Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Livro mostra que Cabral, seguindo orientação templária, não descobriu o Brasil por acaso

D. Manuel se interessava pelas riquezas das Índias. A ordem dos Cavaleiros de Cristo se preocupava com a finalidade religiosa dos descobrimentos

Acabo de ler o livro de João Morgado, “Vera Cruz — A Vida Desconhecida de Pedro Álvares Cabral” (Clube do Autor, 507 páginas). Foi uma surpresa do amigo Barão Camilo de Fulwood, que se dá com o autor, e dele colheu uma amável dedicatória. Algumas palavras sobre João Morgado, para os brasileiros que ainda não travaram conhecimento com sua obra:  português, Morgado que nasceu em Aldeia do Carvalho, na Covilhã, em 1965, foi jornalista, e é poeta e escritor. Apesar de ainda jovem, conquistou vários prêmios literários em Portugal e no Brasil, destacando-se o Prêmio Nacional de Conto Manoel da Fonseca, da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, em 2020, o Prêmio Literário Ferreira de Castro, da Câmara Municipal de Sintra, em 2019, e a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cívico e Cultural do Brasil, em 2017. Publicou vários romances, entre eles Diário dos Imperfeitos, de 2012 e Diário dos Infiéis, de 2010, obras de muita aceitação em Portugal, adaptadas e encenadas em teatro, inclusive. A parte mais densa de sua obra está, contudo nos romances históricos. Escreveu sobre Camões O Livro do Império, e uma trilogia sobre os navegadores: Vera Cruz, a que me referi, sobre Pedro Álvares Cabral, com primeira edição em 2015, Índias, sobre Vasco da Gama, editado em 2016, e Fernão de Magalhães e a Ave-do-Paraíso, de 2019. Falemos do “Vera Cruz”.

Não é uma biografia, até porque é impossível biografar com um mínimo de precisão quem viveu há cinco séculos, e quando os registros não abundavam, como agora. Também não há testemunhas a inquirir nem imagens a consultar. Há que se completar com algo da imaginação, embora exigindo verossimilhança. É como diz João Morgado em sua Nota Final (página 505): ” Esta obra é uma biografia romanceada de Pedro Álvares Cabral e procura dar algum entendimento a pontos menos claros da vida desta personalidade marcante. Não sendo um ensaio histórico, está assente numa investigação de dois anos, preserva os dados históricos conhecidos e procura apresentá-los de forma aliciante para quem gosta de narrativas históricas…Apesar das limitações, esta narrativa tem uma base credível de factos entremeados com ficção, por forma a conseguir um retrato verossímil do que foi a vida de Pedro Álvares Cabral”.

Pedro Álvares Cabral, templário português: prejuízos de sua viagem ao Brasil levaram o rei D. Manuel a desvalorizá-lo | Foto: Reprodução

O livro se insere, pois, no subgênero dos contos, novelas e romances históricos portugueses, o que, longe de depreciá-lo, o torna parte do que é, para um sem-número de leitores (e aí me incluo), o que há de melhor na rica literatura lusa. Segue a linha do que já se consagrou nas letras portuguesas com Alexandre Herculano (1810-1877), Luís Augusto Rebelo da Silva (1822-1871), Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931), Júlio Dantas (1876-1962), ou ainda Eça de Queirós (1845-1900), Almeida Garret (1799-1854) e Antero de Figueiredo (1866-1953).

O texto de João Morgado sobre Cabral e sua viagem ao Brasil, já por si cativante para os portugueses por focar parte importante dos descobrimentos e para os brasileiros por razões óbvias, ainda prende mais por levantar questões pouco reveladas, que ele busca aclarar, tanto quanto lhe permitem os registros da época e algumas deduções pertinentes por parte do autor. Um exemplo é sua dedução sobre a personalidade física e moral de Pedro Álvares Cabral, cujo afastamento da Corte após sua viagem acabou por lançá-lo na penumbra histórica.

João Morgado: “navegando” no seu livro, os leitores poderão fazer seus próprios descobrimentos | Foto: Livraria Bertrand

Outro exemplo é a especulação sobre as verdadeiras razões da chegada de Cabral até a costa brasileira, algo um tanto inusitado, mesmo para a época. O destino de Cabral eram as Índias. Por que tanto afastamento para oeste? As explicações de Morgado são razoáveis. Os descobrimentos tinham duas finalidades, até certo ponto antagônicas, uma se sobrepondo a outra conforme a cobiça ou a religiosidade do monarca português reinante: as especiarias e a evangelização de novos povos. A ordem dos Cavaleiros de Cristo, remanescentes dos Templários, e de enorme importância em Portugal (eram templários o Infante D. Henrique e o próprio Pedro Álvares Cabral, entre outros) se preocupava imenso com o fim religioso dos descobrimentos, enquanto a D. Manuel interessavam as riquezas advindas das Índias. Mas Cabral, seguindo a orientação templária e de posse de uma rota já conhecida para o Brasil (a rota de Duarte Pacheco Pereira, de 1498) teria aportado aqui não por acaso. Esse prolongamento de viagem, à revelia do soberano português, teria ocasionado atrasos e prejuízos. Esse fato, somado a outro — a inimizade que Vasco da Gama, amigo do rei, devotava a Cabral — seria a explicação da indisposição de D. Manuel com Cabral, que não mais receberia missões de importância da Coroa Portuguesa. E, em que pese o tempo passado e a dificuldade das fontes de consulta, alguns fatos ficam bem aclarados, como a morte de Pero Vaz de Caminha, figura tão grata aos portugueses, e mais ainda, aos brasileiros.

