Altair Sales Barbosa
Altair Sales Barbosa
é professor, doutor em Antropologia pela Smithsonian Institution – Washington, D.C. e pesquisador visitante da UniEvangélica (Anápolis).

Os fantasmas contam a história

Em minha trajetória de pesquisa sempre busquei, nos fantasmas do passado, as respostas para os infindáveis problemas que surgiam

O céu estrelado possui, em muitas daquelas luzes, fantasmas de corpos celestes que já não brilham mais | Foto: Reprodução

Quando, numa noite clara, contemplamos amorosamente as estrelas, mal sabemos que estamos ao mesmo tempo contemplando fantasmas. É que muitas dessas estrelas contempladas não existem mais, já desapareceram há muito tempo e o que vemos é apenas sua luz, que, no momento, após uma longa viagem, está chegando ao planeta Terra.

Isso acontece porque essas estrelas estavam muito distantes da Terra e o clarão da sua explosão, mesmo viajando a uma velocidade de 300 mil quilômetros por segundo – a velocidade da luz –, somente agora se nos revela. Ou seja, algumas das estrelas que vemos no céu são só fantasmas, que morreram antes mesmo de a Terra existir.

Entretanto, mesmo sendo fantasmas, os astrônomos tiram desses espectros informações valiosas sobre a origem do universo. Esse fato é possível porque a astronomia incorpora em seus métodos de ver o mundo uma visão sistêmica e um sentido de temporalidade cosmológica.

No mesmo sentido, quando o geólogo contempla uma montanha, não enxerga somente seus picos ou sua base: procura observar os fantasmas do passado que deram origem àquela montanha. Por exemplo, os fantasmas da orogenia, de origem tectônica ou vulcânica, que impulsionaram para cima as rochas que formam a montanha.

Isso ocorre porque a teoria da tectônica de placas trouxe para a geologia a metodologia sistêmica, a qual permite que os geólogos raciocinem tendo como guia a temporalidade geológica, sem perderem a noção do global.

Quando o zoólogo observa os animais atuais também tenta desvendar os fantasmas que modelaram as condições genéticas dos sobreviventes e busca atrelá-los aos dados do passado, conhecidos por meio dos fósseis.

Quando o botânico observa os diferentes tipos de vegetação, que cobrem uma alta montanha, da sua base até o cume, também contempla os fantasmas do passado que criaram os ecossistemas ideais para a ocorrência de cada tipo vegetacional.

Assim também age um geomorfologista ao tentar entender a arqueologia das paisagens. Como também age um geógrafo especialista em hidrologia e hidrografia, quando observa um corpo hídrico superficial e indaga: de onde vem a água, quem abastece este rio, quais os fantasmas do passado que contribuíram para modelar as configurações atuais?

A metodologia sistêmica busca nos fantasmas a compreensão do global e suas projeções futuras, dentro de uma percepção de tempo às vezes inconcebível na existência da vida humana.

Durante toda a minha trajetória de pesquisa sempre busquei, nos fantasmas do passado, as respostas para os infindáveis problemas que iam surgindo.

Quando descobri o Homem da Serra do Cafezal, considerado ainda hoje o esqueleto humano mais antigo das Américas e sabiamente batizado de Homo cerratensis pelo pesquisador Paulo Bertran, pude durante horas e dias, enquanto me encontrava dentro do buraco estratigráfico, removendo mansamente com pincéis de cerdas finas os sedimentos pleistocênicos que cobriam o esqueleto, dialogar com o fantasma daquele ser humano, que viveu 13 mil anos antes dos tempos atuais e morreu ainda jovem, aos 27 anos.

Observava cada detalhe de seus ossos e tirava conclusões sobre suas locomoções. Analisando os desgastes dos dentes, aprendi muita coisa sobre sua alimentação.

Fazia várias indagações, como um louco conversando sozinho, mas essa loucura me proporcionou vários ensinamentos. E aquele fantasma, junto com os demais que pareciam rodeá-lo, me abriu uma janela importante e mostrou muitos segredos da vida dos ancestrais indígenas que povoaram o Planalto Central do Brasil. A esses fantasmas sou muito grato.

Durante várias vezes, à noite, pegava minha rede, deixava a equipe no acampamento e me deslocava sozinho para dormir ou passar a noite dentro das grutas. Ali observava a movimentação de intensa fauna noturna, incluindo o tatu-canastra.

