Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Como chegamos a Criciúma

O caldo de cultura do crime é a impunidade. Justamente o nosso caso

Todos nós tivemos conhecimento do assalto à cidade catarinense de Criciúma por uma força armada montada por uma das mais expressivas facções criminosas organizadas no País. O que não se fez, e parece não ser interesse da “grande imprensa”, foi mostrar a seriedade do acontecido e expressar a devida indignação com isso. A indignação é muito maior quando se trata de um acontecimento de menor importância, mas que ofende o “politicamente correto”, como a nomeação do titular de um cargo na cultura que não atenda à pauta “progressista”, por exemplo, o que costuma até render manifestos pomposos de artistas, intelectuais e ditos que tais, mostrados com espalhafato pela mídia. Espalhafato que também não vimos no noticiar o ataque à população paulistana promovido por traficantes e viciados da cracolândia, nesta última semana. Respeitando democraticamente a opinião do “establishment”, e até compreendendo suas razões, embora reconhecendo que são mais utópicas do que práticas, façamos algumas considerações:

O filósofo Herbert Spencer no estudo da evolução dos entes de qualquer natureza, seja algo simples como um bloco de pedra, seja complexo como um organismo vivo superior ou um agregado social, estabeleceu alguns princípios para essa evolução, isto é, entre seu surgimento e o início de sua desagregação. Spencer mostra que a evolução nessa trajetória é um processo de passagem do homogêneo, indefinido e incoerente para o heterogêneo, definido e coerente. Chegou mesmo a produzir um brilhante ensaio com o título de “O Progresso, Suas Leis e Sua Causa”, mostrando que o progresso humano se deve a uma passagem gradual de um estado homogêneo para um cada vez mais heterogêneo nas funções desempenhadas pelo homem. Um exemplo simples: a produção econômica, nos primórdios da civilização consistia na caça e na colheita silvestre. Todos os homens de um agrupamento social eram caçadores e colhedores de frutos ou raízes, numa homogeneidade total de atividade econômica. Com o tempo surgiram as plantações e colheitas, a cria de animais para consumo, a divisão das funções artesanais. Hoje temos a produção extrativa, o agronegócio, as indústrias, os serviços, a administração pública, cada um dos quais com uma miríade de subatividades distintas, numa total heterogeneidade do trabalho, mas tudo definido e interligado, isto é, coerente. Todo esse falatório, leitor, é para dizer onde e como chegamos, com o crime organizado. Como evoluiu e progrediu (e só poderia ser no mau sentido) o crime por aqui.

