Em 1º de outubro de 1949, Mao Tsé-tung apareceu triunfante na Praça da Paz Celestial, em Pequim, para proclamar a República Popular da China. Para a ocasião — que viria a transformar as vidas de milhões de pessoas —, o “Grande Líder” usou uma túnica folgada abotoada até a gola, de colarinho alto. A roupa virou símbolo do comunismo chinês e encantou o mundo da moda.

Essa vestimenta fez parte de uma série de medidas adotadas para eliminar as desigualdades de classes. Fiel aos ideais da revolução comunista, Mao determinou como padrão esse modelo de roupa único no modelo e na cor. Ninguém mais seria diferente. Além de eliminar o individualismo — “um mal do capitalismo” — racionalizava a produção reduzindo os custos de produção, armazenagem e distribuição. Assim, todos estariam coletivamente padronizados. Todos vestiriam túnicas cinza. Um exército de zumbis.

Mao Tsé-tung e seu modelito que ninguém queria | Foto: Reprodução

O modelo Mao fez moda. Jânio Quadros, presidente do Brasil em 1961 (até agosto), entrou na onda. Lançou a moda no Brasil. Mas como todos os modismos, a moda durou pouco… aqui e na China. Lá, as pessoas, tolhidas na liberdade para escolher, faziam alterações nas roupas vendidas pelo partido. Uns estampavam desenhos. Outros frisos coloridos. O limite era a imaginação. Todos fugindo da uniformidade para diferenciar-se. A natureza humana não se realiza no anonimato. O ideal humano busca destacar-se pela desigualdade. A padronização social violenta a nossa índole. 

A felicidade, em última instância o desiderato de todo ser normal, é obtida de forma diferenciada. Uns abandonam uma casa rica para viver um grande amor na pobreza. Enquanto outros se casam pela riqueza, ignorando o amor. As buscas da felicidade são tão infinitas quanto são as cabeças humanas. O que explica os fracassos das políticas que tolhem a liberdade individual. A igualdade imposta só sobrevive nos regimes de força. Na liberdade os homens querem diferenciar-se destacando-se social, profissional ou intelectualmente. Um comerciante destaca-se fazendo fortuna. Um intelectual dando aulas e escrevendo livros. Nenhum dos dois ficaria feliz na posição do outro. Ainda que o comerciante cobice o prestígio do intelectual, e este a riqueza do comerciante.

Jânio Quadros e seu estilo safari, que não pegou | Foto: Reprodução

O poder econômico é um forte fator de diferenciação. De muitas formas provoca segregação. O que resulta na distinção entre os bairros nobres e os pobres. Uma separação baseada nas condições econômicas. Mas acontece, também, nas áreas livres, onde não existe a limitação da riqueza. As nossas praias e lugares públicos são de uso comum e indiscriminado, mas as pessoas agrupam-se próximas dos que se aproximam dos seus padrões socioeconômico-civilizatórios. Sem que ninguém estabeleça a separação, acontece uma segregação espontânea. Ninguém a determina. É socialmente natural. Os indivíduos sentem-se desconfortáveis, como peixes fora d’água, se não têm identidade com o ambiente em que estão. Procuramos estar entre os nossos iguais. Entre eles lutamos pela diferenciação. Se ascendemos à uma classe superior, estaremos lá com vistas a nos diferenciar novamente.

Somos, como sociologicamente nos classificam, seres gregários. Necessitamos de companhia não só para ser feliz, mas também para sobreviver. Na prática, porém, somos socialmente seletivos. Somos seletivamente gregários. E as razões para a escolha dos grupos sociais são inúmeras. Quando existe a liberdade para escolher: os fúteis, os racionais, os broncos, os civilizados preferem os seus iguais. Mas, situados entre os seus, todos buscam a diferenciação. Um pistoleiro, ao menos nos filmes de faroeste, quer ser mais rápido no gatilho do que os seus rivais. Ser mais rápido é a sua diferenciação. É a sua razão para ser feliz.

Mao Tsé-tung, como todos os socialistas, fracassaram na tentativa de coletivização por acreditar que as pessoas podem ser tratadas como robôs. O ser humano diferencia-se por ter sentimentos e emoções. Nem somos máquinas nem somente razão. Além da razão, temos sentimentos e emoções — o que nos faz diferentes, únicos. Não fomos desenvolvidos para sermos padronizados. Mas para sermos indivíduos autônomos. Isto está na raiz da luta do individualista. No nosso DNA vem gravado: a liberdade ou a servidão.