Na escuridão das cavernas ficava a imaginar como seria a vida daquele povo, ancestral dos indígenas atuais, que habitou por muitas gerações esses abrigos. Os fantasmas da escuridão me fizeram admirar e respeitar ainda mais os indígenas que conseguiram sobreviver ao avanço enfurecido da civilização guiada pelo capital.

Embora os fantasmas tenham me ensinado muito sobre o passado, fato que tem me ajudado a compreender o presente, ainda paira sobre minha cabeça muitas dúvidas de como será o futuro.

Isso porque o século 21 está assistindo à mais fantástica revolução da história da humanidade. Não se trata apenas de uma revolução política, social ou econômica, mais uma revolução global, a revolução do homem, desencadeada, pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

Essa revolução abrange todas as outras, obriga a uma mudança da nossa concepção de universo e tende cada vez mais a se confundir com o próprio homem, e derramar dúvidas quanto ao destino da humanidade.

Tais dúvidas me fizeram lembrar da feliz comparação de Gaston Berger, expressada por Rose Marie Muraro em 1969, em sua obra A automação e o futuro do homem. Assim dizia Berger:

“A humanidade assemelha-se a um automóvel correndo a toda velocidade através da noite. Se não possuir possantes faróis certamente acontecerá uma catástrofe”.

Alguns têm muito mais daquilo que necessitam para viver. Poucos  agem, mas sem a visão do todo. A maioria se assemelha a um náufrago, sozinho numa ilha isolada, esperando que a maré lhe traga a boa nova.

Com os fantasmas, pude aprender algo sobre a felicidade. A impressão que tenho é que a felicidade era, para aqueles povos, a espinha dorsal da liberdade. E nessa espiral construíram suas sociedades.

Para tentar entender esse fato, mergulhei na leitura exaustiva das obras de Teilhard de Chardin. Num desses escritos, existe uma história que relata que, certa vez, um grupo de pessoas ideologicamente identificadas, fez uma reserva em um resort luxuoso, cercado pelo encanto de uma natureza exuberante, para discutir seus problemas e traçar suas metas.

Para tal, foi estabelecida uma rigorosa programação, que era repetida todos os dias. Num dado momento, um dos componentes do grupo sugere quebrar a rotina, através de uma nova programação para o dia seguinte, que consistia em explorar o cume de uma montanha que ficava a alguns poucos quilômetros da sede do resort. Todo o grupo acatou a ideia.

No outro dia, as pessoas saíram equipadas, deixaram alegres a sede, e em cantoria, partiram em direção à montanha. Depois de certo tempo, uma parte do grupo pôs-se a reclamar e retornou ao resort.

Entretanto, a outra parte continuou a jornada. Ao chegar aos pés da montanha o grupo se depara com uma fonte de água cristalina, um pomar de frutas silvestres e muita sombra. A reunião de todos esses elementos fez com que uma outra parte do grupo relutasse em continuar a caminhada e, por ali fica. Apenas uma pequena parcela, resolve caminhar até o objetivo pré-estabelecido, que seria alcançar o alto da montanha.

Por mais simples que seja essa história, ela é capaz de revelar três atitudes básicas que a sociedade e alguns de nós tomamos em nossas vidas. A atitude de recuar, a atitude de se acomodar e a atitude da busca da superação, ou da busca metafisica.

Para Teilhard de Chardin, só pode ser feliz aquele que busca a superação, pois a felicidade reside na liberdade, ou na superação de situações obscuras para aquelas ditas situações que apontem a claridade.

Em que momento na história da humanidade esse paradigma mudou é muito difícil afirmar. Nossa esperança reside no fato de que os fantasmas possam ser aleivosias, que, vira e mexe, acordam de seus sonos profundos e aparecem novamente.

Quem sabe, quando enfim reaparecerem, poderão nos ensinar os caminhos da eterna coerência.

4 respostas para “Os fantasmas contam a história”

  1. Nilson Jaime Nilson Jaime disse:

    Recuar, acomodar-se e superar-se!
    Enquanto busca nos fantasmas do passado as respostas científicas e existenciais.
    Ótimo texto, professor Altair.

  2. Brilhante reflexão do sempre incomum Altair!

  3. Avatar Maria do Socorro disse:

    Para Teilhard de Chardin, só pode ser feliz aquele que busca a superação, pois a felicidade reside na liberdade, ou na superação de situações obscuras para aquelas ditas situações que apontem a claridade.

    Concordo e sou testemunha que a felicidade reside na superação, pois só seremos felizes se formos efetivamente livres.

  4. Avatar Maria do Socorro disse:

    Concordo e sou testemunha que a felicidade reside na superação, pois só seremos felizes se formos efetivamente livres.

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