Em 22 de abril, o mundo celebra o Dia da Terra — data criada em 1970, nos Estados Unidos, e transformada em símbolo global da consciência ambiental. Mais do que uma efeméride, o Dia da Terra deveria servir como convite à reflexão sobre uma verdade cada vez mais evidente: a crise ambiental não atinge a todos da mesma forma.

As enchentes, secas prolongadas, queimadas e ondas de calor têm CEP, cor e classe social. Seus efeitos recaem com mais força sobre populações periféricas, comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas, ciganos e grupos historicamente marginalizados. Em outras palavras, a emergência climática escancara desigualdades antigas e produz novas injustiças.

Não basta, portanto, discutir metas abstratas de sustentabilidade ou repetir slogans verdes. A agenda ambiental do século XXI precisa incorporar, de forma definitiva, a dimensão da justiça social e racial. Isso significa reconhecer que aqueles que menos contribuíram para a degradação ambiental costumam ser os que mais sofrem suas consequências.

No Brasil, essa realidade se impõe com clareza. Comunidades tradicionais espalhadas por todos os biomas nacionais preservam saberes ancestrais, modos sustentáveis de produção e relações equilibradas com a natureza. São populações que conhecem o ritmo das águas, o manejo da terra, a proteção das sementes e o uso racional dos recursos naturais. Enquanto parte do modelo econômico dominante se ancora na exaustão dos ecossistemas, esses grupos oferecem exemplos concretos de convivência respeitosa com o meio ambiente.

É preciso inverter a lógica histórica que os tratou como obstáculos ao “progresso”. Quilombolas, indígenas, ribeirinhos, extrativistas e ciganos não representam atraso algum. Ao contrário: guardam experiências valiosas para a construção de um futuro sustentável. Proteger seus territórios, assegurar seus direitos e ampliar sua participação nas decisões públicas não é favor estatal — é estratégia inteligente de país.

Quando se fala em transição ecológica, convém perguntar: transição para quem? Se o novo modelo econômico repetir exclusões antigas, estaremos apenas pintando de verde velhos privilégios. O desenvolvimento sustentável precisa gerar renda, segurança alimentar, acesso a políticas públicas e dignidade para quem vive nos territórios historicamente esquecidos.

O Dia da Terra, portanto, não deve ser apenas uma celebração simbólica. É um chamado político e moral. O planeta não será salvo apenas por tecnologia, mercados de carbono ou discursos protocolares em conferências internacionais. Será salvo quando a proteção ambiental caminhar lado a lado com democracia, inclusão e respeito aos povos que há séculos sabem cuidar da terra.

Sem justiça social, não haverá justiça climática. E sem ouvir aqueles que vivem em profunda conexão com a natureza, seguiremos procurando soluções onde elas nunca estiveram.