Jorge Wilson Simeira Jacob
Jorge Wilson Simeira Jacob

O processo civilizador

Os governantes são a expressão da civilidade da maioria dos eleitores de uma nação

O eleitorado, dependendo do de civilidade, não aceita candidatos avaliados como desonestos e mentirosos que não se enquadram no seu março civilizatório. Ou o aceita

Ninguém nasce civilizado. A civilidade é um processo, é uma conquista. Como é dinâmica, pode evoluir ou involuir. Nascemos nus, na Idade Média vestimos as mulheres dos pés às cabeças, e, desde algum tempo, elas estão indo às praias de topless. Os selvagens tatuavam-se. Perdemos com o tempo este costume e agora estamos voltando ao primitivismo das tatuagens e dos piercings. Em o “Processo Civilizador — Uma História dos Costumes” (Zahar, 264 páginas, tradução de Ruy Jungmann), o sociólogo alemão Norbert Elias (1896-1990) conta a história de uma princesa grega, que casada com um dodge veneziano, usava um garfo para levar os alimentos à boca. Um escândalo para uma sociedade que comia com as mãos. Foi considerado um exagero de refinamento, que mereceu severas críticas e até a invocação pelos eclesiásticos da ira divina.

Segundo Norbert Elias a civilidade não segue uma linha reta e nem se limita ao indivíduo, nem às diversas classes sociais. De onde pode-se deduzir que um indivíduo ou sociedade raramente são absolutamente civilizados. Existem marcos civilizatórios. Estar a par a um deles, indivíduo ou grupo social, não assegura a total civilidade. Podemos estar atualizados com um dos marcos, mas não com todos. Convivem, simultaneamente, as diversas condições de civilidade. A civilidade de uma coexiste com a incivilidade de outra, se for o caso.

Os considerados bons costumes eram cultivados pela nobreza, no passado e, hoje, entre as elites. A cortesia, denominação derivada do verbete Corte, era e é condição da convivência entre os cortesões. O processo civilizador, antes de ter como causa a saúde, a higiene, acontece por força de não ser desagradável aos circundantes. Assoar o nariz no guardanapo tem a ver com o nojo causado aos comensais. O comer de boca aberta, servir-se dos alimentos com as mãos, escarrar no chão são atitudes a serem evitadas no convívio civilizado.

Também apresentam-se como marcos civilizatórios a pontualidade nos compromissos, o cumprimento das promessas assumidas, o não furar filas, não descartar o lixo nas ruas, dar a vez no trânsito… e tantos outros, que sinalizem respeito ao próximo. O nível civilizatório apresenta-se, quer nos comportamentos individuais como no da sociedade. A diferenciação social é visível nos costumes diversos das regiões de uma nação. Nos diversos rincões brasileiros, são diferentes as preocupações com os compromissos assumidos. Temos áreas do país (poucas) em que a pontualidade é a regra; outras em que os atrasos vão de cinco a 30 minutos; e uma, em especial, que vão de hora a até mesmo ao não comparecimento…sem justificativa. Em geral, a civilidade é mais elevada nas relações entre empresas, atividade que cultiva a pontualidade pelo valor que dá ao tempo. Tempo é dinheiro.

O marco mais elevado e homogêneo de civilidade foi alcançado nos países nórdicos, nos anglo-saxões e entre os nipônicos. Lá a hora marcada é o último momento para apresentar-se. Não se chega na hora marcada, mas antes dela. A cultura dessas sociedades civilizadas vai além — não se admite tirar proveito do próximo. O “esperto” é digno de desprezo. Enquanto, no mundo incivilizado, ele é admirado. Não passa na mente de um civilizado o abuso do poder: o machismo, o assédio sexual, o barganhar preço, e menos ainda a cultura do “tirar vantagem” de alguém ou de uma situação. O civilizado cede a vez, dá passagem, respeita naturalmente o direito alheio.

Ninguém nasce civilizado, com também nenhum de nós é absolutamente civilizado. Tecnologicamente estamos defasados com relação aos níveis do Vale do Silício. Os algoritmos e a inteligência artificial estão longe do nosso domínio. Somos, pois, atrasados tecnologicamente do marco civilizador existente. A ética dos costumes tem estágios diferentes nas nossas regiões. Todas as nações têm estágios diferentes de desenvolvimento civilizador. Tanto tecnologicamente como socialmente falando. Estamos, sem dúvida, na média, melhor classificados do que países atrasados africanos, mas temos regiões que a eles se equiparam.

O nível civilizatório reflete-se em todos os aspectos da vida nacional. Principalmente na escolha dos governantes. O eleitorado, dependendo do seu nível de civilidade, não aceita candidatos avaliados como espertos, desonestos, mentirosos que não se enquadram no seu março civilizatório. Ou o aceita. Daí a constatação de que “cada povo tem o governo que merece”. Ou, em outras palavras, de que os governantes são a expressão da civilidade da maioria dos eleitores de uma nação.

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