Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza é o Georges Simenon dos trópicos?

O prosador belga escreveu grande literatura a partir do romance policial, assim como o autor brasileiro

Luiz Alfredo Garcia-Roza: escritor de romance policiais| Foto: Reprodução

Foi preciso que surgisse uma notícia no Jornal Opção para que eu conhecesse os livros do escritor de romances policiais Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020). Por sinal, uma notícia quando de seu falecimento em abril passado, aos 84 anos.

Ao contrário de boa parte da crítica literária, não considero a literatura policial algo de segunda classe. Podem-se encontrar, desde que se garimpe, verdadeiras pepitas de ouro em meio a esse gênero literário, surgido, fala-se, com Edgar Allan Poe (1809-1849) e imortalizado por Arthur Conan Doyle (1859-1930), ou melhor, por seu personagem Sherlock Holmes. Sugiro, para quem duvide apreciar um romance policial, além desses clássicos, uma leitura de Agatha Christie, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Erle Stanley Gardner, Gaston Leroux ou Georges Simenon.

Não deixará de encontrar autor que lhe agrade ou personagem que lhe prenda a atenção. Não preferencialmente como aprendizado, mas como simples lazer. Em socorro de minha defesa do gênero, há o fato da vendagem destes livros. Dou um exemplo: o belga Georges Simenon, autor de duas centenas de livros policiais, é um dos dez autores mais traduzido da língua francesa, na companhia de nomes como Victor Hugo, Alexandre Dumas, Júlio Verne, Balzac, La Fontaine ou Saint-Exupéry.

Luiz Alfredo Garcia-Roza não foi, a rigor, um escritor de romances policiais. Era um psicanalista (formado em filosofia e psicologia), professor universitário, em sua especialidade, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Publicou, pela Editora Zahar, sete livros de psicologia, de 1986 a 1995. Aos 60 anos, encantou-se com a literatura policial, criou um delegado-detetive (com o sugestivo nome de Espinosa) e publicou doze romances policiais (em onze aparece Espinosa), agora não mais pela Zahar, mas pela Companhia das Letras, de 1996 a 2019. E embora exista o ditado que afirma não devermos discutir gostos, se o leitor sentir curiosidade e optar pela leitura de Garcia-Roza, sugiro os romances “Uma Janela em Copacabana”, “Vento Sudoeste” e “Um Lugar Perigoso”. A mim agradaram sobremaneira estes três.

Encontro alguns paralelos entre a produção de Garcia-Roza e a de Georges Simenon, razão do título deste artigo. Evidentemente, existem também diferenças abissais.

Ambos se notabilizaram-se por criar um investigador bem característico, marcante, cuja personalidade se impõe em todos os livros dos autores: o comissário Maigret, de Simenon, e o delegado Espinosa, de Garcia-Roza. Ambos são detetives psicológicos, cuja cuidadosa investigação busca conhecer o perfil e o comportamento das vítimas e dos suspeitos dos crimes a desvendar.

Dessa investigação, paciente, meticulosa, sobre pessoas e lugares, é que vão surgir as ligações, os liames que definirão o ato criminoso, e logo quem o praticou. Ambos detetives são respeitadíssimos pelos subordinados, bons ouvintes, não violentos, corteses com suspeitos e mesmo com culpados já identificados. Sabem que há um fundo de explicação mesmo nos piores crimes. Ambos são incorruptíveis, e Espinosa procura mesmo ignorar as práticas desonestas de colegas, para não se contaminar. Não usam suas armas, que portam mais como um distintivo de profissão, não como ferramenta de uso diário. Resolvem seus mistérios e prendem seus criminosos pelo raciocínio, não pela violência. Amam suas cidades. Maigret se encanta com a primavera parisiense tanto quanto Espinosa com o mar de Copacabana ou Ipanema. Maigret habita o acolhedor Boulevard Richard-Lenoir, no 11° arrondissement, próximo à Praça da Bastilha, em Paris; Espinosa vive no aconchego do (mini) Bairro Peixoto, um enclave em Copacabana, na Zona Sul carioca.

Georges Simenon: o belga que se tornou best-seller internacional | Foto: Reprodução

O filósofo espanhol Ortega y Gasset diz que os fatores fundamentais da vida são a circunstância e a escolha. O que vale também para as vidas fictícias de Maigret e Espinosa. Logo, há diferenças em suas existências, como as há entre as circunstâncias parisiense e carioca.

O parisiense Maigret é absolutamente monogâmico e foge de toda abordagem extraconjugal. Sua discreta Madame Maigret pouco aparece, e sequer é citado seu nome.

Já Espinosa, como bom carioca, usa sua flexibilidade amorosa tropical: divorciado, tem uma namorada paulista vistosa e independente, Irene, com quem divide os fins de semana, mas nem por isso dispensa alguma bela garota que se sinta atraída por sua profissão ou sua pessoa.

Enquanto Maigret, como todo bom francês, é um gourmet, que em casa tem elaborados pratos preparados pela mulher e nos restaurantes bons comes e bons vinhos, Espinosa, vivendo só, se contenta com comidas congeladas que ele mesmo aquece, ou esfihas compradas na tradicional Galeria Menescal, de Copacabana. Feita a ressalva, a palavra final será do leitor que leu ou lerá Garcia-Roza e Simenon: há como comparar seus trabalhos?

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