Augusto Diniz

Só 18 cidades goianas têm mais habitantes do que o total de mortes por Covid-19 no Brasil

116 dias depois da primeira morte, é como se a cidade de Goianésia ou Morrinhos tivesse perdido toda sua população para o novo coronavírus até a noite de sexta

UTIS hospitais goianos Covid-19 - Foto Reprodução TV Globo

Com 90% de ocupação dos leitos de atendimento a pacientes com Covid-19, Goiás pode não deveria naturalizar as mais de 800 mortes no Estado ou as mais de 70 mil em todo o País | Foto: Reprodução/TV Globo

“Viva o coronavírus, meu povo!”, grita o vereador Thiago Maggioni (PSDB), de Jataí, enquanto puxa no microfone uma quadrilha com aglomeração durante a pandemia da Covid-19, que já vitimou 807 pessoas no Estado até a tarde de sexta-feira, 10, e levou 70.524 à morte em todo o País. O deboche com a vida representado na fala do parlamentar é visto diariamente nas ruas e avenidas de qualquer cidade.

É mais do que comum ver pessoas que se exercitam em áreas públicas sem usar máscara, andam nas calçadas com a máscara no queixo, usam bicicletas com capacete, mas não se importam para o perigo que representa o novo coronavírus, de transmissão respiratória, no ar. Com mais de 70 mil pessoas mortas no Brasil, nem parece que muitas das pessoas que saem de casa com o rosto descoberto entenderam a gravidade da doença causada pelo Sars-CoV-2.

Para facilitar a vida dos insensíveis, que acreditam que não serão acometidos por nada, nem mesmo por um vírus ainda sem vacina de rápida transmissão, equipararemos as mortes por Covid-19 a situações que parecem impensáveis e, por isso mesmo, assustadoras. Imagine se, depois de 116 dias, toda a população de Goianésia deixasse de existir. Ou então Morrinhos perdesse todos seus habitantes para o novo coronavírus.

População de Mineiros

A primeira cidade goiana citada, no Vale do São Patrício, tem a 19ª maior população do Estado: 70.084 habitantes. Menos do que o total de vítimas da Covid-19 até as 20 horas de sexta-feira. Só 18 dos 246 municípios goianos superam em moradores as mortes causadas pela doença. Mineiros, com 66.801, seria hoje uma cidade fantasma se comparássemos os óbitos por Covid-19 no País com os habitantes do município do Sudoeste goiano.

A tragédia diária, com 205 mortes confirmadas por Covid-19 em sete dias – de 4 a 10 de julho, não comove mais. Nem quando um estudo da Universidade Federal de Goiás alerta que a demora na análise dos casos suspeitos gera uma realidade 30% maior do que a dos dados oficiais. Na conta dos pesquisadores, teríamos superado 1 mil vítimas da doença causada pelo novo coronavírus no Estado na segunda-feira, 6.

No dia 2 de julho, o equipamento de extração automatizada do Laboratório de Saúde Pública Dr. Giovanni Cysneiros (Lacen-GO) estragou. O defeito causou uma redução de 28% na análise dos exames de Covid-19 em Goiás até quinta-feira, 9. A conta da subnotificação, que é um problema enfrentado em todo o mundo, até por se tratar de uma doença nova, dificulta ainda mais que as pessoas consigam enxergar a realidade que deveria causar medo e exigir a adoção de medidas de prevenção rigorosas.

Egoísmo que mata

Thiago Maggioni vereador Jataí viva o coronavírus meu povo - Foto Reprodução TV Anhanguera

Vereador por Jataí, Thiago Maggioni (PSDB) participou de festa com aglomeração em fazenda na cidade de Serranópolis e saudou o novo coronavírus durante narração da quadrilha | Foto: Reprodução/TV Anhanguera

Enquanto amigos e parentes continuam a fazer visitas a pessoas conhecidas e fazer churrascos e reuniões para assistir às lives dos artistas favoritos, mais de 1 mil brasileiros morrem diariamente no País. Nenhum acidente de avião mata tanta gente de uma vez só. Só na sexta-feira, a Secretaria Estadual de Saúde confirmou 975 novos casos de Covid-19.

