Afonso Lopes
Afonso Lopes

Somar na divisão ou dividir na pancadaria?

Desde a década de 1980, o partido não passava por um momento tão intenso de disputas internas como agora. Para saber se a sigla sairá maior é preciso esperar

De um lado da moeda, Maguito e Friboi querem união interna do partido... | Foto: Wesley Costa

De um lado da moeda, Maguito e Friboi querem união interna do partido… | Foto: Wesley Costa

Ao longo de toda a sua existência, o PMDB foi sempre uma prova de fogo quanto à união de suas alas internas. Provavelmente, apenas nas eleições de 1982, exatamente a primeira para governador após o retorno das eleições diretas, o partido caminhou totalmente unido, sob as bençãos de suas três principais correntes, lideradas por Mauro Borges, Henrique Santillo e Iris Rezende, este último como candidato ao governo. Depois disso, e sempre, o PMDB jamais viveu completamente em paz.

O primeiro grupo interno a sofrer com as disputas internas foi o liderado por Mauro Borges. Insa­tisfeito com questões políticas internas na administração de Iris, Mauro declarou guerra dois anos após as eleições de 82. Mas, com o Palácio das Esmeraldas nas mãos, Iris apenas precisou articular um isolamento cada vez maior de Mauro e seu grupo. O jogo da gata parida. Não demorou muito e Mauro Borges foi se juntar à oposição, gerando a sensação de que o reinado do PMDB em Goiás poderia acabar já nas eleições de 1986.

Sem Mauro, as brigas continuaram. Nas eleições de Goiânia, em 1985, também a primeira após o retorno das eleições diretas para prefeitos em cidades consideradas pelo regime civil-militar implantado pela força das baionetas em 1964 como de segurança nacional (em Goiás, apenas Anápolis se enquadrava nessa norma por causa da localização da base aérea), o PMDB se viu novamente em guerra interna. De um lado, os palacianos ligados a Iris Rezende; do outro, Henrique Santillo. Começou naquele ano uma das maiores e mais importantes disputas no partido.

Em dado momento do processo de afunilamento da corrida pela ca­beça de chapa peemedebista à Prefeitura de Goiânia, essa disputa aflorou para o público externo. O então governador Iris Rezende tinha declarada preferência por candidaturas de seu próprio grupo, enquanto Santillo optou pelo nome de maior apelo popular, e francamente independente de Iris, o do deputado estadual Daniel Antonio. Espre­mi­do pelas imbatíveis forças palacianas, Daniel chegou a anunciar sua filiação ao PDT brizolista. Foi quando San­tillo entrou decisivamente na parada.

Senador da República e de olho em sua própria candidatura ao governo na sucessão de Iris, em 1986, Santillo conversou com Daniel Antonio e ouviu dele a garantia que precisava: apesar do anúncio de que iria deixar o PMDB, ele ainda não tinha assinado a ficha de filiação ao PDT. Armado dessa informação privilegiada, já que todo o mundo político imaginava que naquele momento Daniel era carta definitivamente fora do baralho peemedebista, Santillo foi ao Palácio das Esmeraldas. Frente a frente com Iris, ele disse que sairia dali e anunciaria seu apoio à candidatura de Daniel pelo PMDB ou pelo PDT.

Surpreso, Iris disse que Daniel já havia deixado o PMDB, e que ele, como governador, não teria condições políticas para apoiar candidato de outro partido. Foi nesse instante que Santillo sacou o curinga do bolso do paletó e fechou o jogo: Daniel continuava no PMDB. Sem alternativa, Iris disse que o apoiaria juntamente com Santillo, mas ficou de fazer o anúncio mais tarde. Santillo tinha mais um ás na manga. Ele próprio havia convocado a imprensa, e os repórteres já estavam no Palácio esperando pelas novidades, ou o apoio de Santillo a Daniel pelo PDT, ou o apoio também de Iris, pelo PMDB.

Essa guerra de 1985 pela Pre­fei­tura de Goiânia só não explodiu na campanha estadual de 1986 por causa da candidatura de Mauro Bor­ges pelas oposições. Atacado du­ramente durante todo o processo eleitoral, Iris Rezende, que na é­po­ca ocupava Ministério no governo do presidente Sarney, uniu forças para derrotar Mauro. Deu certo. Enquanto Iris pedia votos no interior, Santillo se concentrava em Goiânia, maior reduto maurista, onde os oposicionistas esperavam uma vitória de Mauro com mais de 100 mil votos de vantagem. No final, Santillo venceu na capital com, literalmente, uma dúzia e pouco de votos. No interior, foi um arraso total, e Santillo ganhou com sobras, para a felicidade geral e provisória de todos, inclusive dos iristas.

