Afonso Lopes
Afonso Lopes

Todos os candidatos falam sobre o mundo ideal, mas qual é o caminho para esse paraíso?

Campanhas eleitorais têm uma característica muito ruim no Brasil: as discussões sobre todas as questões jamais se aprofundam. O mundo perfeito está logo ali, dizem os candidatos. Mas eles não explicam o que deve ser feito para se chegar a ele

As décadas passam, as eleições são realizadas normalmente desde 1982, e o país todo assiste impávido colosso campanhas eleitorais que elaboram mundos perfeitos. A varinha de condão para se chegar ao nirvana é um tal de “vote em mim”. Se fosse assim tão fácil certamente já estaríamos vivendo no tal mundo ideal, mas não é, não.

Na realidade, se observadas to­das as campanhas desde o retorno da democracia no Brasil, o país as­siste muita das vezes incrédulo a fa­lência sistemática de todos os fundamentos essenciais da estrutura social e do cotidiano. Seria muito bom se as campanhas fossem reorientadas pelos candidatos para que eles apontassem exatamente o que deve ser feito para melhorar as situações que eles próprios criticam.

Mas será que isso deixaria o eleitor propenso a votar nesses candidatos? Provavelmente, não. Nas campanhas modernas, balizadas por pesquisas de opinião, os candidatos falam e prometem o que o eleitorado quer ouvir. Quebrar esse círculo inútil que não mergulha nos problemas e cisca a superfície barulhenta da crítica simplificada é fundamental, mas ninguém ainda sabe como fazer isso sem comprometer seriamente sua possibilidade eleitoral.
É como se tudo fosse somente um jogo de faz de conta previamente acertado entre os candidatos e a população, que não é somente solução, mas também é parte do problema. Para exemplificar, aborde-se aqui uma temática frequente em eleições municipais, especialmente nas maiores cidades, o transporte coletivo. Todos os candidatos, oposicionistas ou governista, apresentam o tal mundo perfeito, com pessoas idosas e mulheres grávidas embarcando antes, e sendo transportadas com o conforto que suas condições exigem.
Mas por que isso já não acontece agora, imediatamente? Sim, a responsabilidade por esse transporte coletivo insano que existe nas cidades brasileiras é também dos usuários. Então, a campanha eleitoral vai terminar, a eleição indicará o melhor vendedor da ideia do mundo perfeito, e as mulheres vão continuar sendo encoxadas nos coletivos lotados, os velhos vão ser espremidos como sempre foram, e as grávidas que cuidem das próprias barrigas e seus futuros rebentos. Ahh, claro, e do outro lado os ônibus vão seguir lotados como latas de sardinhas humanas, cumprindo planilhas atrasadas no horário para adiantar o relógio dos lucros desonestos, e as tarifas cobradas vão conter invariavelmente a sensação de que se paga muito por tão pouco.

Agora mesmo, na explosão de uma guerra entre os mafiosos do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) no complexo penitenciário de Aparecida de Goiânia, o veio eleitoral foi devidamente explorado por todos os lados, governista e oposicionistas. Acusou-se o governo de ser omisso e de investir pouco dinheiro da população para contornar todos os problemas — olha o mundo perfeito aí! E o governo fez o que está ao seu alcance, lamentou pelas mortes e acusou a oposição de politizar um problema cada dia mais sério, não somente no Estado, mas em todo o país — o Brasil é hoje, entre as maiores economias do mundo, o lugar mais perigoso para se viver.

As soluções ficam longe dos debates eleitorais. Em todos os temas. Nesse tema, o sistema penitenciário —que provavelmente estará nas campanhas — o discurso sempre genérico e superficial deverá prometer “presídios humanizados”. OK, que bom. Mas o que significa isso exatamente? Teremos prisões de Primeiro Mundo em Goiás — como de resto em todo o país? Quanto isso custará? Por fim, e decisivamente, é essa a prioridade que a massa eleitoral realmente defende e quer, ou esse tema só interessa quando a violência atrás dos cárceres entra em erupção?

Não está aqui nesta Conexão uma crítica à atuação de oposicionistas ou governista. Longe disso. A pretensão, certamente uma vã tentativa, é revelar que o mundo perfeito das campanhas eleitorais é somente isso, a verbalização da narrativa perfeita de ações de governo. Apenas semântica que a realidade irá atropelar após a eleição. É realmente uma pena que as campanhas não sirvam como ponto de partida de discussões de fundo, e sejam sempre uma linha para se chegar à frente na corrida pelos votos.

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