Augusto Diniz

Vanderlan conseguirá operar um milagre no domingo?

Corrida eleitoral para senador do PSD é amplamente desfavorável. Candidato a prefeito precisa de uma reviravolta completa para derrotar Maguito nas urnas

Possíveis equívocos na estratégia de campanha de Vanderlan Cardoso (PSD) no segundo turno podem custar muito caro neste domingo | Foto: Divulgação/Campanha Vanderlan Cardoso

O senador Vanderlan Cardoso (PSD) encerra o segundo turno das eleições em Goiânia neste domingo, 29, em completa desvantagem para o adversário na corrida pela Prefeitura de Goiânia. Depois de terminar o primeiro turno com 11,35 pontos porcentuais a menos do que o ex-governador Maguito Vilela (MDB) nas urnas, as pesquisas de intenção de votos apontam uma possível vitória com larga vantagem para o emedebista. A pergunta que nos resta a fazer: seria melhor um milagre para eleger Vanderlan ou torcer por uma derrota não tão acachapante?

Caso os retratos de momento apresentados pelas pesquisas Serpes/O Popular (58,6% Maguito e 41,4% Vanderlan), Fortiori (63,7% a 36,3%), Ibope/TV Anhanguera (63% a 37%), Diagnóstico/Rádio Sagres (63% a 37%) e Real Time Big Data/Record TV (63% a 37%) nos últimos dias de campanha se confirmem, a situação pode ficar complicada para o senador do PSD em Goiânia. Mas como explicar que uma campanha que largou com mais de dez pontos de vantagem no final de setembro pode terminar a disputa com 20 pontos ou mais de desvantagem no segundo turno?

Vanderlan largou bem na capital, com uma campanha propositiva. Parecia agradar bastante o eleitorado de Goiânia como um exemplo de empresário e político bem sucedido. Contou com a ajuda do governador Ronaldo Caiado (DEM) para selar a aliança com o PSC e lançar o ex-senador e secretário estadual de Indústria e Comércio Wilder Morais como candidato a vice-prefeito. À primeira vista, uma coligação bastante atrativa, com dois vencedores na inciativa privada e com experiência na vida pública. E, de fato, a chapa incomodou as candidaturas de Maguito Vilela e da deputada estadual Delegada Adriana Accorsi (PT).

Revés na pandemia

Mas a pandemia pregou uma peça na campanha de Vanderlan e de todos os outros candidatos. Com uma provável disputa de segundo turno entre Vanderlan e Maguito cada vez mais desenhada, três episódios marcaram a virada do emedebista para cima do pessedista nas intenções de votos. A primeira veio com a infelicidade de Maguito por ter contraído a Covid-19 e precisado de internação a partir de 22 de outubro. Depois o uso eficaz por adversários de trecho da entrevista de vídeo que Vanderlan concedeu ao jornal O Popular em 2018 na qual garantiu que não faria do Senado uma escada para se lançar candidato a prefeito em 2020.

E, para finalizar a inversão na corrida até o dia 15 de novembro, veio o áudio do senador em defesa do também parlamentar do Senado, agora licenciado, Chico Rodrigues (DEM-RR), que escondia R$ 33 mil, grande parte entre as nádegas, quando a Polícia Federal entrou em sua casa. O resultado foi um candidato perdido, que demorou a reagir e acabou por escolher táticas equivocadas para responder aos áudios e imagens bem explorados pelos adversários no primeiro turno. Vanderlan, que acreditava ter chance de vencer a eleição para prefeito de Goiânia no primeiro turno, teve de lidar com a realidade de terminar a primeira votação 68.455 votos atrás de Maguito.

Se os 11,35 pontos de vantagem do adversário no primeiro turno pareciam um pesadelo, a volta da piora no estado de saúde de Maguito na noite da apuração dos votos em 15 de novembro revelou uma sequência de escolhas equivocadas na estratégia da campanha de Vanderlan Cardoso no segundo turno. Ainda não se sabe de onde partiu, mas a mentira sobre a morte de Maguito caiu, para o eleitor, sobre o colo do senador do PSD e seus apoiadores. Na resposta, a campanha do pessedista errou ao falar em vitória tirada com ataques no primeiro turno. O momento era de pensar melhor a nota que seria publicada sobre o assunto, ainda mais porque o segundo turno tinha apenas 14 dias e qualquer erro decretaria a derrota de Vanderlan.

Da vantagem à tempestade

Mas o pior estava por vir. Na manhã de 17 de novembro, o senador concedeu uma entrevista no mínimo incompreensível para os objetivos eleitorais do candidato no segundo turno. Aos jornalistas Cileide Alves e Rubens Salomão, Vanderlan fez acusações mentirosas sobre o estado de saúde de Maguito Vilela, afirmou que a campanha do MDB cometia estelionato eleitoral e duvidou da integridade dos boletins médicos divulgados pelo Hospital Albert Einstein. Seis dias depois, o repúdio de grande parte do eleitorado goiano às declarações do senador veio em números.

