Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A barbárie da especialização: Ortega y Gasset ilumina o Brasil atual

Cientistas brasileiros, espalhados por universidades aparelhadas e congregadas numa inexpressiva SBPC, são cada vez mais homens-massa

A literatura espanhola — e falo da literatura apenas ibérica, não englobando a literatura hispano-americana — é muito vigorosa. Basta lembrar o “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. E ela é ampla. Para confirmar, estão aí os cinco Nobel de Literatura conferidos aos espanhóis (Jose Echegaray, 1904; Jacinto Benavente, 1922; Juan Ramón Jimenez, 1956; Vicente Aleixandre, 1977; e Camilo José Cela, 1989. Há quem acredite que o próximo será Javier Mariás, autor de “Berta Isla”).

Contudo, o livro de autor espanhol mais vendido em todo o mundo, só atrás do “Quixote”, é um livro de filosofia, de José Ortega y Gasset (1883-1955). Seu título: “A Rebelião das Massas” (Martins Fontes, 312 páginas).

Espanta mais saber que nem foi concebido como um livro, mas resultou da reunião de uma série de artigos escritos para o jornal madrileno “El Sol”, em 1929. Só após completa a série, foi publicado como livro. Como explicar seu sucesso, a tradução para duas dezenas de línguas, sua leitura pelo mundo todo? A clareza de sua análise sociológica de um lugar e uma época (a Europa no final dos anos 1920) responde à pergunta.

Os artigos foram escritos na época da implantação do comunismo na União Soviética (1917) e do fascismo na Itália (1922). Era também a época da ascensão do nazismo na Alemanha.

Ortega y Gasset externa sua preocupação com um fenômeno surgido em fins do século 19 e então (nos anos 1920) em plena explosão: o protagonismo do que ele denomina homem-massa: o personagem presente em todas as classes sociais que é absolutamente medíocre, ciente e conformado com sua mediocridade, exigente de seus direitos, ausente de seus deveres e ignorante do enorme esforço de gerações anteriores para elevar o nível de sua existência. O homem-massa não se esforça, não compete, não ambiciona. Está satisfeito em ser como toda gente. Aceita a tutela do governo sobre todos os aspectos de sua existência.

Não obstante, não aceita que as minorias que se esforçam, que estudam, que aprendem e são por isso mesmo aptas a apontar os rumos de seu grupo social apontem para ele esse rumo. O homem-massa desfruta da civilização como se ela fosse tão natural quanto o ar que se respira, ou a chuva que cai. Seu protagonismo representa, para a Europa, na melhor das hipóteses, um atraso na civilização.

Ortega y Gasset: um dos mais importantes filósofos da Espanha no século 20 | Foto: Reprodução

“A Rebelião das Massas” é um livro europeu, estuda um fenômeno da primeira metade do século passado, que redundou em Ióssif Stálin, Benito Mussolini e Adolf Hitler, mas nem por isso é um livro deslocado e ultrapassado. É mundial e atual. É um trabalho intelectual que comporta muitas análises. O leitor que se dispuser a lê-lo vai se iluminar.

A barbárie do especialismo

Hoje vamos comentar um dos capítulos do livro, o de número XII, que leva justamente o do título deste artigo: a barbárie do especialismo, ou da especialização. Explica muito do que passamos no Brasil e no momento.

O homem-massa está presente em todas as classes sociais, é maioria em todas. Tomemos a classe científica.

Até o século 18, o cientista era um ser enciclopédico. Forçosamente, deveria ter uma vasta cultura. À medida em que a ciência se aliou à técnica, e com o apoio do capitalismo promoveu o avanço industrial e o conforto do homem, tal característica do cientista passou a se modificar. O avanço da ciência exigiu um novo tipo de cientista: o especialista. A ciência, disse Herbert Spencer, é uma esfera em constante expansão, logo sua superfície também se expande e fica cada vez mais difícil para um só homem, um só cientista, abarcá-la, compreendê-la toda. Cada cientista deve se dedicar a frações da ciência, e alguém, evidentemente mais dotado deve promover o encontro das várias especialidades, para unificá-la.

Com isso, cada cientista passa a cuidar de área particular, cada vez mais reduzida no universo da ciência. Passa a saber mais sobre menos. Mas continua a ser um cientista. Passa cada vez mais a ignorar todos os outros campos da existência humana: política, religião, economia, se não fizer um esforço de auto ilustração. E a vida é composta de todas essas partes: a vida é ciência, mas é também lazer, cultura, religião, história, economia, saúde. O especialista, que não se esforça por uma ilustração mais geral, e por ser de alguma forma autoridade em sua área, tem a petulância de se julgar também autoridade nas demais. Afinal, é um “cientista”, um ser de importância. É um prepotente nos vários outros campos do conhecimento, onde se sai mal, justamente pelo desconhecimento, mas não reconhece essa sua imensa ignorância.

Palavras de Ortega Y Gasset:

“Teremos de dizer que é um sábio-ignorante, coisa extremamente grave, pois significa que se trata de um senhor que se comportará em todas as questões que ignora não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem é um sábio em sua questão especial … A advertência não é vaga. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam, julgam e atuam hoje na política, na arte, na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os ‘homens de ciência’”.  

Verazes palavras, aplicáveis ao Brasil. Onde estão os cientistas brasileiros, na verdadeira acepção da palavra?

César Lattes; notável cientista brasileiro | Foto: Reprodução

No século 19 (na passagem para o século 20), quatro brasileiros foram importantes, no universo da ciência: Adolfo Lutz (1855-1940), Vital Brasil (1865-1950), Osvaldo Cruz (1872- 1917) e Carlos Chagas (1879-1934). Qualquer um deles sereia um sério candidato a um prêmio Nobel. Já no século passado, apenas César Lattes (1924-2005) teve um destaque internacional, e esteve perto de um Nobel. A minoria excelente, que se sobrepõe ao homem-massa, se persiste nos países mais adiantados, quase desapareceu no Brasil.

Onde está nossa ciência? Quando teremos um Nobel, que os vizinhos Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Venezuela já conquistaram?

Os cientistas brasileiros, espalhados por universidades e instituições ideologicamente aparelhadas, e congregadas numa inexpressiva Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), são cada vez mais homens-massa. Principalmente nos últimos trinta anos.

Se produzissem ciência como produzem manifestos de apoio a governos incompetentes e corruptos, sobre questões que desconhecem, talvez algo estivesse a salvo. Na maioria, opinam sobre governo, sem conhecimento de administração, economia, história e direito. São predominantemente marxistas, mas nunca leram Marx. Opinam sobre meio ambiente, sem sair das cidades.

Não fazem mal apenas a si mesmos. Espalhados pelas universidades, produziram uma geração de universitários medíocres, mal avaliados em todos os estudos comparativos internacionais. Os especialistas em doenças infecciosas provaram sua inépcia na atual pandemia: ficam perdidos quando saem de seus laboratórios. Como são “cientistas”, ditam as regras que os políticos, tão perdidos quanto eles, seguem sem discutir e sem analisar os precedentes históricos. O enciclopédico Osvaldo Cruz, no começo do século passado, sem o aparato científico hoje disponível, enfrentou com muito mais segurança e resultado a epidemia de febre amarela e de peste no Rio de Janeiro do que um batalhão de especialistas enfrenta hoje a pandemia do novo coronavírus. E não só no Brasil.

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