A morte da verdade começa pelo silêncio da imprensa
21 setembro 2026 às 17h07

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Na transmissão do 9º episódio da segunda temporada da série Andor, o diretor e roteirista Tony Gilroy transmitiu um alerta atemporal sobre a perda da verdade nas mãos de governos autoritários.
“A distância entre o que é dito e o que se sabe ser verdade se tornou um abismo. De todas as coisas em risco, a perda de uma realidade objetiva é talvez a mais perigosa. A morte da verdade é a vitória definitiva do mal. Quando a verdade nos abandona, quando deixamos escapar, quando é arrancada de nossas mãos, nos tornamos vulneráveis ao apetite de qualquer monstro que grite mais alto.”
Apesar de ser ambientada no universo de Star Wars — uma franquia que, desde sua origem, carrega analogias e mensagens essencialmente políticas —, a fala da líder da resistência, Mon Mothma, serve para qualquer universo, ou planeta, inserido na política humana.
É difícil assistir à cena sem estabelecer paralelos com aquilo que ocorre fora da ficção. Nos Estados Unidos, o governo do presidente Donald Trump decidiu impedir jornalistas da CNN, MS NOW e Politico de acessar a Casa Branca após acusar os veículos de divulgar “fake news”. A determinação, anunciada na sexta-feira, 18, foi colocada em prática no sábado, 19, quando profissionais tiveram suas credenciais desativadas ou confiscadas.
Trump sustenta outra interpretação. O presidente afirma que sua decisão não constitui um ataque à imprensa livre, mas uma ofensiva contra aquilo que classifica como notícias falsas, chegando a tratar esse tipo de conteúdo como uma ameaça à segurança nacional.
Imprensa livre
Não é alarmismo dizer que a imprensa livre, mesmo submetida às limitações econômicas, aos interesses empresariais e aos próprios erros, constitui uma das principais formas de fiscalização do poder em uma democracia. Não porque jornalistas sejam donos da verdade. Não somos. Erramos, corrigimos, divergimos e também carregamos vieses. O jornalismo não possui o monopólio da realidade.
Sua importância está justamente em outra coisa: na possibilidade de questionar quem governa, confrontar versões oficiais, consultar documentos, ouvir contraditórios, investigar aquilo que deveria permanecer escondido e publicar informações mesmo quando elas desagradam a quem ocupa o poder.
Por isso, retirar o acesso de um veículo porque o governante considera sua cobertura falsa ou injusta ultrapassa uma simples briga entre presidente e jornalistas. O precedente é muito mais profundo: entrega ao próprio objeto da fiscalização o poder de decidir quem pode fiscalizá-lo.
Governos não precisam gostar da imprensa. Presidentes não precisam concordar com reportagens. Políticos podem contestar informações, apresentar documentos, pedir correções e recorrer à Justiça quando considerarem que seus direitos foram violados. O que não deveria caber ao governante é determinar quais jornalistas merecem acesso ao poder com base no conteúdo de suas reportagens.
O domínio sobre os meios de comunicação — sobre o que pode ou não ser visto, divulgado, perguntado e, principalmente, conhecido — sempre foi uma ferramenta de regimes autoritários. Controlar a informação significa reduzir a capacidade da sociedade de fiscalizar seus governantes. E uma população incapaz de conhecer os atos de quem governa também perde parte da capacidade de julgá-los.
A história mostra que a erosão da liberdade de imprensa raramente precisa começar com jornais fechados ou jornalistas presos. Pode começar de maneira mais banal: uma credencial retirada, uma entrevista negada como punição, um veículo excluído, uma pergunta classificada como inimiga, uma reportagem inconveniente transformada em “mentira” por decreto.
Uma nova fronteira se abre
Quando um repórter pergunta, é o cidadão que ganha a possibilidade de obter uma resposta. Quando um documento público é analisado, é a sociedade que passa a conhecer aquilo que o poder produziu em seu nome. Quando uma investigação revela corrupção, desperdício, abuso ou incompetência, o beneficiário final não deveria ser o jornal, mas o público.
Defender o jornalismo livre, portanto, não significa defender que a imprensa esteja acima de críticas. Muito pelo contrário. Uma imprensa que fiscaliza também deve ser fiscalizada, contestada e cobrada por seus erros. Liberdade não significa ausência de responsabilidade.
Em Star Wars, o Império não se sustenta apenas por naves, soldados ou pela Estrela da Morte. Ele também depende do medo, da propaganda e do controle daquilo que seus cidadãos conseguem compreender sobre o mundo ao redor deles. É por isso que a fala de Mon Mothma funciona tão bem.
A morte da verdade não acontece necessariamente quando todas as pessoas passam a acreditar em uma mentira, mas sim quando já não existe espaço livre para procurá-la.
E é justamente por isso que uma imprensa livre, incômoda, imperfeita e capaz de fazer perguntas que o poder preferiria não responder continua sendo indispensável. Não cabe ao jornalismo decidir sozinho o que a sociedade deve pensar. Cabe a ele garantir que existam informações suficientes para que cada cidadão possa decidir por conta própria.
Porque, quando apenas o poder determina aquilo que pode ser visto e ouvido, o problema deixa de ser qual notícia é verdadeira.
O problema passa a ser quem ganhou o direito de definir a verdade.


