Nenhuma economia fechada é pujante e nem o consumidor é bem servido. Contrariar a interdependência é condenar as nações ao atraso

O cachimbo virou uma peça de museu. Caiu de moda. Consequentemente, o adágio de que o uso do cachimbo faz a boca torta caiu no esquecimento. Os usuários sempre tiveram consciência da causa e do efeito do uso do cachimbo. O protecionismo, como teoria econômica, também saiu de moda, por ter, na prática, mostrado os seus inconvenientes. Não fazia as bocas tortas, mas distorcia as relações econômicas. Mas deixou, como os vírus, outras cepas   nas cabeças de muita gente. Ninguém nega que uma   dose de protecionismo é aceitável na infância do ser humano, enquanto não tem condições de discernimento ou autodefesa. Mas em doses adequadas a não gerar raquitismo.

É diferente das empresas que administradas por gente amadurecida têm plena condição de como defender-se. O protecionismo enfraquece as empresas.  Um, pela falta do treino à competição e outro, por ser impossível um produto não depender de insumos externos. Não há atividade que atinja o apogeu da eficiência se fechada em si mesma. A crença cepalina, do argentino Raúl Prebisch (1901-1986), de ser a industrialização o caminho do desenvolvimento e de que a periferia deveria proteger as indústrias nascentes, até atingir uma maturidade, foi um fracasso. Após décadas de proteção o Brasil está desindustrializando-se. Não tem acesso aos importantes mercados internacionais. Não sobrevive sem as muletas do governo. Enquanto a nossa agricultura, menosprezada pelos governos, transformou-se no sustentáculo do nosso desenvolvimento.

O Chile, justamente a sede da Cepal, foi o primeiro dos países subdesenvolvidos a contrariar as teses cepalinas. Augusto Pinochet liberou o comércio internacional do país, cuja consequência foi premiar os consumidores com produtos nas vitrines com a mesma variedade e preços das lojas europeias. A indústria sofreu o impacto da internacionalização da economia, mas como um todo reagiu e hoje destaca-se no comércio mundial. A agroindústria chilena é referência pela qualidade dos seus vinhos, salmões criados em fazendas marítimas e tantos legumes e frutas que exporta. A renda per capita chilena, em poucos anos, superou em muito a da Argentina e a do Brasil. Não só diretamente o consumidor chileno foi beneficiado, também o país, ao diversificar a sua pauta, reduzindo a dependência do país do cobre, que era o seu único produto com mercado internacional.

Na contramão da história trafega o Brasil. Excluindo as ditaduras socialistas, estamos entre as economias mais fechadas do mundo. Se não bastasse os elevados impostos, temos uma burocracia que mata de raiva um importador. Sem nenhum imposto, a indústria local já está defendida pelas barreiras naturais: frete, burocracia, corrupção, e por aí vai. Um produto estrangeiro aqui custa mais de duas vezes do que na origem. Nem com toda esta proteção desenvolvemos uma indústria pujante. Apesar da boca torta, ainda hoje a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) reverencia a memória de Roberto Simonsen (1889-1948) como paladino da proteção industrial. A esta proteção devemos a perda de vigor da nossa indústria, da nossa economia. Felizmente, a nossa agricultura teve a “sorte” de ser ignorada pelos nossos políticos. Desprezada a ponto dos nacionalistas cepalinos a acusarem de ser um sinal de atraso.

A globalização escancarou a interdependência das nações. Nenhuma, como nenhum ser humano, é uma ilha. Os produtos têm componentes vindos de todas as partes do mundo. Ninguém consegue como uma autarquia ser produtivo. A indústria americana depende de insumos chineses, a China de chips americanos, o mundo necessita dos nossos produtos agrícolas, nós do salitre do Chile, da fome dos chineses… Nenhuma economia fechada é pujante e nem o consumidor é bem servido. A interdependência é uma fatalidade histórica, a qual contrariada pelas barreiras à competição condenam as nações ao atraso.

O protecionismo é uma peça para museu.