Jorge Wilson Simeira Jacob
Jorge Wilson Simeira Jacob

Las Vegas, a cidade do pecado, é uma mostra do poder da liberdade

A cidade americana teve liberdade e fez o seu próprio caminho para não ser uma outra Zona Franca de Manaus

Las Vegas: turismo dinamiza toda a economia | Foto: Reprodução

Nunca tive atração por jogo de azar, nem por sexo sem afeto e nem por casamento reciclável. É da minha natureza. Não tem nada a ver com puritanismo. Estou longe de ser um puritano. Mas respeito as escolhas alheias. A liberdade individual é um valor absoluto. Na minha formação está a crença de que o dinheiro deve ser a recompensa ao mérito, as relações sexuais consequências de uma afinidade amorosa e o casamento ideal deve pretender ser único. Nunca cultivei as aventuras e fiz um casamento feliz que dura 62 anos.

Não deixo, entretanto, de ter interesse intelectual em entender o comportamento humano dos jogadores, dos praticantes do amor pago e dos que procuram refazer a sua vida conjugal. Tudo o que dizem existir em Las Vegas. Como curioso, fui visitá-la. Limitei-me a percorrer os seus hotéis maravilhosos, os bonitos espetáculos noturnos, a variada culinária estrelada e a Feira Internacional de Eletrônicos. Nem ganhei nem perdi no jogo. Não joguei! Foi uma estada de sonho!

Flamingo: criação de um visionário | Foto: Reprodução

Las Vegas, antes um deserto desabitado, sem água, de clima hostil à vida, sem nenhuma vocação econômica, transformou-se no maior centro de diversão familiar do mundo. A região superou a de Orlando com o Disney World em número de visitantes. É hoje uma das mais ricas e prósperas cidades americanas. O que deve fazer parar para pensar sobre as causas os que não se limitam a olhar as aparências.

Na essência, Las Vegas foi a descoberta de um mafioso visionário. Ele descobriu uma vocação para a região, como um minerador que descobre uma mina de ouro ou um Édison que inventa a lâmpada elétrica. Bugsy Siegel (1906-1947) administrava um casino em Los Angeles. Estava enfrentando uma luta crescente contra o governo que aumentava a repressão ao jogo de azar. Sobrevivia corrompendo a polícia, que era insaciável. A máfia, à qual estava ligado, o encarregou de supervisionar um pequeno cassino em Las Vegas, no qual tinha uma participação. Bugsy na visita viu mais do que enxergam os olhares superficiais. Percebeu uma oportunidade. O Estado de Nevada, sem nenhuma atividade econômica, não tinha leis proibindo nada. A liberdade era total. Estava ali a oportunidade de explorar legalmente um casino livre da pressão policial.

Bugsy (ver filme no Netflix) convenceu a máfia a investir em Las Vegas e abandonar Los Angeles. Construiu, pensando grande, um cassino de contos de fadas. O esplendor do Flamingo despertou a região. Atraía visitantes. Além do jogo, o clima de liberdade espraiou-se para outras atividades. Prosperou a indústria do casamento e divórcio, a prostituição, as casas de espetáculos noturnos, os hotéis e restaurantes e o Centro de Convenções. Las Vegas transformou-se em um centro de uso e abuso da liberdade individual. Como cidade da liberdade sem censura adota o slogan — o que acontece em Las Vegas fica aqui. Um convite para ser feliz à sua maneira.

Como toda a inovação, Las Vegas era criticada como sendo a cidade do pecado, um antro do crime e da decadência moral. Passaram os tempos. A cidade transformou-se em uma das melhores condições de vida no país para os seus habitantes. É hoje o maior polo de turismo familiar do mundo. Muitos visitam as suas frequentes exposições, os seus espetáculos noturnos, a sua culinária e hospedam-se em hotéis de sonho a preços módicos.

Quando alguém me pergunta a razão do meu encanto com Las Vegas, tenho como resposta o de ver na prática o poder da liberdade. Constatar de que não há limites à iniciativa humana, basta o governo deixar solto o espírito criativo do homem. Las Vegas continuaria um deserto se dependesse do governo para descobrir uma vocação para a cidade. Teve liberdade e fez o seu próprio caminho para não ser uma outra Zona Franca de Manaus — um fracasso econômico da engenhosidade governamental.

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