A democracia brasileira gosta de dizer que todos podem disputar espaço, defender ideias e chegar ao poder. Na prática, porém, o caminho até esses espaços continua sendo muito diferente para homens e mulheres. Para elas, entrar na política frequentemente significa aceitar uma exposição que ultrapassa o debate de propostas e chega ao corpo, à vida privada, à família e até ao direito de falar.

A violência política de gênero não começa necessariamente com uma ameaça explícita. Ela pode estar na tentativa de silenciamento, na interrupção constante de uma fala, na desqualificação baseada no fato de a candidata ou parlamentar ser mulher, nos ataques de natureza sexual e nas campanhas de difamação que dificilmente seriam dirigidas a um homem nas mesmas circunstâncias.

É justamente aí que mora parte do problema: algumas dessas práticas foram naturalizadas durante décadas como se fossem apenas parte do jogo político.

Em entrevista ao Jornal Opção, a advogada Júlia Matos, especialista em Direito Eleitoral, chamou atenção para um efeito que ultrapassa a vítima de cada episódio. Quando uma mulher é atacada por ocupar determinado espaço, outras mulheres também recebem a mensagem de que entrar na política pode ter um custo alto demais.

Isso ajuda a compreender por que a violência política não pode ser tratada apenas como uma questão individual. Quando ameaças, constrangimentos e humilhações interferem na decisão de uma mulher de se candidatar ou permanecer em um mandato, o prejuízo passa a ser coletivo.

A democracia também perde.

O exemplo citado pela especialista em Goiás é simbólico. Em 2022, a vereadora Camila Rosa, de Aparecida de Goiânia, teve o microfone cortado durante uma discussão em plenário sobre participação feminina na política. Não houve agressão física, mas a cena ajuda a mostrar como o silenciamento também pode funcionar como instrumento de poder.

Afinal, exercer um mandato não significa apenas ocupar uma cadeira. Significa ter condições de falar, votar, fiscalizar, apresentar propostas, divergir e participar das decisões.

O Brasil avançou ao criar uma legislação específica para combater a violência política contra a mulher. A Lei nº 14.192, de 2021, reconheceu formalmente práticas destinadas a impedir, dificultar ou restringir os direitos políticos femininos. O desafio agora é fazer com que aquilo que está escrito tenha efeito no cotidiano.

Uma lei perde parte de sua capacidade de transformação quando a vítima não sabe identificar a violência, não encontra onde denunciar ou espera tanto por uma resposta que a punição deixa de produzir efeito.

Mas seria um erro reduzir o problema aos ataques mais visíveis. Existe outra barreira, menos barulhenta e igualmente importante: o dinheiro.

Campanhas eleitorais dependem de estrutura, equipe, deslocamento, publicidade e comunicação. Uma candidatura que recebe menos recursos começa a disputa alguns metros atrás das demais. Se mulheres encontram mais dificuldade para acessar dinheiro e estruturas partidárias, a igualdade prevista formalmente na eleição não necessariamente existe na prática.

É por isso que cumprir uma cota de candidaturas femininas não basta.

Não adianta incentivar mulheres a colocar seus nomes nas urnas enquanto decisões estratégicas, recursos e estruturas continuam concentrados nos mesmos grupos. Representatividade verdadeira exige presença também onde se escolhem candidatos prioritários, se distribui dinheiro e se definem os rumos partidários.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes do debate. Durante muito tempo, a baixa participação feminina na política foi explicada como falta de interesse. É uma explicação confortável porque transfere às próprias mulheres a responsabilidade por uma estrutura que historicamente ofereceu a elas menos espaço.

A pergunta deveria ser outra: quais condições são oferecidas para que elas entrem, disputem e permaneçam?

Em ano eleitoral, essa discussão se torna ainda mais necessária. O aumento do número de candidatas, isoladamente, não representa uma transformação se elas continuarem submetidas a ataques, dificuldades financeiras e pouca participação nos centros de decisão.

Uma democracia não pode considerar normal que parte da população precise calcular não apenas o custo eleitoral de uma candidatura, mas também o risco pessoal de simplesmente ocupar um espaço público.

Garantir às mulheres o direito de disputar poder sem violência não é conceder privilégio. É assegurar algo muito mais básico: que as regras democráticas funcionem para todos.

Enquanto ocupar a política continuar custando mais caro para uma mulher, seja financeiramente, profissionalmente ou pessoalmente, a igualdade política brasileira continuará existindo mais no papel do que nos espaços onde o poder realmente é exercido.