O que é necessário para que mais mulheres estejam à frente da política e sejam levadas a sério em um meio majoritariamente liderado por homens? Estamos falando de um ambiente em que os próprios partidos precisam cumprir cotas para garantir a participação feminina nas eleições. Se precisamos de mecanismos para garantir que elas estejam nas disputas, talvez seja porque ainda existe algo muito errado nessa estrutura.

Em reportagem publicada pelo Jornal Opção neste sábado, 19, mostramos que, embora as mulheres representem 53% do eleitorado goiano em 2026, apenas 39,1% dos filiados aptos a disputar uma vaga de deputada federal ou estadual são mulheres.

Isso deveria ser um alerta. Somos maioria entre os eleitores, mas continuamos sendo minoria quando o assunto é ocupar os espaços onde as decisões são tomadas. E não é apenas sobre conseguir uma candidatura. É sobre ser ouvida, respeitada e reconhecida como alguém capaz de participar das decisões que afetam toda a sociedade. Talvez por isso seja tão preocupante quando ainda ouvimos discursos que tentam colocar em dúvida a capacidade das mulheres de participar da política. Em junho, o influenciador Paulo Figueiredo afirmou que “mulher vota muito mal”, especialmente as solteiras, e chegou a dizer que mulheres casadas tendem a acompanhar o voto dos maridos. Depois, reafirmou sua posição.

Não, nós não podemos aceitar que comentários como esse sejam tratados como algo normal. Não porque mulheres sejam incapazes de escolher errado, todo eleitor, homem ou mulher, tem esse direito. Mas porque ninguém deve ter sua capacidade política questionada simplesmente por ser mulher. O direito ao voto feminino no Brasil não apareceu por acaso. Foi resultado de uma luta que atravessou décadas e que permitiu às mulheres conquistarem o direito de participar diretamente das decisões políticas do país. E se foi preciso lutar para chegar até aqui, também será preciso continuar lutando para que esse direito seja respeitado.

É justamente por isso que não podemos recuar.

Quando uma mulher entra na política, ela não está ocupando um espaço que pertence aos homens. Está ocupando um espaço que também é dela. E quando uma mulher se candidata, vota, debate, discorda e defende suas ideias, ela não precisa pedir licença para participar. Nunca foi tão importante discutir a presença feminina nos espaços de poder. Enquanto o feminicídio e a violência doméstica continuam fazendo parte da realidade de tantas mulheres, precisamos também perguntar quem está tomando as decisões sobre políticas públicas, segurança, proteção e direitos.

Nós conhecemos, muitas vezes na própria pele, problemas que não podem ser tratados apenas como estatísticas. Temos nossas experiências, nossas opiniões e nossa capacidade de construir soluções. Por isso, talvez a pergunta não seja apenas o que precisamos fazer para ter mais mulheres na política. É também até quando vamos aceitar que nos digam que não estamos preparadas para estar lá.

Nós chegamos até aqui porque outras mulheres persistiram antes de nós. Agora, cabe a nós continuar abrindo caminho.

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