Os mais velhos vivemos uma época em que as transgressões nas pequenas comunidades eram algo esparso e mesmo raro. E nas grandes comunidades, que apenas existiam nas regiões mais próximas à costa, como no Rio de Janeiro, São Paulo e nas cidades nordestinas maiores, e na primeira metade do século passado, consistiam principalmente nos “descuidismos”, dos batedores de carteira e ladrõezinhos furtivos. Quando muito, nos golpes conhecidos como malandragens, contos do vigário e no jogo do bicho. A classe marginal era homogênea e indefinida, não se ligava, não tinha lideranças. Era quase inofensiva para a sociedade como um todo. A única exceção, limitada em tempo, número e local, foi o cangaço nordestino. A evolução se deu mais ou menos rapidamente. A marginalidade na segunda metade do século XX (falamos apenas do Brasil) foi se tornando mais heterogênea. Aos pontos de jogo do bicho se somaram as “bocas de fumo” da maconha e pontos de venda de LSD e depois cocaína e ecstasy. O comércio de drogas foi se tornando mais complexo, surgiram os importadores, os transportadores e os distribuidores, a princípio desconectados, mas depois coerentes entre si. Passaram a ter liderança, recrutamento, contabilidade, capital de giro. Vieram a seguir, tornando mais complexa a atividade, a lavagem de dinheiro e as ramificações internacionais, primeiro com os produtores (Colômbia, Paraguai e Bolívia) depois com os receptores (Itália, Espanha e EUA). Os subprodutos apareceram, os pequenos viciados passaram a roubar celulares a praticar “saídas de bancos” e os grupos regionais, na busca de capital de giro, a assaltar bancos e carros fortes. As organizações foram se sofisticando, e naturalmente, duas delas passaram a dominar os grandes centros, Rio de Janeiro (Comando Vermelho) e São Paulo (Primeiro Comando da Capital). Uma sofisticada logística surgiu para a importação de armamento e munição. O passo seguinte foi mais ousado ainda: o domínio territorial (nas favelas cariocas) e presidiário, com judiciário, legislativo e executivo próprios. Veja o leitor o nível de sofisticação do crime organizado no Brasil: nem as mais ricas organizações criminosas do mundo chegaram, em país civilizado, a essa ousadia de ocupar e institucionalizar territórios. A Máfia Italiana permanece nas sombras, o mesmo acontecendo com seu ramo estadunidense. A Iakuza japonesa, da mesma forma, não desafia abertamente o Estado institucionalizado. A máfia russa, composta principalmente de egressos da KGB, do Partido Comunista da (antiga) União Soviética e do Exército Vermelho, contentou-se em se apossar da melhor parte das empresas públicas e se abstém de desafiar as instituições russas. Que evolução, a do crime organizado brasileiro! E há tempos, organicamente, aumentando a heterogeneidade, surgiu o crime organizado contra o patrimônio público, só possível dentro de um conluio ou pelo menos a aquiescência e omissão dos três poderes. Não fosse a coragem de um único juiz e uma mudança de ideologia no Governo Central, seria hoje bem pior.

Essa evolução, como em qualquer fenômeno da natureza, só ocorre se as condições externas forem muito favoráveis, e não existirem forças que a coíbam. O caldo de cultura do crime é a impunidade. Justamente o nosso caso. O crime organizado se coíbe com uma força policial determinada e preparada, um sistema judicial severo e implacável e um aparato prisional enérgico e impermeável a influências externas. Nossa polícia é desmotivada e desequipada, o sistema judicial falho e obsoleto, mais voltado para o agressor do que para a vítima ou para a sociedade (e algumas vezes conivente), e o prisional frouxo e com enorme intercomunicação com o crime organizado fora dele. E temos três décadas de “politicamente correto” incentivando a evolução de que falamos.

Essa evolução do crime em tal proporção vem, pois, de pouco tempo. Três décadas, coincidindo com a pauta “progressista” da esquerda no Governo Central. Tenho amigos na esquerda, embora já não discuta essas questões com eles. O “progressismo” não aceita fatos, por mais óbvios, se contrariam sua doutrina, até bem intencionada, mas irreal, de igualdade e fraternidade. 

Reflitamos, leitor, voltando a Criciúma: A cidade foi tomada por uma força expressiva, em se tratando de uma ação criminosa: pelo menos três dezenas de bandidos, preparados e disciplinados, uma dezena de carros blindados, armas as mais pesadas e modernas, explosivos, coletes à prova de balas. O planejamento foi perfeito e deve ter sido minuciosamente estudado: polícia neutralizada, carros incendiados obstruindo vias de acesso ao local do roubo, reféns tomados e exibidos, localização precisa do dinheiro a ser roubado, rota de fuga perfeitamente traçada, alternativas de evasão por via terrestre e fluvial, tempos sincronizados entre as ações dos grupos ativos. Resultado esperado atingido, com elevada quantia levada, sem perdas de soldados do crime. Todos esses preparativos são caros e exigentes em termos de inteligência. Lembrou-me uma blitzkrieg nazista. Sem indignação, com uma imprensa quase calada. Em alguns casos, pior que calada. Dois jornalistas de esquerda, em uma rádio da capital gaúcha, chegaram a elogiar os bandidos pela organização. E quanto ao policial ferido no assalto, hoje entre a vida e a morte, nem uma palavra desses “progressistas”.

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