Uma candidatura presidencial costuma ser medida não apenas pelos votos que possui, mas pelas alianças que consegue construir. Nesse aspecto, o anúncio de Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro revela menos uma demonstração de força e mais um retrato das dificuldades enfrentadas pelo candidato do PL para ampliar sua base política. Depois de meses de negociações, recusas e articulações frustradas, Flávio acabou recorrendo a uma chapa pura, formada integralmente por membros de seu próprio partido.

O problema não está em Alfredo Gaspar. Deputado federal, ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e nome respeitado em setores conservadores, ele possui trajetória própria. O problema é o contexto de sua escolha. O convite foi feito às vésperas do anúncio oficial, após sucessivas tentativas fracassadas de atrair nomes mais robustos politicamente e capazes de ampliar o alcance eleitoral da chapa. Gaspar havia sido, inclusive, oficializado como candidato ao Senado durante convenção estadual do PL na noite anterior ao anúncio.

Durante meses, Flávio buscou uma vice mulher. A estratégia era clara: ampliar a penetração junto ao eleitorado feminino, reduzir desgastes provocados por conflitos internos do bolsonarismo e construir uma imagem mais moderada para além da base ideológica herdada do pai. Entre os nomes mais desejados estava a senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura e uma das figuras mais respeitadas do agronegócio brasileiro. Sua entrada na chapa representaria acesso privilegiado a um setor econômico poderoso e ao apoio de lideranças conservadoras espalhadas pelo país.

Mas a tentativa fracassou. O Progressistas, partido de Tereza Cristina, optou pela neutralidade na disputa presidencial e fechou a porta para a composição. A decisão representou um duro golpe para o projeto eleitoral de Flávio, que chegou a anunciar publicamente sua preferência pela senadora antes de ver a estratégia ruir diante da resistência interna da legenda.

Outra alternativa considerada foi Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e filiada ao Republicanos. Também não prosperou. O Republicanos, assim como outras siglas de centro-direita, preferiu manter distância da candidatura presidencial do PL, evitando comprometer sua estratégia eleitoral nacional.

As dificuldades não ficaram restritas às opções femininas. O bolsonarismo também sonhou com uma aliança envolvendo o PP e o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e um dos principais articuladores do Centrão. A relação, porém, se deteriorou após a Operação Compliance Zero atingir o senador piauiense. O episódio aprofundou o afastamento entre o entorno de Flávio e setores importantes do Progressistas, contribuindo para a decisão de neutralidade adotada pela legenda.

O resultado foi um isolamento crescente. Republicanos, PP e outros partidos que poderiam fornecer musculatura política à candidatura optaram por não embarcar no projeto bolsonarista. O cálculo dessas legendas parece simples: permanecer neutro oferece mais vantagens do que se associar a uma candidatura que ainda não demonstrou capacidade de expansão além do núcleo duro da direita.

O contraste com Jair Bolsonaro é inevitável. Mesmo enfrentando resistências, o ex-presidente conseguiu, em diferentes momentos de sua trajetória, atrair setores do Centrão, lideranças regionais e figuras influentes do conservadorismo nacional. Flávio, por sua vez, herdou o sobrenome mais conhecido da direita brasileira, mas ainda não demonstrou a mesma capacidade de articulação.

A escolha de Alfredo Gaspar mostra essa limitação. Em vez de simbolizar crescimento, ela marca o encerramento de uma sequência de negociações fracassadas. Em vez de demonstrar capacidade de unir diferentes correntes da direita, confirma que boa parte delas preferiu manter distância.

Na política, o vice-presidente raramente é apenas vice. A escolha costuma revelar quem está disposto a caminhar ao lado do candidato. E, nesse caso, a principal mensagem transmitida pelo anúncio foi que, depois de meses procurando aliados, Flávio Bolsonaro acabou encontrando apoio apenas dentro da própria casa.

Para quem pretendia liderar uma ampla coalizão conservadora, é um começo de campanha bem pior do que se imaginava.

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