O brasileiro já aprendeu que, em política, promessa costuma viajar muito mais rápido do que avião. O programa Voa Brasil, lançado pelo governo Lula da Silva (PT) com a proposta de democratizar o acesso ao transporte aéreo, é um exemplo disso. A ideia parecia sedutora: oferecer passagens por até R$ 200 a aposentados e pensionistas que não tivessem viajado de avião nos últimos 12 meses. Na prática, porém, a iniciativa ficou muito distante do tamanho da promessa.

Segundo levantamento, o programa, lançado em 2024, previa inicialmente 3 milhões de passagens a R$ 200 em 12 meses. Depois de 17 meses, entretanto, apenas 52 mil bilhetes haviam sido vendidos — cerca de 1,7% da meta original. A estimativa é de que aproximadamente 30 mil pessoas tenham sido beneficiadas.

Uma promessa que não decolou

É difícil não questionar um programa que nasceu cercado de expectativas e terminou entregando uma fração tão pequena daquilo que havia sido anunciado. O governo falava em democratizar o acesso ao transporte aéreo. O discurso era de inclusão, de oportunidade e de permitir que brasileiros que nunca haviam viajado de avião finalmente conhecessem outras regiões do país.

Mas existe uma diferença enorme entre anunciar uma política pública e fazer essa política funcionar.

O Voa Brasil não previa subsídio direto do governo nem obrigava as empresas a vender todas as passagens pelo preço anunciado. A iniciativa dependia da disponibilidade de assentos ociosos oferecidos pelas companhias aéreas. E aí aparece a primeira grande lição: não basta colocar um preço bonito no anúncio. É preciso garantir que o produto exista, esteja disponível e seja acessível para quem deveria ser beneficiado.

Enquanto isso, o brasileiro comum continua olhando para o preço das passagens e fazendo contas. Para uma família de baixa renda, viajar de avião não é simplesmente escolher um destino e comprar uma passagem. É pensar no dinheiro da alimentação, no aluguel, na prestação, no remédio, na conta de luz e no transporte. Quando sobra alguma coisa, muitas vezes não sobra o suficiente para comprar uma passagem aérea — mesmo que ela custe R$ 200. É nesse ponto que a propaganda política encontra a vida real.

O pobre continua vendo avião do chão

Existe uma frase que resume bem essa realidade: para muita gente pobre, o avião só aparece quando ela olha para cima.

Não é porque o brasileiro não tenha vontade de viajar. É porque o orçamento doméstico não permite. Em um país onde milhões de famílias convivem com dívidas e precisam priorizar despesas básicas, a viagem de avião ainda é vista por muitos como um luxo distante.

Por isso, programas destinados a ampliar o acesso ao transporte aéreo podem ser importantes. O problema é transformar uma ideia legítima em peça de marketing político e depois descobrir que a realidade não acompanha o discurso.

Se a intenção era levar aposentados ao aeroporto, era preciso enfrentar as barreiras concretas que impedem essas pessoas de viajar. Não basta oferecer uma passagem barata no papel. É necessário garantir disponibilidade, facilitar o acesso, reduzir burocracias e compreender por que milhões de brasileiros continuam fora do mercado de aviação.

E há um problema ainda mais doloroso

É importante não misturar duas histórias diferentes, embora elas tenham um ponto em comum: o aposentado brasileiro.

O fracasso do Voa Brasil não causou os descontos indevidos nos benefícios do INSS. São episódios distintos. Mas é impossível discutir a situação dos aposentados sem lembrar o escândalo revelado pela Operação Sem Desconto, que investigou descontos associativos não autorizados em benefícios previdenciários.

O próprio governo informou que o processo de ressarcimento alcançou aproximadamente R$ 2,9 bilhões devolvidos a 4,2 milhões de aposentados e pensionistas, após milhões de contestações. Em julho de 2026, uma nova medida provisória abriu mais R$ 547 milhões para o ressarcimento de beneficiários atingidos.

Esse dinheiro não é favor. É dinheiro que deveria ter permanecido no bolso de quem trabalhou durante décadas para receber sua aposentadoria.

E é justamente por isso que qualquer discurso oficial sobre inclusão, proteção social e defesa dos mais pobres precisa ser confrontado com a realidade. O aposentado não quer apenas ouvir que terá direito a uma passagem aérea barata. Ele quer segurança para receber seu benefício integral, sem descontos que não autorizou. Quer poder comprar seus remédios. Quer pagar suas contas. Quer colocar comida na mesa.

Antes de prometer que o aposentado vai voar, o Estado precisa garantir que ele não seja vítima de descontos indevidos dentro do próprio sistema previdenciário.

O Voa Brasil, portanto, deveria servir menos como propaganda e mais como uma lição de gestão pública. Política pública não pode ser construída apenas com slogans capazes de produzir manchetes. É preciso estabelecer metas realistas, acompanhar resultados e admitir quando uma iniciativa não está funcionando. Afinal, 52 mil passagens vendidas diante de uma meta de 3 milhões não é um detalhe estatístico. É um sinal claro de que alguma coisa deu errado.

O Brasil não precisa de um governo que prometa colocar o pobre dentro de um avião apenas para produzir uma fotografia bonita. Precisa de políticas que aumentem o poder de compra, reduzam os obstáculos econômicos e permitam que o cidadão escolha viajar porque pode — e não porque recebeu uma promessa de campanha.

No fim das contas, avião não decola com discurso. Decola quando há combustível, infraestrutura, assento disponível e alguém capaz de pagar a passagem. Na política também deveria ser assim: menos propaganda, mais resultado.

Porque, para quem vive contando moedas no fim do mês, R$ 200 não são apenas uma passagem aérea. São dinheiro para comprar comida, pagar uma conta ou comprar um remédio. E quando o governo promete uma coisa e entrega outra, quem continua no chão não é apenas o avião. É o próprio cidadão.

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