goiana, da Rua da Aliança Liberal, em Barro Preto da Santíssima Trindade. Casa, que em pranto de dilui, no sentimento eterno da saudade…

Casa goiana, da Rua do Santíssimo Sacramento, em Santa Luzia de Goyaz. Casa goiana, da Rua Ipiranga, em Goiabeiras. Casa goiana, da Rua Direita, em Meia Ponte. Casa, cuja essência do amor singelo, é perene fonte! Casa goiana, do Largo da Matriz, em Curralinho. Casa goiana, da Rua Direta, em Corumbá de Goyaz. Casa goiana, da Praça São Sebastião, em Suçuapara. Casa, em cujas paredes, o infinito tempo do sonho se ampara…

Casa goiana na Rua Pouso Alto, em Campininhas das Flores. Casa goiana, da Rua da Igreja, em Santa Rita do Paranaíba. Casa goiana, na Praça da Igreja, em Santa Rita do Pontal. Casa, cuja história na vida de todo ser humano é perenal. Casa goiana, do Largo da Igreja, em Caldas Novas. Casa goiana, da Rua da Intendência, em Entre-Rios. Casa goiana, do Largo da Matriz, em Catalão. Em cada casa, cada destino, uma intensa emoção!

Casa goiana, na Rua do Mercado, em Nossa Senhora do Carmo de Morrinhos. Casa goiana, na Rua do Cemitério, em São Sebastião dos Cristais. Casa goiana, na Praça da Barriguda, em Campo Formoso. Casa, como pétala de flor, a recordar um tempo ditoso…

Nessas casas de Goyaz, perpassaram brisas suaves. Ergueram-se as guilhotinas das janelas Em olhares que buscaram perdidos amores, perfumados de manacás. Derramava-se o dia por sobre a casa goiana. Em cada pedaço de chão de Goyaz havia a labuta doméstica, trabalhos, suores, cansaços, no pilão a socar, o moer do café, o acender do fogo, panelões sobre o fogão de lenha e as vassouras nos ladrilhos de pedra…

Casa goiana que foi palco singelo, de mãos servis, femininas e maltratadas na doação, em cada coração, para a sobrevivência… De repente, no céu, uma lua tão branca, derramava luares pelas frestas das telhas de barro que se coava, também, pelas vidraças das janelas.

E esse luar de gaze iluminava poeticamente os leitos, as salas antigas, a povoar de sonhos, entre sorrisos e lágrimas de amores impossíveis e perdidos! Na rima de amores e dores, barros e pedras, em ruas, largos e becos, as flores delicadas e antigas desenharam as moradas eternais, na Geografia dos sentimentos, das casas de Goyaz!

10 respostas para “Geografia sentimental das casas de Goyaz”

  1. Avatar Vanessa Bertolini disse:

    Amei tudo!
    Emoção
    História e coração!

    Na geografia
    muita,
    Muita poesia…

  2. Avatar Soila Steter disse:

    Bento, quanta lindeza na memória de um tempo tão de lá, mas que se faz bem presente pela existência material dessas construções. Obrigada por me levar a visitar essas belezas, nessa viagem de recordações que me levaram a caminhos outrora esquecidos pela fadiga de muitas ações. Parabéns pelo trabalho valioso.

  3. Avatar Soila Steter disse:

    Bento, quanta lindeza na memória de um tempo tão de lá, mas que se faz bem presente pela existência material dessas construções. Obrigada por me levar a visitar essas belezas, nessa viagem de recordações que me levaram a caminhos outrora esquecidos pela fadiga de muitas ações. Parabéns pelo trabalho valioso.

  4. Nilson Gomes Jaime Nilson Gomes Jaime disse:

    Maravilha, Bento.
    Sempre lírico.
    Bom demais.

  5. Avatar Itaney campos disse:

    Muito poético e memorialista! Uma crônica de amor as velhas ruas e casas antigas de Goias.

  6. Avatar Eliane disse:

    Quanta poesia!!! Maravilhada com
    a sensibilidade de sua escrita.
    Amo as 2 cidades, mas Goiás pulsa mais forte em meu coração.
    Parabéns amigo!

  7. Avatar HELENA M B P VASCONC disse:

    Parabéns Querido Bento Fleury ,que bela aula da Historiografia Goiana. Muitas lembranças, muito aprendizado dentro de uma poética literária maravilhosa.

  8. Avatar Divina Paiva disse:

    Bento,

    Parabéns!
    Você retrata Goiás com ternura!
    Você traz a memória do viver de gebte e casas, numa construção afetiva. Memória boa demais.
    Parabéns!
    Você escreve uma escrita viva.

    Parabéns!

    Eu te amooooooooooo.

    Abraços com ternura!

  9. Belíssimo texto.
    Correto sobre o ponto de vista historiográfico e transborda afeto. Bento sempre nos surpreendendo. Elder R. Lima e Graça Fleury. Realmente faltam nos palavras neste momento pra dizer o quanto gostamos.

  10. Avatar Estevão disse:

    Elegante e singela confissão à poética iconográfica das lonjuras goianas; essas lonjuras remotas, remontantes de tempos infindos, que ainda escoram a memória poética de Goyaz que, admitamos, é mais poético que Goiás…

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