Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Gramsci e a hegemonia esquerdista no Brasil

Intelectuais orgânicos estão por todo lado. Cultura tradicional está sob censura, no que diz respeito à composição familiar, prática religiosa, cultura artística, educação infantil

No ano de 2013, convidado pela Associação dos Diplomados pela Escola Superior de Guerra (Adesg), proferi uma palestra sobre o filósofo comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1937 — viveu 46 anos) e sua influência na política brasileira recente. Resumo da conferência para os leitores do Jornal Opção:

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Antonio Gramsci era o que se podia chamar de “estrategista do mal”, pois sua concepção de tomada do poder pelo partido comunista, chamada concepção hegemonista, era muito mais lúcida do que a concepção de Karl Marx, chamada “economicista”, e do que a concepção do russo Vladimir Lênin, chamada “mecanicista”. Gramsci era, no meu entender, o maior filósofo comunista até então, pois mostrara mais acertos do que Marx, Engels e Lênin ao formular uma teoria viável para o comunismo chegar ao poder.

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Enquanto Marx afirmava que o comunismo ascenderia pela crise do capitalismo, com patrões cada vez mais ricos e operários cada vez mais pobres, até uma revolta proletária, e Lênin acreditava na tomada do poder pelas armas, coisas que não aconteceriam, Gramsci afirmava que a chegada ao poder teria que se dar por uma mudança profunda na cultura social, colocando em jogo as crenças e tradições existentes nas sociedades democráticas (capitalistas, dizia ele), desestabilizando essas sociedades, de modo a introduzir nelas uma nova cultura, ditada pelo partido comunista, permitindo que ele passasse a ser, pela opinião dominante (hegemonia) o novo dirigente social (novo bloco histórico), no lugar do governo burguês (antigo bloco histórico), com uma sociedade civil já conformada, agora dominada pela crença partidária comunista.

Antonio Gramsci: filósofo italiano | Foto: Reprodução

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Gramsci analisava que a tomada de poder dar-se-ia em três fases, uma econômico-corporativa, em que o partido comunista, travestido de democrático faria alianças com outros partidos e ocuparia os postos que pudesse em todas as esferas da sociedade (legislativo, judiciário, executivo, sindicatos, igreja, meio acadêmico, meio artístico, imprensa e etc.). Seguir-se-ia a fase hegemônica, em que deveria existir um intenso trabalho de doutrinação, usando os postos ocupados, para modificar moral e culturalmente a sociedade, desagregando a crença burguesa, fazendo que novos comportamentos e nova maneira de existir acabassem aceitos pela sociedade, de tal modo que, na terceira fase, a fase estatal, se desse uma tomada de poder pelo partido sem maiores reações dessa mesma sociedade.

Gramsci não falou do exercício do poder, uma vez conquistado, e tendo lançado no papel suas ideias nas décadas de 1920 e 1930, não poderia prever o fracasso econômico e político do comunismo, que de certa forma esteve presente em mais de quarenta países e em nenhum só conseguiu o sucesso prometido por seus profetas. Foi escorraçado em todos os lugares onde a sociedade se sentiu forte o bastante para expulsá-lo. Persiste numa Cuba miserável, numa Venezuela destroçada, numa Coreia do Norte faminta, no Vietnã e no Laos estagnados e numa China com economia inteiramente capitalista, embora politicamente seja comunista, e com mão de ferro.

O Brasil teve a infelicidade de ser um dos países onde os ensinamentos de Gramsci chegaram em primeiro lugar.

Suas obras foram traduzidas por intelectuais comunistas no exílio e publicadas no Brasil já em 1966, em pleno regime militar, pelo editor comunista Ênio Silveira (Editora Civilização Brasileira). Logo se difundiram pelos intelectuais clássicos da esquerda brasileira, que aqui permaneciam, ou que, exilados, voltariam na década de 1970.

Como o regime militar brasileiro foi brando, o avanço das esquerdas, principalmente na mídia, nas universidades e na Igreja Católica, se deu já nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Na década de 1990, com a coordenação do Foro de São Paulo e o governo Fernando Henrique, e na década seguinte, com os governos petistas, a ocupação se estendeu ao legislativo, ao executivo e ao judiciário, inclusive aos tribunais superiores.

