Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Paulo Evaristo Arns não era um religioso exemplar e elogiou o ditador Fidel Castro

O cardeal criticava o regime militar brasileiro, mas defendia a cruenta ditadura cubana; e, mesmo cristão, perseguiu o presidente da Volkswagen, Wolfgang Sauer, que era democrata

D. Paulo Evaristo Arns, cardeal, ignorando o imenso sofrimento do povo cubano imposto pelo ditador, escreveu carta para Fidel Castro: “Tenho-o presente diariamente em minhas orações e peço ao Pai que lhe conceda sempre a graça de conduzir os destinos de sua Pátria”

D. Paulo Evaristo Arns, cardeal, ignorando o imenso sofrimento do povo cubano imposto pelo ditador, escreveu carta para Fidel Castro: “Tenho-o presente diariamente em minhas orações e peço ao Pai que lhe conceda sempre a graça de conduzir os destinos de sua Pátria”

Lá vou eu, caro leitor, remar contra a correnteza e enfurecer a esquerdalha. Mas é que prefiro sempre remar a favor dos fatos, da realidade pura e simples. A unanimidade da imprensa brasileira, com a morte de d. Paulo Evaristo Arns, na semana passada, derramou-se em elogios ao arcebispo. Ora, é um costume nacional encher de qualidades e esvaziar de defeitos de quem mor­re por aqui, e como dizia Nel­son Rodrigues, a unanimidade é burra…

É fato irrefutável que d. Paulo teve a grande qualidade de combater os excessos do regime militar, e isso ficou patente na morte do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), embora não se possa esquecer que o governador de São Paulo em meados da década de 1970, Paulo Egydio Martins, homem de proa no regime, teve igual desassombro no episódio. Enfrentou seus amigos de farda da “linha dura”.

Dilma Rousseff, presidente que sofreu impeachment, era aliada-amiga de d. Paulo Evaristo Arns | Foto: Roberto Stuckert Filho

Dilma Rousseff, presidente que sofreu impeachment, era aliada-amiga de d. Paulo Evaristo Arns | Foto: Roberto Stuckert Filho

Daí a dizer que o arcebispo era um inimigo das ditaduras, um democrata cristão, vai uma grande diferença. Mais apropriado seria localizá-lo na esquerda católica, no terreno da “teologia da libertação”, hoje sabidamente mais um ramo da infiltração comunista e gramsciana na Igreja, do que um ramo “moderno” da doutrina católica.

Na minha opinião, d. Paulo Evaristo Arns não foi um religioso exemplar, cumpridor intransigente do que preceitua a Igreja Católica a que pertenço. E tenho minha opinião baseada também em fatos, na realidade. Três deles, entre outros, para não me estender demais.

Vaidade e Sauer

Primeiro, d. Paulo, que conheci na campanha das “Diretas Já”, era extremamente vaidoso (ao contrário de sua irmã, Zilda Arns, cuja pastoral da criança desempenhava um papel tão importante quanto discreto). Aliás, foi d. Paulo uma das três pessoas mais vaidosas que conheci, ao lado de Fernando Henrique Cardoso e de outra figura pública que deixo de citar no momento, mesmo aguçando a curiosidade do leitor. Cumpre lembrar que a vaidade, o gosto pelo contato com os poderosos, o constante aparecer sob as luzes não está entre as pregações de Jesus Cristo.

Wolfgang Sauer, que presidiu a Volkswagen, foi perseguido, de maneira intensa, pelo cardeal d. Paulo Evaristo Arns

Wolfgang Sauer, que presidiu a Volkswagen, foi perseguido, de maneira intensa, pelo cardeal d. Paulo Evaristo Arns

Segundo, a Igreja Católica não discrimina, e esse é outro conceito cristão. D. Paulo, no final da década de 1980 deu instruções aos padres da diocese de São Paulo para insultarem, do púlpito, o presidente da Volkswagen, nas missas a que comparecesse. Wolfgang Sauer, católico praticante, a custo encontrou um padre que se recusou a atender à ordem de d. Paulo e pôde enfim assistir suas missas. Qual a razão do ódio (também negado pela cristandade) do arcebispo a Wolfgang Sauer, homem afável, correto e trabalhador? Ser um “explorador da classe trabalhadora”, logo ele que proporcionava aos operários da fábrica que dirigia o mais elevado padrão salarial e assistencial da América Latina.

Sauer enviou carta a d. Paulo, convidando-o a uma visita à Volkswagen, para conhecer as condições de trabalho e dialogar, ele mesmo, com os operários “explorados”. A resposta, uma negativa grosseira e cheia de impropérios, Sauer a mostraria ao Papa João Paulo II, que já colecionava descontentamentos com d. Paulo, e que terminou por dividir (em 1989) em cinco partes sua diocese, deixando em suas mãos a menos importante delas.

Terceiro, d. Paulo Evaristo Arns nunca foi um combatente contra a ditadura como disse 100% da imprensa quando de seu falecimento. Foi, quando muito, um combatente do regime militar brasileiro, longe de ser uma ditadura, se comparado, por exemplo, com o regime cubano. Provam isso suas ligações de amizade com o ditador Fidel Castro, que ele de certa forma escondia no Brasil, e acabaram por se tornar públicas, por interesse do próprio Fidel Castro, que as utilizava como forma de amenizar sua imagem perante a Igreja mundial, ele que tanto perseguira os religiosos em Cuba.

Antes que me contestem, sugiro que leiam uma carta que d. Paulo enviou a Fidel Castro no Natal de 1988 e que foi publicada no “Granma”, por ordem de Fidel, e ao que parece, contrariando d. Paulo. Ali, além de tratar o assassino e opressor como “queridíssimo amigo”, o religioso diz coisas como “esperança que o indescritível sofrimento de nosso povo (brasileiro) possa ser minorado”; “tenho-o presente diariamente em minhas orações e peço ao Pai que lhe conceda sempre a graça de conduzir os destinos de sua Pátria”; “receba meu fraternal abraço nos festejos do XXX aniversário da Revolução Cubana”.

O que seria o “indescritível sofrimento do povo brasileiro”, perto do sofrimento do povo cubano, sem alimentos, sem liberdade, com as prisões apinhadas? E seria válido para um religioso descomprometido celebrar 30 anos de ditadura e miséria, e desejar seu prolongamento? Comparar um ditador que afugentou seu próprio povo, que não abandonou o poder, e dele se serviu enquanto viveu, com o então presidente João Figueiredo, simplório, empenhado na abertura, impaciente para deixar a Presidência da República?

Não creio que a verdade deva ser escamoteada, mesmo nos momentos de dor, que estarão vivendo os parentes de d. Paulo. Não seria justo. Temos todos nossos defeitos e qualidades, e por que seria d. Paulo Evaristo Arns uma divina exceção?

Uma resposta para “Paulo Evaristo Arns não era um religioso exemplar e elogiou o ditador Fidel Castro”

  1. Dom Paulo ganhou ainda mais minha admiração. Vê se, em Cuba, acontece um genocídio como esse de Brumadinho?

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