O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) parece ter escolhido o deboche como resposta às revelações sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Em mensagens obtidas pela Polícia Federal e divulgadas nesta quinta-feira, 3, o banqueiro afirma: “Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele”. Os diálogos não esclarecem quantas viagens teriam sido custeadas, nem os valores ou as circunstâncias. Nikolas, por sua vez, nega ter cometido qualquer irregularidade.

Seria razoável esperar do parlamentar uma explicação objetiva. Afinal, foi o próprio Nikolas quem, um dia antes, publicou um vídeo cobrando do ministro Alexandre de Moraes esclarecimentos sobre sua relação com Vorcaro. “Explique os encontros. Explique as mensagens. Explique o contrato. Explique os prints. Explique o acesso ao Vorcaro”, cobrou o deputado.

Quando a cobrança voltou para ele, porém, a resposta foi outra. Nikolas apareceu nas redes sociais cortando o cabelo e ironizando as mensagens nas quais chamava Vorcaro de “lindão”. Pode ser engraçado para seus seguidores. Mas, para quem ocupa um mandato público, transformar uma questão que merece esclarecimento em piada é, no mínimo, uma escolha ruim.

Não há nada de ilegal em um político conversar com um empresário. Tampouco a declaração de Vorcaro, isoladamente, prova que Nikolas tenha cometido algum crime. Mas há uma pergunta elementar que continua sem resposta: o que exatamente o banqueiro quis dizer quando afirmou ter bancado “todos os voos” do deputado?

E a pergunta ganha peso porque não se trata apenas de uma relação distante. Mensagens divulgadas mostram Nikolas tratando Vorcaro por “Dani” e “lindão” e buscando maior proximidade com o banqueiro. Também há registros de que o deputado utilizou um jatinho ligado a Vorcaro durante a campanha eleitoral de 2022.

O ponto central, portanto, não é demonizar uma conversa entre político e empresário. É cobrar coerência. Quem exige explicações de ministros, magistrados e adversários precisa aceitar que suas próprias relações sejam escrutinadas. A régua não pode mudar conforme o lado político de quem está sendo questionado.

E esse talvez seja o aspecto mais preocupante de toda essa história. O Brasil já acumulou escândalos suficientes para que a população tenha aprendido a desconfiar de relações pouco transparentes entre poder e dinheiro. A cada novo caso, cresce a sensação de que políticos são rápidos para cobrar os outros, mas nem sempre tão dispostos a explicar a si mesmos.

Depois de tantos episódios de corrupção e de tantas promessas de renovação, não deveria surpreender que o brasileiro esteja cada vez mais descrente da política. Essa descrença não nasceu de um único partido, de uma única ideologia ou de um único escândalo. Ela foi construída ao longo de anos. E cada vez que um agente público responde a uma pergunta séria com deboche, em vez de transparência, ajuda a aprofundá-la.

No fim, não se trata de direita ou esquerda. Trata-se de uma regra simples: quem pede explicações precisa estar preparado para também dar explicações.

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