Em 2013, quando proferida a palestra, na época do governo Dilma Rousseff, fui inquirido em que fase estávamos, no cronograma gramsciano. Disse que os comunistas (ou socialistas, seu eufemismo para se livrar do estigma stalinista) haviam chegado ao governo, mas não ao poder, mas que sem dúvida haviam superado a primeira fase e já estávamos em plena fase da hegemonia. Comprovava essa afirmação a penetração esquerdista na imprensa, na universidade e em outros setores da sociedade, onde os efeitos das ações gramcistas se faziam sentir cada vez mais perturbadoras.

Tudo aquilo que se acreditava ser bom, belo e verdadeiro em nossa sociedade tradicional estava sob ataque. A marginalidade seria considerada vítima da sociedade. O aparato policial, truculento e servidor das elites. A infância, sexualizada e confundida. A juventude inimputável, mesmo que cometesse os piores crimes. O encarceramento deveria ser minimizado e bandidos libertados. A religião, distorcida e ridicularizada, quando não pudesse ser ideologizada. A família tradicional, para os seguidores de Gramsci, teria que desaparecer.

Um deputado do PC do B chegou a propor projeto de lei considerando família qualquer associação de pessoas, inclusive as incestuosas. Pregava-se a liberação total das drogas, e a licenciosidade e pornografia nos espetáculos dito artísticos. A desobediência aos pais se institucionalizava, e as correções paterna e materna dos filhos eram todas criminalizadas. A educação dos filhos passava a ser responsabilidade do estado e sua instrução passava a ser predominantemente ideológica, não profissional, mormente nas faculdades. Em particular, como reflexo dessas ações, a Educação brasileira despencava, nos três níveis de ensino, o que teria reflexos graves no futuro. Como a sociedade brasileira na média era conservadora, eu previa (em 2013) que teríamos num horizonte não muito distante, embates sérios no campo político, não descartando incidentes mais graves. Estes felizmente não ocorreram, mas ocorreu uma reação social que elegeu um governo conservador, contra toda expectativa da esquerda, que já se julgava tocando o poder. E a esquerda ainda não absorveu essa derrota, tentou uma impugnação eleitoral não sucedida e utiliza a desinformação, uma das ferramentas mais poderosas de que dispõe, para contestá-la. Sem falar numa tentativa de assassinato do candidato conservador, na reta final de campanha, até hoje não perfeitamente esclarecida.

O aparelhamento da imprensa, da universidade, do meio artístico e até de franjas do judiciário tem funcionado como obstáculo para o governo no campo da ação e da opinião. As esquerdas só não conseguem uma desestabilidade do executivo por ter exagerado na dose, ocasionando uma percepção social de que fazem oposição a todo custo, inclusive no campo internacional. Mas os partidos de base marxista se apoiam no judiciário, de modo a criar embaraços na ação de governo, numa tentativa de engessar suas ações. Em exemplos recentes, o Presidente foi impedido de exercer ações de controle da pandemia do coronavírus, que por decisão judicial foram transferidas para estados e municípios, não pode exercer sua atribuição constitucional de nomear um auxiliar na Polícia Federal e se viu obrigado, na nomeação de reitor para universidade federal em lista tríplice, a escolher o primeiro colocado, como se a lista fosse uninominal.

Os “intelectuais orgânicos” de que fala Gramsci (qualquer ignorante, mas capaz de um pensamento ou ação que contribua para modificar a sociedade no sentido desejado pelas esquerdas) pululam por todo lado. Toda cultura tradicional está sob censura, seja no que diz respeito à composição familiar, seja na prática religiosa, seja na cultura artística, seja na educação infantil (onde já se quer até propor o ensino de práticas sexuais não ortodoxas) ou na educação universitária. Corrigir essas distorções vai demandar paciência e um enorme trabalho de reversão da deterioração educacional praticada nos últimos trinta anos. Chegaremos um dia à terceira fase gramsciana, a da tomada do poder total, como na Venezuela? Esperamos que não. Lutemos para que não.

Uma resposta para “Gramsci e a hegemonia esquerdista no Brasil”

  1. ELEDIR ARAUJO FERNANDES disse:

    Excelente narrativa, muito esclarecedora e de fácil entendimento. nota 10

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