Uma mulher de trajetória intelectual excepcionalmente brilhante, apesar dos enormes percalços surgidos em sua existência, foi Alisa Zinovyevna Rosembaum, nascida em São Petersburgo, em 1905. É natural que o leitor não a conheça, ao menos com esse nome de nascença. Se falarmos de Ayn Rand, escritora, dramaturga e filósofa de sucesso, evidentemente tudo muda, embora se trate da mesma pessoa.

Filha de um farmacêutico judeu, Alisa tinha 12 anos à época da revolução comunista de 1917, e sua família sofreu por sua condição burguesa.

A jovem, superdotada (escreveu um romance aos 10 anos de idade), não renunciava aos estudos, mesmo na penúria, pois sua família teve os bens confiscados logo após a revolução. Fez o colégio e cursou a Universidade em São Petersburgo, onde estudou pedagogia, filosofia e história, e se formou em 1924. Fez a seguir um curso de artes cênicas em Leningrado.

“Minha filosofia, na sua essência, é o conceito do Homem como ser heroico, tendo a felicidade como o propósito moral de sua vida, a conquista produtiva como sua mais nobre atividade e a razão como seu único referencial.”

Em 1926, algo raro, ainda mais em se tratando de uma família marcada pelo governo comunista, conseguiu um visto de viagem para visitar parentes nos EUA. Deslumbrou-se com Nova York, e não voltou à Rússia.

Casou-se em 1929 com um americano, Frank O’Connor, tornou-se cidadã americana em 1931, fixando residência em Hollywood, na Califórnia.

Surge a famosa Ayn Rand

Tentou levar os pais e as duas irmãs para os EUA, mas o governo soviético não cometeu a mesma distração que cometera com ela. Nunca permitiu que emigrassem. Nesta altura, Alisa já adotara o que seria seu nome intelectual e autoral: Ayn Rand, que ficaria famoso.

Ayn Rand capa de A Nascente 500

Ayn Rand escreveu alguns roteiros e peças, mas ficou mesmo famosa por seus romances filosóficos, principalmente “A Nascente” e “A Revolta de Atlas”.

Se um homem de negócios comete um erro, ele sofre as consequências. Se um burocrata estatal comete um erro, você sofre as consequências.

Além disso, lançou as bases de um sistema filosófico, que batizou de Objetivismo, sobre o qual ela dizia:

— Minha filosofia, na sua essência, é o conceito do Homem como ser heroico, tendo a felicidade como o propósito moral de sua vida, a conquista produtiva como sua mais nobre atividade e a razão como seu único referencial.

Os fundamentos do Objetivismo podem assim serem descritos:

— A realidade é objetiva — independe da mente do observador.

— Percebemos a realidade via de nossos sentidos e daí formamos nossos conceitos.

Ayn Rand capa de A Virtude do Egoísmo500

— A intenção moral da vida é a busca da felicidade — é uma busca egoísta.

A crença da filósofa era pois contra qualquer forma de coletivismo, e negava o altruísmo, vez que o homem teria como finalidade de vida sua felicidade, para o que seria necessário ter uma liberdade somente alcançável pelo livre capitalismo. São dela as afirmativas:

— Fascismo, nazismo, comunismo e socialismo são variações superficiais de um mesmo tema monstruoso: o coletivismo.

— O capitalismo foi chamado de o sistema da ganância. Mas foi o sistema que elevou o padrão de vida de seus cidadãos mais pobres, como nenhum sistema tribal ou coletivista jamais sequer concebeu.

— Se um homem de negócios comete um erro, ele sofre as consequências. Se um burocrata estatal comete um erro, você sofre as consequências.

Ayn Rand capa de O Rtorno do Primitivo 500

— Aprenda a valorizar a si mesmo, ou seja, lute por sua felicidade.

— A criação vem antes da distribuição — ou nada haverá para distribuir.

A obra de Ayn Rand longamente sobreviveu a ela, e é até hoje, largamente presente na intelectualidade conservadora, principalmente nos EUA, sua pátria de escolha, onde ainda vive (tem 93 anos) também seu descendente intelectual, o filósofo de origem canadense Leonard Peykoff. Ayn Rand, em seu testamento, transferiu a ele seu legado intelectual, e o apontou como seu substituto filosófico.

Ayn Rand faleceu em 1982, aos 77 anos.

Ayn Rand capa de livro os devaneios do coletivismo 500

Quando uma sociedade está condenada

Guardo para o final algumas afirmativas da filósofa escritora, enunciadas há um século, mas que parecem dirigidas ao Brasil de hoje:

— Quando você percebe que, para produzir, você deve obter autorização de quem nada produz;

— Quando você comprova que o dinheiro flui não para quem negocia com bens, mas para quem negocia com favores;

Ayn Rand capa de biografia 500 ok1

— Quando você percebe que muitos ficam ricos por suborno e por influência mais que pelo trabalho e que as leis não nos protegem deles, mas ao contrário elas os protegem de você;

— Quando você percebe que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em autossacrifício;

— Você poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.

E o leitor esclarecido, cultivador de valores como a dignidade do trabalho, o esforço individual, a correção e a honestidade, verá nas afirmativas acima um retrato perfeito do Brasil de hoje. Infelizmente, para nós e nossos descendentes.