Augusto Diniz
Augusto Diniz

Só sentimos a gravidade de uma doença quando o vírus bate à nossa porta?

Em que momento as pessoas passaram a olhar apenas para o próprio umbigo? Ou o ser humano sempre foi assim?

Feiras especiais Goiânia - Foto Reprodução TripAdvisor

Até que ponto as pessoas se preocupam com as outras? Pensam que podem ser responsáveis pela mortes de outras durante a pandemia? | Foto: Reprodução/TripAdvisor

A dor alheia não mais importa. O irmão doente, a mãe internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o avô enterrado sem ninguém poder ir ao sepultamento. Quando a busca por evitar o sofrimento, a contaminação e o óbito de alguém se tornou uma questão de impedir o direito de ir e vir de alguém?

Estamos tão doentes assim, que não importa se os leitos de hospitais particulares e públicos beiram a falta de vagas, o que interessa é ninguém me obrigar a usar uma máscara? Objeto esse que me protege e evita que você possa contaminar alguém. Reduz a chance de infecção de outra pessoa, para ser mais preciso.

Só sentimos medo quando a Covid-19 bate à nossa porta? Quando um parente está contaminado e não consegue respirar, perde o olfato, o paladar, sente febre, fraqueza e não consegue se alimentar? O que interessa é sair de casa, praticar minha atividade física no parque, poder entrar em uma loja e comprar o que eu quiser a qualquer hora, enquanto milhares de pessoas buscam diariamente vagas em hospitais e algumas não passam da sala de recepção das unidades?

102 mortes em um dia

Enquanto sua blogueira favorita diz “foda-se a vida” após se recuperar da doença causada pelos vírus Sars-CoV-2 e o desembargador de Santos ofende um guarda que exercia sua função profissional, 3,4 mil pessoas tiveram a confirmação – entre a tarde de quarta-feira, 22, e a tarde de quinta-feira, 23 – que estão com Covid-19. No mesmo dia, veio a confirmação de que 102 pacientes morreram em decorrência da doença.

Talvez uma – ou várias – das 1.332 vítimas do novo coronavírus em Goiás seja seu amigo, pai, mãe, irmão, irmã, tio, tia, avô ou avó. Até um colega de trabalho, amigo de boteco, futebol, grupo de estudo ou equipe de corrida. Você conseguiu se despedir de forma digna dessa pessoa? Sabe o sofrimento que a família passou ao se deparar com uma doença que impossibilita o contato até na hora que o corpo do ente querido entra no caixão. Até antes, quando é retirado do leito de uma UTI hospitalar?

Mas eu tenho físico de atleta, nada vai ocorrer de grave comigo. E as pessoas próximas que você continua a ter contato. Será que elas fazem parte dos 1,8 milhão de goianos que têm comorbidades, como apontam a Fiocruz e a Unifesp? São 28% dos 7 milhões de goianos aqueles que, se pegarem a doença, podem ter complicações quando forem internados. Mas Covid-19 é só uma gripezinha. Quando muito, um resfriadinho.

Encontrar os amigos no bar
Bares pandemia Goiânia - Foto Reprodução TV Anhanguera

Você sabe como o garçom chegou até o local de trabalho dele para lhe atender? Quantas pessoas estavam no mesmo ônibus que ele? | Foto: Reprodução/TV Anhanguera

É uma maravilha poder sair do trabalho em um dia cansativo, com várias horas a mais de atividade obrigatória, sentar em uma cadeira de bar, ser atendido por aquele garçom que já sabe o que você gosta de petiscar enquanto toma sua cerveja ou drinque favorito e se de diverte com os amigos. Você sabe como o garçom chegou até o local de trabalho dele para lhe atender? Quantas pessoas estavam no mesmo ônibus que ele? Se o bairro em que ele mora é a Vila Finsocial, na Região Noroeste, com maior taxa de crescimento de casos do novo coronavírus há duas semanas?

Aí você testa positivo para a doença. Uma semana depois, sem sentir qualquer sintoma, o novo exame RT-PRC dá negativo. Pronto, você retoma suas atividades feliz. Ou nem se preocupa com algo além de manter sua rotina durante a contaminação. Passa o vírus para outros colegas de trabalho. Um deles vai parar na UTI dois dias depois de detectar que está doente. E se essa pessoa morrer? Você vai se sentir culpado por não ter se resguardado por 14 dias?

Mais de 84 mil mortes uma única doença no País lhe sensibilizam? Você se preocupa se a empregada que trabalha na sua casa mora em uma casa na qual é possível isolar um parente com sintomas suspeitos em um cômodo só para ele? Quando seu pai ou mãe tiveram Covid-19, vocês dispensaram a funcionária doméstica de ir trabalhar para não correr o risco de ser contaminada ou preferiram ter o chão limpo por alguém pago para isso e a comida na mesa diariamente ao meio-dia?

Gravidade da doença

O Brasil está próximo de ultrapassar as mais de 87 mil mortes por Covid-19 registradas até o início da tarde de sexta-feira, 24, em todo o continente asiático. Isso lhe comove? Impacta a sua impressão sobre a gravidade da doença? Ou você assista a essa notícia no telejornal e, em seguida, liga para os “parça” para alugar uma quadra e bater aquele futevôlei? De preferência todo mundo sem máscara para não atrapalhar o desempenho dos atletas. E depois, claro, aquela cervejinha, que não pode faltar.

Mas, de repente, você começa a sentir falta de ar. O seu histórico de atleta já não ajuda mais. O estoque de hidroxicloroquina que o Exército gastou mais de R$ 1,5 milhão para fabricar também não serão benéficos no tratamento, até porque o medicamento tem eficácia para lúpus, atrite reumatoide e malária. Só que você está com Covid-19, doença que tem como protocolo de tratamento no Hospital das Clínicas da USP corticoide e dexametasona.

Se você tiver dinheiro – e estiver disponível –, uma transferência para São Paulo, com internação do Albert Einstein, Sírio-Libanês ou uma UTI aérea talvez reduzam os impactos do comprometimento que a doença pode causar nos seus pulmões. Mas se você, daqui duas semanas, precisar de buscar uma vaga em Goiânia, torça para ser um dia de poucas transferências na regulação municipal e estadual para leitos públicos ou particulares, porque a curva no Estado está entre as oito que seguem em alta, cada vez mais rápida.

Saúde é o que interessa

Lembra quando você questionou as projeções dos pesquisadores da UFG, que apresentaram vários cenários de evolução das infecções do novo coronavírus em Goiás? O melhor cenário projetava 4 mil mortos até setembro e o pior até 18 mil óbitos no Estado por Covid-19? Você lutou bastante para as atividades não essenciais serem reabertas, não foi? Os governantes, depois de muita pressão, atenderam. Afinal de contas, um absurdo não poder cuidar da saúde todo dia na academia. Desse jeito, vamos acabar ficando flácidos e menos saudáveis.

Torço para que a sua atitude individualista e suicida não me mate, não condene meus parentes, amigos e colegas de trabalho a sete palmos abaixo do chão. Mas também quero muito que você sobreviva, seus “parças” de futevôlei, o garçom do seu bar preferido e a faxineira do restaurante que você gosta de ir almoçar perto do trabalho. Espero, do fundo do meu coração, que o seu autocuidado não se transforme em egoísmo.

 

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