Quem teve a oportunidade de ter acesso aos dados da Operação Venire, que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes disponibilizou na tarde desta quarta-feira, 3, se tem o mínimo de senso imparcialidade ficou estarrecido com o que argumentou a vice-procuradora-geral da República, Lindôra Araújo, para desaprovar a busca na residência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A operação, pedida pela Polícia Federal e autorizada por Moraes, investiga a falsificação de dados no sistema eletrônico Conecte SUS, que é responsável pela emissão de cartões de vacinação. Pelo devido processo legal, a Procuradoria-Geral da República (PRG) é consultada, mas não limita a decisão final do magistrado.

Pelo que mostra o processo, acabam sendo totalmente incongruentes as justificativas de Lindôra para, ao mesmo tempo: 1) entender como necessária a prisão do braço direito de Bolsonaro, o coronel da ativa do Exército Mauro Cid, por ter literalmente suas digitais no caso; e 2) considerar que não havia “indícios minimamente consistentes” de participação do ex-presidente nos fatos investigados.

Como dito acima, o ministro condutor da investigação – no caso, Moraes – não precisa acolher o parecer da PGR nesta fase. Dessa forma, aceitou parcialmente o que Lindôra escreveu, ao deixar a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro fora do imbróglio. E, assim, determinou as buscas e apreendeu o celular (ou um dos) do capitão.

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Mas o recorte a que este texto quer se ater é sobre como os nomeados por Bolsonaro para instituições que deveriam ser de Estado acabam se comportando, mesmo com ele já fora do governo, com um viés favorável a ele. É o caso dos ministros do STF Kássio Nunes Marques e André Mendonça, que foram indicados pelo ex-presidente e têm sido os únicos divergentes em matérias que, de alguma forma, contrariem os pontos de vista do governo anterior – é bom lembrar que o próprio Bolsonaro disse, quando Nunes Marques assumiu, que tinha “10%” do STF, como se o Supremo fosse uma bancada.

A ironia de tudo isso é que a extrema direita diz que o PT aparelhou as instituições, como a PF, o MPF e o STF, durante seus anos de governo. Mas se esquecem de que foram durante os governos petistas que o Supremo julgou o mensalão – que “cortou a cabeça”, politicamente falando, de algumas das principais lideranças do partido – e também que nasceu e cresceu a Lava Jato, que serviu basicamente para colocar a pecha de corrupto no PT e que teve PGR e Polícia Federal como protagonistas.

Voltando a Lindôra, é recorrente em seu histórico decisões que protegem Bolsonaro, basta uma breve pesquisa. Mas desta vez, ao livrar Bolsonaro e jogar todo o peso da suspeita dos crimes cometidos em Mauro Cid – o assessor que oficialmente é um ajudante de ordens, mas se comporta, na verdade, como fiel escudeiro –, ela faz algo bem parecido com o que ocorre, em casos semelhantes, aqui ao lado, na Venezuela de Nicolás Maduro.

Quem tem olhos neutros para observar percebe que, de 2019 a 2022, ao contrário dos governos anteriores, as instituições foram, sim, manipuladas para proteger presidente e seus amigos. E a descontaminação, pelo jeito, vai demorar.