Isolado e enfraquecido, Flávio coleciona derrotas e acaba com vice de última hora
05 agosto 2026 às 18h10

COMPARTILHAR
Uma candidatura presidencial costuma ser medida não apenas pelos votos que possui, mas pelas alianças que consegue construir. Nesse aspecto, o anúncio de Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro revela menos uma demonstração de força e mais um retrato das dificuldades enfrentadas pelo candidato do PL para ampliar sua base política. Depois de meses de negociações, recusas e articulações frustradas, Flávio acabou recorrendo a uma chapa pura, formada integralmente por membros de seu próprio partido.
O problema não está em Alfredo Gaspar. Deputado federal, ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e nome respeitado em setores conservadores, ele possui trajetória própria. O problema é o contexto de sua escolha. O convite foi feito às vésperas do anúncio oficial, após sucessivas tentativas fracassadas de atrair nomes mais robustos politicamente e capazes de ampliar o alcance eleitoral da chapa. Gaspar havia sido, inclusive, oficializado como candidato ao Senado durante convenção estadual do PL na noite anterior ao anúncio.
Durante meses, Flávio buscou uma vice mulher. A estratégia era clara: ampliar a penetração junto ao eleitorado feminino, reduzir desgastes provocados por conflitos internos do bolsonarismo e construir uma imagem mais moderada para além da base ideológica herdada do pai. Entre os nomes mais desejados estava a senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura e uma das figuras mais respeitadas do agronegócio brasileiro. Sua entrada na chapa representaria acesso privilegiado a um setor econômico poderoso e ao apoio de lideranças conservadoras espalhadas pelo país.
Mas a tentativa fracassou. O Progressistas, partido de Tereza Cristina, optou pela neutralidade na disputa presidencial e fechou a porta para a composição. A decisão representou um duro golpe para o projeto eleitoral de Flávio, que chegou a anunciar publicamente sua preferência pela senadora antes de ver a estratégia ruir diante da resistência interna da legenda.
Outra alternativa considerada foi Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e filiada ao Republicanos. Também não prosperou. O Republicanos, assim como outras siglas de centro-direita, preferiu manter distância da candidatura presidencial do PL, evitando comprometer sua estratégia eleitoral nacional.
As dificuldades não ficaram restritas às opções femininas. O bolsonarismo também sonhou com uma aliança envolvendo o PP e o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e um dos principais articuladores do Centrão. A relação, porém, se deteriorou após a Operação Compliance Zero atingir o senador piauiense. O episódio aprofundou o afastamento entre o entorno de Flávio e setores importantes do Progressistas, contribuindo para a decisão de neutralidade adotada pela legenda.
O resultado foi um isolamento crescente. Republicanos, PP e outros partidos que poderiam fornecer musculatura política à candidatura optaram por não embarcar no projeto bolsonarista. O cálculo dessas legendas parece simples: permanecer neutro oferece mais vantagens do que se associar a uma candidatura que ainda não demonstrou capacidade de expansão além do núcleo duro da direita.
O contraste com Jair Bolsonaro é inevitável. Mesmo enfrentando resistências, o ex-presidente conseguiu, em diferentes momentos de sua trajetória, atrair setores do Centrão, lideranças regionais e figuras influentes do conservadorismo nacional. Flávio, por sua vez, herdou o sobrenome mais conhecido da direita brasileira, mas ainda não demonstrou a mesma capacidade de articulação.
A escolha de Alfredo Gaspar mostra essa limitação. Em vez de simbolizar crescimento, ela marca o encerramento de uma sequência de negociações fracassadas. Em vez de demonstrar capacidade de unir diferentes correntes da direita, confirma que boa parte delas preferiu manter distância.
Na política, o vice-presidente raramente é apenas vice. A escolha costuma revelar quem está disposto a caminhar ao lado do candidato. E, nesse caso, a principal mensagem transmitida pelo anúncio foi que, depois de meses procurando aliados, Flávio Bolsonaro acabou encontrando apoio apenas dentro da própria casa.
Para quem pretendia liderar uma ampla coalizão conservadora, é um começo de campanha bem pior do que se imaginava.
Leia também


