Existe uma época em que a juventude se torna prioridade para praticamente todos os grupos políticos: o período eleitoral. É quando candidatos passam a frequentar universidades, intensificam a presença nas redes sociais e colocam no discurso temas como primeiro emprego, educação, cultura, tecnologia e oportunidades.

Durante alguns meses, os jovens são apresentados como fundamentais para decidir o futuro do país. O problema é que, depois que as urnas são fechadas, muitas vezes esse interesse desaparece. A juventude, tão disputada durante a campanha, volta a ocupar pouco espaço justamente onde as decisões são tomadas.

Essa contradição merece atenção nas eleições de 2026. Em Goiás, mais de 1,1 milhão de eleitores têm entre 18 e 29 anos. Juntos, representam mais de um quinto do eleitorado estadual e formam um grupo com força suficiente para interferir diretamente no resultado de uma disputa equilibrada.

Há ainda 61.116 adolescentes de 16 e 17 anos aptos a votar neste ano, mesmo sem a obrigação de comparecer às urnas. O número, porém, diminuiu. São 6.271 jovens a menos do que nas eleições municipais de 2024, uma redução de 9,31%. Entre os adolescentes de 16 anos, a queda chegou a 14,34%.

É fácil olhar para esses dados e dizer que o jovem está desinteressado pela política. Mais difícil é fazer a pergunta contrária: o que a política tem feito para que o jovem queira participar dela?

Não basta lembrar da juventude para pedir voto

Existe uma diferença entre querer o voto dos jovens e querer os jovens dentro da política. Durante as campanhas, vemos candidatos tentando falar a linguagem dessa geração, criando conteúdos específicos para as redes sociais e participando de ambientes que normalmente não frequentam fora do período eleitoral.

Não há problema algum em buscar aproximação. O problema é quando ela começa meses antes da eleição e termina assim que o último voto é contado. Se o jovem é importante para decidir quem será eleito, também deveria ser importante para ajudar a decidir o que será feito depois da eleição.

Quantos jovens participam efetivamente das decisões partidárias? Quantos ocupam posições de liderança? Quantos são chamados para formular programas de governo? Quantos participam da construção das políticas públicas que depois serão apresentadas como iniciativas destinadas à juventude?

A política gosta de falar sobre renovação, mas renovar exige mais do que trocar a linguagem de uma campanha. Exige abrir espaço. Não basta colocar jovens em fotografias, caminhadas e eventos políticos. É preciso permitir que eles também estejam nas mesas onde as decisões são tomadas.

Juventude não é apenas o futuro

Há uma frase repetida há décadas de que os jovens são o futuro do país. Parece bonita, mas talvez seja hora de questioná-la. A juventude não é apenas o futuro. Ela faz parte do presente e já enfrenta hoje as consequências das escolhas feitas pelo poder público.

Quem tem 18, 20 ou 25 anos procura emprego, paga impostos, utiliza transporte público, estuda, empreende, tenta entrar ou permanecer na universidade e enfrenta o custo cada vez maior de conquistar independência. São problemas atuais e diretamente relacionados às decisões políticas.

Por isso, não faz sentido tratar as demandas dessa geração como algo que poderá ser resolvido amanhã. O primeiro emprego é uma necessidade de hoje. Educação, qualificação profissional, cultura, moradia, segurança e oportunidades também são questões do presente.

Da mesma forma, não precisamos continuar repetindo que é necessário “dar voz aos jovens”. Os jovens já têm voz. O que falta, muitas vezes, é espaço para que essa voz tenha influência sobre as decisões.

TikTok não é política pública

As eleições de 2026 serão marcadas por uma disputa intensa pela atenção dos jovens nas redes sociais. Veremos candidatos produzindo vídeos curtos, participando de podcasts, utilizando memes e tentando adaptar sua comunicação às plataformas digitais.

A política precisa acompanhar as mudanças na forma como as pessoas se comunicam. O problema aparece quando a modernização termina na tela do celular. Não adianta ter linguagem jovem e continuar fazendo política sem a participação dos jovens.

Também não adianta saber fazer uma trend e desconhecer as dificuldades de quem procura o primeiro emprego. Não adianta visitar uma universidade durante a campanha e nunca mais voltar depois de eleito. Muito menos defender renovação nas redes enquanto as estruturas políticas continuam fechadas para novas pessoas e novas ideias.

Redes sociais aproximam candidatos e eleitores, mas não substituem políticas públicas. Seguidores não são necessariamente eleitores, visualizações não representam votos e viralização não significa confiança. Uma campanha pode aprender a falar com os jovens sem necessariamente aprender a ouvi-los.

Talvez o problema não seja o jovem

É comum ouvir que os jovens não gostam de política. Essa explicação, porém, pode ser confortável demais. Jovens discutem diariamente emprego, educação, transporte, meio ambiente, segurança, tecnologia, cultura, custo de vida e oportunidades profissionais. Tudo isso é política.

Talvez parte dessa geração não esteja distante dos assuntos políticos, mas da maneira tradicional como a política é feita. Muitos cresceram acompanhando escândalos, promessas não cumpridas, polarização e discussões que frequentemente parecem mais preocupadas em gerar repercussão do que encontrar soluções.

Por isso, a redução no número de eleitores de 16 e 17 anos em Goiás precisa provocar reflexão. Podemos simplesmente culpar os adolescentes por não tirarem o título ou perguntar se partidos, governos e instituições têm conseguido mostrar que a participação deles realmente faz diferença.

Se queremos mais jovens votando, precisamos também construir uma política na qual eles consigam se enxergar. Não apenas como eleitores que serão procurados durante três meses de campanha, mas como cidadãos que devem ser ouvidos durante todos os anos de um mandato.

O voto precisa ser o começo

A responsabilidade também é da juventude. Se queremos ocupar mais espaço, precisamos participar. Isso não significa necessariamente ser candidato ou se filiar a um partido. Significa acompanhar decisões, fiscalizar representantes, cobrar promessas e compreender que política não termina na urna.

Talvez seja justamente aí que os jovens possam mudar essa relação. Se um candidato apareceu em uma universidade durante a campanha, é legítimo perguntar se voltou durante o mandato. Se prometeu oportunidades para o primeiro emprego, é preciso acompanhar o que fez depois de eleito. Se disse que daria espaço à juventude, devemos observar quem realmente passou a participar das decisões.

Em outubro, milhares de jovens goianos ouvirão que são importantes, que representam renovação e que podem decidir as eleições. Muitos ouvirão essas frases pela primeira vez. Outros já terão escutado exatamente o mesmo discurso em eleições anteriores.

Quando um candidato disser que acredita na juventude, precisamos perguntar qual espaço os jovens ocupam em seu projeto. Quando falar em renovação, precisamos observar se ela existe fora das redes sociais. E quando pedir o voto jovem, é justo perguntar onde estava esse interesse nos anos anteriores.

Lembrar da juventude durante uma eleição é fácil. O verdadeiro compromisso começa quando as urnas fecham.

Se os políticos querem o voto dos jovens em 2026, precisam entender que essa geração não quer ser lembrada apenas quando pode decidir uma eleição. Quer participar das decisões tomadas depois dela.

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