Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Criador do Sarah Kubitschek colocou medicina e paciente acima de questiúnculas político-corporativistas

Criador do Sarah Kubitschek colocou medicina e paciente acima de questiúnculas político-corporativistas

Aloysio Campos da Paz: o médico que revolucionou a ortopedia de qualidade no Brasil e que servia a toda a sociedade, do pobre ao rico

Aloysio Campos da Paz: o médico que revolucionou a ortopedia de qualidade no Brasil e que servia a toda a sociedade, do pobre ao rico

Conheci o médico Aloysio Campos da Paz Júnior, em 1983. Criador da rede de hospitais ortopédicos Sarah Kubistchek, Aloysio faleceu na semana passada, em Brasília.
Foi-me apresentado por um amigo de infância, o arquiteto Hamilton Carramaschi, de quem era também amigo desde 1968, quando Aloysio se estabeleceu em definitivo no Distrito Federal, vindo de seus estudos médicos na Inglaterra. Aloysio foi uma sacerdotal unanimidade. Ninguém negou sua extraordinária capacidade profissional e administrativa, sua honestidade nem sua exclusiva devoção à saúde pública.

Teria feito invejável fortuna, se tivesse fundado uma clínica ortopédica particular, em vez de dedicar sua existência aos hospitais Sarah Ku­bistchek. Como teria sido o mais re­vo­lucionário e competente ministro da Saúde, se não fosse aquilo que não agradava os presidentes que po­deriam tê-lo convidado, de Collor a Dilma: ser honesto, apartidário, com total domínio do setor, e que dificilmente aceitaria submeter a saúde pública aos caprichos da política.
Para sorte de todo o enorme contingente de pacientes atendidos nos hospitais da rede Sarah, Aloysio se impregnou do que viu em medicina socializada na Inglaterra. Voltou com uma disposição: a de implantar no Brasil hospital ou hospitais que atendessem nos padrões britânicos, ao menos na sua especialidade, a ortopedia. Determinado, acabou por consegui-lo.

Como eu era deputado federal, Aloysio pediu a Carramashi que me apresentasse a ele. Queria mostrar-me o hospital de Brasília (era então o único em funcionamento) e pedir meu empenho para que a verba do orçamento federal que lhe era destinada não fosse cortada, como se tentava fazer, ano após ano. Visitei o Sarah, e fiquei impressionado com o alto padrão profissional que ali imperava. Visitei-o muitas vezes mais, pois nos tornamos amigos, e procurei auxiliá-lo na sua eterna luta para manter as verbas do Sarah, muitas vezes desviadas para atividades menos nobres e até suspeitas, por obra e graça de parlamentares menos conscientes.

Aloysio era um abnegado. A despeito desses tropeços, dava-se bem com políticos de todos os matizes, pois não só colocava a qualidade do atendimento no Sarah acima de qualquer coisa, como era também uma figura educadíssima, de família tradicional, a quem a passagem pelo Reino Unido conferira uma dose extra de cavalheirismo. Aloysio era um lorde.

Um dos atributos do hospital era o da igualdade no tratamento dos pacientes. A ele não interessava classe, cor ou posses de quem era internado. O tratamento, gratuito, era absolutamente igual para a alta autoridade do governo que havia batido com seu Mercedes-Benz e para o peão de fazenda caído do cavalo. Eu sabia disso e fui testemunha.

Certa feita fiz uma dupla visita e encontrei em apartamentos quase vizinhos meu amigo Roberto Cardoso Alves, deputado e ministro da Indústria e Comércio, e um operário de obra cujo internamento eu havia obtido, a pedido de sua família. Obtido em termos, pois os acidentados que buscavam o Sarah eram triados e atendidos ou internados dentro do mais rigoroso critério de urgência.

O que era um hospital de atendimento local criado em 1960 pelo presidente Juscelino Kubistchek, Aloysio conseguiu que o presidente Ernesto Geisel transformasse em fundação com a construção imediata de um grande hospital regional, centro de estudos e faculdade própria.

O hospital em Brasília foi inaugurado em 1980. Hoje existem outros em funcionamento no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, São Luís, Macapá e Belém.

O paciente, a par do atendimento médico excelente, tem atendimento psicológico e lazer. Como os aparelhos usados da reabilitação são complexos, e estão em evolução pelos estudos do próprio hospital, que Aloysio sempre considerou também um laboratório de experiências médicas, funcionava, quando eu o visitei pela última vez, em 1994, uma complexa oficina, quase uma fábrica metalúrgica, em um anexo, em Brasília. Chefiava-a um espanhol que Aloysio havia conhecido na Europa, e cujo talento o havia impressionado. Aloysio o havia convencido, embora já maduro, a uma mudança radical, deixando em definitivo para trás sua Andaluzia para ser útil aos brasileiros em nossa capital.

A inovação no tratar o paciente, quebrando muitas vezes paradigmas sacramentados (como o da internação e tratamento isolado da família), também é uma marca que Aloysio e sua equipe imprimiram na Ortopedia e na Medicina. Aloysio deixou vários livros publicados: “Tratando Doen­tes e não Doenças”, “Remando Con­tra a Maré”, “Percorrendo Memó­rias” e ainda, em coautoria com Lúcia Willadino Braga, de quem voltaremos daqui a pouco a falar, “Método Sarah de Reabilitação Baseada na Família”.

Aloysio tinha em preparação — mostrou-me parte — um livro bilíngue de Ortopedia, que sempre atualizava, baseado nas observações do Sarah, e que pretendia lançar simultaneamente no Brasil e na Inglaterra. Era um verdadeiro trabalho de Penélope, sempre em atualização. Acredito que não o tenha terminado.

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