A crise envolvendo Flávio Bolsonaro vai muito além da saída de um marqueteiro. O episódio escancara algo que já ficou impossível esconder: o bolsonarismo entrou em decomposição política e hoje parece consumido por vaidade, improviso e disputas internas pelo espólio eleitoral de Jair Bolsonaro. E o mais simbólico é que Flávio acabou virando o rosto dessa decadência.

Nem o melhor marqueteiro do mundo conseguiria limpar a imagem de um político que parece determinado a piorar a própria situação cada vez que tenta se explicar. A entrevista recente dada pelo senador foi um desastre completo. Mal assessorado, confuso e sem controle da narrativa, tentou conter a crise e saiu ainda mais queimado depois de apanhar de jornalistas da GloboNews em perguntas básicas que qualquer liderança preparada deveria saber enfrentar.

O problema já deixou de ser comunicação. É limitação política.Durante anos, Jair Bolsonaro vendeu a ideia de que representava uma ruptura com a velha política. Mas o tempo mostrou outra coisa: criou-se um projeto personalista, dependente de conflito permanente e centrado na própria família. O presidente que prometia combater oligarquias políticas terminou tentando construir a sua própria. E fracassou.

Bolsonaro colocou os quatro filhos homens na política e não conseguiu formar um sucessor à altura nem mesmo para manter unido o próprio grupo. Carlos Bolsonaro virou um operador de guerra digital obcecado por inimigos imaginários e disputas internas. Eduardo Bolsonaro vive em campanha ideológica permanente, mais preocupado com redes internacionais da extrema direita do que com articulação nacional real. Jair Renan, conhecido como inimigo da sinapse, acumulou episódios constrangedores e não é preciso dizer muito. E Flávio, que deveria representar a ala mais madura e institucional do clã, se mostra incapaz de atravessar uma crise sem ampliar o desgaste.

No fim, o bolsonarismo virou um movimento prisioneiro do sobrenome Bolsonaro — e isso está destruindo a própria direita.

O PL hoje vive um racha evidente. Há disputa entre alas do partido, tensão entre aliados históricos de Bolsonaro e setores mais pragmáticos, além de uma guerra silenciosa dentro da própria família. Michelle Bolsonaro ganhou espaço político e passou a disputar influência direta sobre o eleitorado conservador. Carlos Bolsonaro, conhecido pelo controle obsessivo da comunicação do pai, vê adversários em todos os lados. Parlamentares do partido já demonstram medo de atrelar completamente suas campanhas ao caos permanente da família.

O resultado é um campo conservador perdido.

E essa talvez seja a maior ironia da política brasileira atual: Lula enfrenta desgaste econômico, críticas constantes e um governo longe do entusiasmo de mandatos anteriores, mas continua competitivo porque a oposição parece especializada em autodestruição.

Os possíveis nomes da direita seguem frágeis, indefinidos ou regionais demais. Michelle Bolsonaro depende totalmente do capital político do marido. Romeu Zema ainda não conseguiu se transformar em liderança nacional (nem apelando para os absurdos conseguiu mobilizar a extrema direita). Ronaldo Caiado ainda permanece distante do debate nacional. Enquanto isso, Bolsonaro continua preso, inelegível e cercado por investigações, mas ainda monopoliza a direita de tal maneira que ninguém consegue crescer de verdade sem sua autorização política.

O bolsonarismo prometeu renovar o país. Terminou refém de brigas familiares, paranoia política e herdeiros despreparados.

E Flávio Bolsonaro, talvez sem perceber, virou o retrato perfeito desse fracasso.