E mais não digo, para não tirar do leitor brasileiro o prazer de, navegando no admirável livro de João Morgado, fazer também seus descobrimentos.

9 respostas para “Livro mostra que Cabral, seguindo orientação templária, não descobriu o Brasil por acaso”

  1. Avatar Salatiel Correia disse:

    A oportuna análise do articulista Irapuan Costa Júnior a respeito do livro do escritor João Morgado ,lança um novo olhar sobre a figura histórica de Pedro Álvares Cabral.
    A Penumbra histórica ocorrida com Cabral após idescobrimento ,aliado a chegada nada casual do descobridor do Brasil a costa brasileira são hipóteses que,se comprovadas, trazem uma nova explicação sobre o descobrimento do país.

  2. Avatar Baron Camilo of Fulwood disse:

    Primeiro lugar obrigado ao Cronista Governador Irapuan Costa Junior, pela lembrança de minha pessoa. Segundo lugar parabéns pela bela crônica sobre este grande escritor que é Joao Morgardo. Bravo.

  3. Avatar Maria Teresa F. Garrido Santos disse:

    As apreciações de Irapuan sobre o “Vera Cruz” realmente aliciam leitores para essa obra do festejado escritor lusitano João Morgado. A navegação em suas águas é promissora de inesperadas descobertas.

  4. Avatar IRAPUAN COSTA JUNIOR disse:

    Corrija-se: a rota de Duarte Pacheco é de 1498, e não de 1948, evidentemente.

  5. Avatar Carlos Abrahão Gebrim disse:

    “DIVULGANDO” AQUI no Brasil.👍😁

  6. Avatar Carlos Abrahão Gebrim disse:

    DEZ !!! divulgando/’repassando’ aqui no Brasil. 👍😁

  7. Avatar Carlos Abrahão Gebrim disse:

    CARTA RESPOSTA AO AMIGO GEBRIM
    Livro sobre descobrimento do Brasil
    (Para mim o Brasil não foi descoberto, foi
    encontrado)
    Faz algum tempo que li um comentário resumido
    deste livro, pelo jornalista português, Leonidio Paulo
    Ferreira (um dos melhores da Europa). Foi muito
    oportuno o Irapuan, trazer à baila, este assunto
    deveras interessante, com uma clareza
    impressionante, que lhe é peculiar.
    Sugiro que você leia no jornal de Notícias (JN) de
    Lisboa (de hoje 16/01/22), artigo do Leonidio, sobre o
    grande cientista Richard Feynman foi um dos mais
    brilhantes cientistas do século XX, vencedor do Nobel
    da Física em 1965. Precoce no brilhantismo que aos
    25 anos integrou o Projeto Manhattan, para
    construção da bomba atómica, ao lado de figuras
    como o americano Robert Oppenheimer, o italiano
    Enrico Fermi ou o dinamarquês Niels Bohr. Site:
    https://www.dn.pt/edicao-do-dia/16-jan-2022/brincar￾com-a-ciencia-so-o-sr-feynman-14495686.html
    Orivaldo Jorge de Araújo (e Carlos Abrahão Gebrim).

  8. Avatar Julio Cesar Barbosa dos Santos disse:

    Seria, não só oportuno, como imprescindível, tal monta editado em terra brasilis. Pois, apesar de termos um número considerável de estudos sobre o assunto “Descobrimento do Brasil”, poucos enveredar no caminho místico templário na qual o livro faz seu viés. Dessa maneira, poucos brasileiros tem alcançado a história e os fatos que fizeram alguns dos Cavaleiros de Cristo ter encontrados em terras lusitanas, com conhecimentos náuticos, herdados de escritos seculares. Portanto, torna-se até necessário para a Historiografia brasileira, que tal assunto venha a baila e seja, não só estudado, como discutido.

  9. Avatar Julio Cesar Barbosa dos Santos disse:

    Seria, não só oportuno, como imprescindível, tal monta editado em terra brasilis. Pois, apesar de termos um número considerável de estudos sobre o assunto “Descobrimento do Brasil”, poucos percorrem o caminho místico templário na qual o livro faz seu viés. Dessa maneira, poucos brasileiros tem alcançado a história e os fatos que fizeram alguns dos Cavaleiros de Cristo ter encontrados em terras lusitanas, com conhecimentos náuticos, herdados de escritos seculares. Portanto, torna-se até necessário para a Historiografia brasileira, que tal assunto venha a baila e seja, não só estudado, como discutido.

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