Já em 1988, a guerra interna no PMDB eclodiu mais uma vez entre iristas e santillistas. No Palácio das Esmeraldas, Santillo tentou emplacar nomes de seu grupo para as eleições municipais, especialmente em Goiânia. O grupo de Iris reagiu sacando seu nome mais forte, Nion Albernaz, que havia governado a capital entre 1983/1985 e vinha de uma notável vitória como deputado federal constituinte em 1986. A diferença de Nion para todos os demais concorrentes internos no PMDB em relação ao potencial eleitoral definiu a disputa. Na eleição, Nion venceu, mas os iristas acusaram os santillistas de fazerem corpo mole.

…do outro, Iris mantém a divisão | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Nas eleições presidenciais de 1989, a guerra entre santillistas e iristas atingiu o ápice. Na convenção nacional do PMDB que escolheu Ulysses Guimarães como can­didato do partido à Presidência da República – mais uma vez, a pri­meira após o regime de 64 -, Iris se aliou à direita e Santillo se re­cusou a votar contra o histórico Uly­sses. Ele e a primeira dama Sô­nia San­tillo se ausentaram e deram con­dições para que dois iristas declarados votassem como convencionais. A manobra poderia ter da­do certo, mas a derrota de Iris na convenção soou como declaração final de guerra entre os dois grupos.

Apesar de ocupar o Palácio das Esmeraldas, e já na parte final de seu mandato, Santillo viu o PMDB praticamente inteiro se acoplar a Iris Rezende na preparação das eleições estaduais. Sem saída, ele buscou alternativas, e consta que os iristas reclamaram de seu apoio ao candidato oposicionista Paulo Roberto Cunha nas eleições de 1990. Iris passou apertado em alguns momentos da campanha, mas ganhou sem maiores problemas e isso decretou não apenas o final da mais longa batalha interna do PMDB, mas também a debandada dos santillistas do partido.

Em 1993, nova cisão interna. Nion Albernaz, após governar Goiânia pela segunda vez, de 1989 a 1992, era o nome natural do PMDB para o governo do Estado. Mas foi rechaçado pelos iristas, que viam nele independência demais para um grupo tão restrito e fechado. A tática usada na década de 1980 contra Mauro Borges, da gata parida, foi mais uma vez usada, e não restou a Nion a não ser se utilizar da chamada “serventia da casa”, a porta de saída.

Mesmo sem adversários internos já que apenas os iristas habitavam o PMDB, nova guerra marcou o processo de escolha do candidato ao governo. Os palacianos mais próximos apoiaram o então vice-governador Maguito Vilela. Os demais estavam com o então deputado federal Naphtali Alves, muito mais próximo das bases municipais.Talvez tenha sido esse seu pior trunfo por mais paradoxal que possa parecer. Como era líder expressivo, os palacianos se apoiaram em Maguito e fizeram dele o candidato a governador. Naphtali ficou com a vice.

Nas eleições de 1998, foi a vez de Maguito sofrer nas mãos amplamente majoritárias dos iristas. Ele acabou impedido de se candidatar naturalmente à reeleição. Cientifica­mente, é absolutamente impossível garantir que ele tinha as eleições asseguradas por razões mais do que óbvias. Mas os dados da época falam dessa situação com alguma clareza. Surfando numa histórica onda de popularidade, que só encontra paralelos com Marconi Perillo em 2006, Maguito não teria adversários à altura. Tanto é que foi eleito para o Senado batendo recorde de votos para a época. Enquanto isso, Iris Rezende inaugurou a primeira de uma série de derrotas para o governo do Estado.

Para as eleições do ano passado, mais uma vez surgiu uma guerra interna no PMDB. Iniciou um ano antes, com a chegada e saída rápida de Vanderlan Car­do­so, que sentiu a barra muito pesada na sua tentativa de ser candidato ao governo do Estado pelo par­tido. Esse fato parece não ter assustado Júnior Friboi, que deixou a calmaria do PSB e topou a briga contra os iristas no PMDB após receber aval da direção nacional do partido. Iris venceu a batalha pela condição de candidato do partido às eleições de 2014, mas a guerra ficou aberta.

Essa disputa pode chegar ao fim agora em 2015. De um lado, Friboi e o grupo de Maguito pregam união interna, e que se passe uma borracha em tudo o que foi escrito e falado durante o ano que passou. Do outro, iristas, neo ou velhos, tentam levantar um tribunal da inquisição contra aqueles que eles classificam como infiéis, no caso, e principalmente, Friboi.

A decisão caberá à Executiva estadual, mas Friboi pode ter alguns trunfos federais na mão. E ele teria também as bases municipais do partido, cansadas de ser tantas vezes surradas pelas forças adversárias, lideradas por Marconi Perillo. Se for expulso do partido, Friboi ficará livre para procurar outro partido. Mas nem esse fato garantirá dias de paz no PMDB. Pode resultar disso um certo clima de ilegitimidade por uma medida tão drástica ser adotada pela decisão de um pequeno grupo. Seria o caso de se convocar todos os filiados do PMDB para decidir se Friboi e os demais infiéis devem ou não ser expulsos. Aí, sim, a decisão, qualquer que fosse, seria inquestionável. Mas alguém deseja alguma coisa assim?

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