Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Casamento por amor

Casamento, 1968. Marysia Portinari (Brasil, 1937)

Casamento, 1968. Marysia Portinari (Brasil, 1937)

— Que xodó, o de sua prima com o marido, depois de tantos anos casados – comentei com Silvio, meu vizinho de fazenda.

— Combinam muito, mas se você soubesse como começou esse casamento… – respondeu ele, com um risinho de canto de boca.

Voltávamos da casa do Edson e da Rita, prima do Silvio. Sabendo que eu estava comprando uns bezerros para recria, ele se ofereceu para ir comigo à casa da prima, ali mesmo no município de Ivolândia, ver os animais que o marido estava, por coincidência, vendendo. Encontrei um casal simpático: ela, uma mocetona bonita, quase nos trinta anos, dessas que encontramos muitas vezes pelo interior de Goiás, e nos enfeitam os olhos: apesar de poucos cuidados com a beleza, vendem saúde, exibem um rosto de traços perfeitos e um corpo de curvas muito harmoniosas, melhores mesmo que as conquistadas em várias horas diárias nas academias de ginástica. E educada, risonha, cuidadosa com os filhos, uma bonita garotinha de uns 10 anos, envolvida naquela hora com seus cadernos de escola, e dois irmãos menores. Ele, perto dos quarenta, conversa fácil e riso solto, procurando ser agradável com a visita e possível comprador.

— Faz um cafezinho, meu bem, enquanto apartamos os bezerros – disse, quando saíamos para o curral.

— É pra já, meu amor – foi a resposta.

Negócio fechado, dispensado o convite para o almoço, o casal nos acompanhou até a camionete, ela dependurada no braço do marido, a quem prodigalizava carinhos. Foi já no carro que fiz o comentário, respondido por Silvio com aquela ponta de ironia.

— Não faz mistério, Silvio, conta logo – pediu minha curiosidade, já se levantando espicaçada.

— Vou contar.

E contou, imitando a linguagem cabocla do tio capiau, ele que se orgulha de seu português e do diploma de advogado na parede do escritório em Iporá:

— Foi há uns 10 ou 12 anos. O Edson, que tinha uns 20 e poucos anos, e é filho único, perdeu pai e mãe num desastre de carro na estrada para Goiânia. Herdou essa fazenda, toda formadinha em boas pastagens, curralama pronta, muita água, um brinco. E cheia de gado nelore. Ainda por cima herdou um posto de gasolina em Iporá, com boa freguesia. Pensou que estava rico pro resto da vida, largou a faculdade em Goiânia e ficou por aqui, na região, pelas festas, pelas exposições pecuárias, bebendo suas pingas e só na boa vida. Namoradas muitas, bem-apessoado que era e é, como você viu.

A fazenda vizinha à dele era de meu tio Isac, falecido no ano passado e que tinha dois filhos: a Ritinha, que você conheceu, e o Zé Afonso, mais velho, que hoje cuida da fazenda, moço trabalhador e que nunca deu desgosto aos pais. A Ritinha tinha na época uns 18 anos e era a coisa mais bonita que você pode imaginar. Se levada para São Paulo e tomado um banho de loja e outro de salão de beleza, podia desbancar muita modelo que hoje desfila em passarela internacional. Iluminava qualquer lugar em que chegasse. Além disso, era inteligente, estudiosa, apegada aos pais.

O Edson começou a arrastar a asa para ela e iniciaram um namorico. Bom de conversa ele era, mas não sei como, ela que até não era boba, foi além da conta nalgum encontro em beira de córrego e, tempos depois, comunicou a ele que tinha uns dois meses que o “chico” não vinha. Desconfiava que estava prenhe. O que fazer? Edson não pensou duas vezes. Não ia perder a boa vida que tinha. Des­con­versou e sumiu da região. Transferiu suas festanças para Goiânia, e só aparecia na fazenda para algum acerto rápido com o gerente. Até a Iporá passou a ir pouco.

Mas foi numa dessas idas rápidas à fazenda que aconteceu. Por alguma arte ou treta, o Isac ficou sabendo da ida. Ou estava à espreita. O fato é que, na volta, ao chegar no mata-burros da divisa, Edson encontrou um tronco atravessado na estrada. Desceu do carro para tirá-lo, e foi quando saíram da mata, qual três assombrações: na frente a Ritinha, já redondinha de uma gravidez de uns seis meses; depois o irmão, Zé Afonso, em cuja cintura brilhava um chimite 32 niquelado, cabo de madrepérola; e atrás, o pai, o velho Isac, com um facão desembainhado na mão.
Foi um Edson paralisado de medo que respondeu com um gaguejo o cumprimento do Isac:

— Antão pois, seu Édio. Como vai vosmicê, qui anda sumido dessas banda?

Ignorando a resposta tartamudeada, o velho prosseguiu, en­quanto ninguém mais dava um pio:

— É bão nóis topá todo mundo arreunido. Tem uma trama de famía pra nóis resumí. E inté qui num tá dificir não. Cum duas cunversa nóis arresume: antão seu Édio, aqui a Ritinha, minha fia, feiz procê uma vontade e agora tá buchuda, cuma ocê tá veno. Ô tá ruim das vista e num tá veno?

E desconhecendo o gaguejo afirmativo de um Edson com os cabelos em pé:

— Pra mode qui nóis só arresume esse assunto si nóis ingualá. A Ritinha feiz a vontade de vosmicê. Agora vosmicê vai fazê a vontade aqui do pai dela. Mais pode si quizé tomém fazê a vontade ali do irmão dela. Mêma coisa. Ocê qui sabe. Ocê inscói i nós arrespeita sua inscôia. Pra mode ocê inscoiê, vou falá as vontade: a minha é vê ocês casado, e ocê tratano bem minha fia; a vontade do Zé Afonso aqui, meu fio, irmão dela, é dá seis tiro na sua cara agorinha mêmo. O revórve ele trôxe ele azeitadim pra torá o pé dos seis cartucho sem mascá ninhum. Ocê qui arresorve. Uma das vontade nóis tem qui sastifazê.

Um pé de vento com redemoinho veio deixar o Edson ainda mais apavorado, lembrando o capeta que falam vir dentro dele.

Ele já tinha feito a escolha; só que estava mudo. Nem gaguejar mais conseguia. Seu olhar saltava dos olhos injetados de sangue do Zé Afonso para o revólver na sua cintura, e daí para o facão na mão do Isac ou, num vislumbre, para a fisionomia da Ritinha, que parecia estranhamente calma. Sexto sentido feminino?

— Nóis tá cum pressa, seu Édio. O qui vosmicê arresorve? – finalizou o Isac.

— O se-senhor po-pode marcar o casamento, Se-seu Isac – foi tudo que o Edson conseguiu soletrar, antes que fosse tarde.

— Já tá marcado. É agora mêmo. Nóis vai alí no padre Quirino acabá cum essa trama – foi a pronta resposta do Isac.

Essa a história, suspirou o Silvio. Hoje estão aí, casados, vivem bem, três filhos que o velho Isac adorava, e o Zé Afonso é sócio do Edson nesse gado que você comprou, e em outros.

Só pude arrematar: — É, Deus escreve mesmo certo por linhas tortas.

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