Na segunda-feira, 23, foi publicada a pesquisa Serpes/O Popular. No dia seguinte, as rodadas de Fortiori e Ibope/TV Anhanguera. Depois vieram Diagnóstico/Rádio Sagres e Real Time Big Data/Record TV. Em seguida, Vanderlan mudou a resposta sobre o áudio em defesa do senador Chico Rodrigues. Começou na negativa de responder no primeiro turno, mas na reta final da votação inicial resolveu gravar um vídeo no qual dizia ter se arrependido do que disse. No segundo turno, o senador mudou o discurso. Resolveu falar que o trecho do áudio foi tirado de contexto, que tratava-se de uma discussão sobre ser o Senado ou o Supremo Tribunal Federal (STF) o poder competente para afastar um senador.

Vanderlan estava com a razão, em partes, na terceira argumentação. Mas em menos de quatro semanas dar três respostas diferentes para o mesmo caso pode ter deixado o eleitor confuso. O problema maior foi que o senador insistiu nas críticas e questionamentos aos boletins médicos que o Hospital Albert Einstein emite diariamente. Chegou a definir como “fraude” em mais de uma entrevista depois do tom agressivo adotado na Rádio Sagres dias antes. Mas havia a esperança de retirar a diferença nas intenções de votos com apresentação de propostas e otimismo nos sete dias de propaganda eleitoral obrigatória no rádio e na TV.

Bom início

Com foco nos problemas da saúde, Vanderlan Cardoso (PSD) começou propaganda de rádio e TV com tom propositivo, mas estratégia foi alterada durante a última semana da disputa | Foto: Divulgação/Campanha Vanderlan Cardoso

Começou bem. Escolheu a saúde para mostrar que muita coisa precisa e pode melhorar. Mas mudou de lado do que tinha apresentado no primeiro turno. Deixou de lutar pelo legado do prefeito Iris Rezende (MDB) e passou a se apresentar como candidato de oposição. Por mais que a fala do chefe do Executivo em um vídeo, no qual chamou Maguito de “nosso candidato”, tenha sido força de expressão e não uma declaração de apoio, a informação pública de que votaria no emedebista incomodou a campanha de Vanderlan, que resolveu reagir de forma arriscada. Ao invés de manter a tática de que é preciso continuar o que foi feito e propor mais, começou a se apresentar como o oposto de Iris Rezende no rádio e na TV.

Outro equívoco foi tentar flertar com o eleitorado de Gustavo Gayer, candidato que recebeu mais de 45 mil votos no primeiro turno para prefeito pelo DC. Bolsonarista da ala extremista, Gayer rejeitou declarar apoio a Vanderlan. Mas o senador estreou na TV e no rádio com as promessas de “Goiânia não vai ter lockdown”, algo que nunca chegou perto de ocorrer em todo o Estado, e vacina só para quem quiser ser vacinado contra a Covid-19. Se estas promessas poderiam atrair parte dos votos de Gayer, era um risco espantar parte do eleitorado de Vanderlan que quer se ver logo livre da pandemia.

Os acertos na TV e no rádio começaram a surgir na quarta-feira, quando o tom da comunicação com o eleitor foi amenizado, a postura de oposição a Iris Rezende foi abandonada e os barulhos de carimbo na tela toda vez que uma promessa era apresentada foram retirados da propaganda. Deixou-se de lado uma postura que poderia ser interpretada como autoritária e focou-se na experiência de Vanderlan, de seu vice, Wilder, e no que é preciso melhorar na gestão da cidade. A dúvida a ser respondida pela coordenação de campanha do senador depois das eleições é por que a imagem otimista foi trocada por uma de oposição raivosa em mais da metade do segundo turno.

Custa caro

Os erros estratégicos no curto segundo turno arrastaram Vanderlan para uma desvantagem incômoda neste domingo, 29, quando os pouco mais de 971 mil eleitores, ou parte, voltarão às urnas para definir o próximo prefeito de Goiânia. Independente do retrato apresentado pelas pesquisas de intenção de votos, o que define uma eleição é o resultado da apuração. Mesmo que não seja eleito hoje – a tendência é a de que a maioria dos eleitores optem por Maguito Vilela, campanha que pouco precisou fazer além de manter viva a mensagem de confiança na recuperação do candidato –, o senador terá seis anos como parlamentar no Congresso Nacional para se reerguer e voltar forte em outras disputas para cargos no Executivo. Seja para prefeito em 2024 ou governador em 2026.

A cobrança acertada que a campanha de Vanderlan fez no segundo turno, mas que ficou encoberta pelos erros da estratégia adotada na reta final, foi à tentativa do MDB de esconder o candidato a vice-prefeito, o vereador Rogério Cruz (Republicanos). Se tivesse focado apenas em mostrar quem é a pessoa que faz parte da chapa de Maguito, talvez a candidatura do senador do PSD tivesse mais chance de inverter a desvantagem ou pelo menos terminar a corrida mais perto do adversário. Mas toda eleição deixa uma lição. Seja Maguito ou Vanderlan o vencedor nas urnas, que cada um aprenda com seus erros e acertos.

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