Gerar é fácil. Ser pai é outra história
09 agosto 2026 às 17h56

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Hoje é Dia dos Pais. As redes sociais estão cheias de fotografias de filhos abraçados aos pais, declarações de amor, mensagens de gratidão e homenagens àqueles que ensinaram a andar de bicicleta, seguraram a mão nos primeiros dias de escola, acompanharam uma febre durante a madrugada ou simplesmente estiveram presentes. É bonito. É justo.
Mas existe um outro lado dessa data, de milhões de crianças que cresceram sem um pai. Não se trata apenas de crianças que perderam o pai para a morte. Tampouco de famílias em que a separação conjugal tornou impossível uma convivência cotidiana. O problema aqui é outro: homens que, depois de colocarem um filho no mundo, simplesmente decidem não assumir a responsabilidade de ser pais. É uma espécie de aborto paternal, não no sentido físico, evidentemente, mas como metáfora para a interrupção deliberada da própria responsabilidade paterna. A criança nasce, mas o homem decide que, dali em diante, aquela vida não lhe diz respeito.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho desse abandono. Dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) mostram que cerca de 1,66 milhão de crianças foram registradas apenas com o nome da mãe entre julho de 2016 e julho de 2026. A média anual recente gira em torno de 175 mil registros sem identificação paterna.
É um número que deveria constranger uma sociedade inteira. Porque não estamos falando apenas de um espaço vazio em uma certidão de nascimento. O próprio material da Arpen-Brasil sobre reconhecimento de paternidade chama atenção para os possíveis impactos emocionais da ausência paterna sobre a identidade e a autoestima da criança.
E há uma diferença enorme entre não conseguir ser pai e não querer ser pai. Há homens que são impedidos de conviver com os filhos por conflitos familiares, decisões judiciais ou circunstâncias que escapam ao seu controle. Há também pais que, mesmo depois de uma separação, continuam presentes, pagam pensão, telefonam, visitam, acompanham a escola, participam das decisões e tentam construir uma relação possível com os filhos.
O alvo desta crítica é o homem que transforma a gravidez em problema da mulher e o filho em consequência indesejada. É aquele que desaparece quando recebe a notícia da gestação. É aquele que não registra a criança, não pergunta se está bem, não participa da criação e, anos depois, talvez reapareça querendo reivindicar a condição de “pai” quando lhe convém.
Paternidade não é um título honorífico. Não basta ter contribuído biologicamente para o nascimento de uma criança. Ser pai exige presença, responsabilidade, afeto, cuidado e compromisso. O DNA pode provar a origem genética. Não consegue provar amor.
Também é preciso dizer algo que parece óbvio, mas que ainda precisa ser repetido: a criança não tem culpa das circunstâncias que levaram ao seu nascimento. Se o relacionamento acabou, o filho continua existindo. Se o casal não se ama mais, o filho continua precisando de amor.
Se a gravidez não estava nos planos, a criança não pode ser responsabilizada pela falta de planejamento dos adultos. Uma relação pode terminar. A responsabilidade parental, não.
É particularmente cruel quando alguns homens tratam a pensão alimentícia como se fosse a própria paternidade. Como se depositar dinheiro todos os meses comprasse o direito de dizer “eu fiz a minha parte”. Não fez.
O dinheiro é obrigação. Presença é outra coisa. Um filho precisa também de alguém que pergunte como foi a prova, que saiba o nome do professor, que perceba quando alguma coisa não vai bem, que apareça na apresentação da escola, que esteja ao lado nas derrotas e comemore as pequenas vitórias. Precisa de alguém que esteja ali não apenas quando é conveniente, mas justamente quando não é.
A ausência também educa. Só que ensina coisas que nenhuma criança deveria ser obrigada a aprender tão cedo: que pode não ser importante para quem deveria amá-la; que pode ser abandonada; que talvez não seja digna de atenção. É por isso que o debate sobre paternidade precisa sair do terreno das homenagens de um domingo e entrar no campo da responsabilidade cotidiana. O Brasil avançou ao facilitar o reconhecimento da paternidade.
Os próprios cartórios oferecem mecanismos para que o pai reconheça voluntariamente o filho e para que mães possam indicar o suposto pai quando a criança foi registrada somente com o nome materno.
Mas nenhuma burocracia resolve aquilo que é, antes de tudo, uma questão de caráter. Um homem pode ser obrigado pela Justiça a pagar pensão. Pode ser obrigado a reconhecer juridicamente a paternidade. O Estado pode criar mecanismos para garantir direitos.
O que nenhuma sentença consegue fazer é obrigar alguém a sentir orgulho de um filho, a querer estar presente ou a oferecer o abraço que uma criança espera. Essa é a parte mais difícil do abandono paterno: existe uma ausência que a lei consegue enfrentar e outra que nenhuma lei consegue preencher completamente.
Neste Dia dos Pais, portanto, talvez seja necessário inverter a pergunta tradicional. Em vez de perguntar apenas “quem é seu pai?”, deveríamos perguntar também: que tipo de pai você está sendo?
Porque colocar um filho no mundo é um ato biológico. Ser pai é uma escolha diária. E abandonar um filho depois de fazê-lo nascer é uma das formas mais covardes de irresponsabilidade adulta. É colocar sobre os ombros de uma criança o peso de uma decisão que nunca foi dela.
Para esses homens, talvez o Dia dos Pais não devesse ser uma data de homenagem. Deveria ser uma data de reflexão. Porque pai não é quem simplesmente gera. Pai é quem fica.