É como se quase toda a população de Anhanguera, município com o menor número de habitantes em Goiás, estivesse com o novo coronavírus. Anhanguera tem 1.137 habitantes, de acordo com a estimativa de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Brasil, o total de pessoas que testaram positivo para a Covid-19 chegou a 45.235 na sexta, mais do que a população das 21 cidades goianas com menores população: 44.608 habitantes.

Significa dizer que as mais de 45 mil pessoas confirmadas na sexta com o novo coronavírus no País superam a população dos municípios goianos de Ivolândia (2.406), Santa Rosa de Goiás (2.388), Palmelo (2.380), Mairipotaba (2.373), Córrego do Ouro (2.364), Nova América (2.346), Pilar de Goiás (2.314), Morro Agudo de Goiás (2.264), Marzagão (2.223), Nova Aurora (2.199), Davinópolis (2.094), Guaraíta (2.041), São Patrício (2.035),  Aloândia (2.005), Água Limpa (1.872), Guarinos (1.852), Moiporá (1.557), Lagoa Santa (1.555), São João da Paraúna (1.417), Cachoeira Dourada (1.361) e Anhanguera. Agora imagine o que ocorreria com o Sistema Único de Saúde (SUS) se todas as pessoas dessas 21 cidades estivessem com Covid-19 ao mesmo tempo.

Equivalente a 31 cidades mortas

Quando pegamos o total de mortes no Brasil – 70.524 -, seria o mesmo que a Covid-19 ter vitimado a população dos 31 municípios com menor população de Goiás. Além das 21 cidades citadas no parágrafo anterior, entrariam para a conta da população morta os habitantes de Arenópolis (2.689), Panamá (2.627), Mimoso de Goiás (2.612), Adelândia (2.517), Buriti de Goiás (2.501), Diorama (2.488), Aparecida do Rio Doce (2.474), Jesúpolis (2.474), Campos Verdes (2.459) e Avelinópolis (2.425). As 31 cidades juntas têm 69.874 habitantes. Ainda teríamos 650 mortes em Israelândia, 215ª população do Estado, com 2.815 moradores.

O número de pessoas que testaram positivo para o novo coronavírus no Brasil atingiu na sexta-feira 1.804.338. Goiânia, com 1.516.113 habitantes, e Rio Verde, a quarta cidade mais populosa do Estado, que tem 235.647 de moradores, têm juntas 1.751.760 moradores. 52.578 habitantes a menos do que o total de infectados desde o início da epidemia no País. Mais do que a população de Jaraguá (50.511), a 23ª maior de Goiás, e quase o total de habitantes de Inhumas, que tem 52.866 moradores (22º).

Sem Goiânia, a população de Aparecida de Goiânia (578.179), Anápolis (386.923), Rio Verde, Águas Linda de Goiás (212.440), Luziânia (208.299) e Valparaíso de Goiás (168.468), da segunda à sétima cidade com mais habitantes no Estado, é de 1.789.956 habitantes. Menor do que o total de casos confirmados da Covid-19 no País.

Aumento de casos

Com o crescimento diário dos casos, com mais de 1 mil mortes a cada 24 horas no Brasil, a tendência é que cheguemos no domingo, 12, com apenas 17 cidades goianas com população maior do que os óbitos causados pela Covid-19 desde o início da pandemia. Santo Antônio do Descoberto (17ª), com 74.744 habitantes, deve começar a semana com total de moradores ainda maior do que as vítimas da doença no País. Mas, infelizmente, não por muitos dias. Até domingo, a população de Cidade Ocidental (18ª) – 71.376 – deve ser ultrapassada pelo número de mortes por Covid-19 no Brasil.

Quando o vereador Thiago Maggioni narrava a festa clandestina em uma fazenda em Serranópolis, cidade de 8.445 habitantes ao lado de Jataí, entre os dias 4 e 5 de julho, o parlamentar tucano não desrespeitou apenas os doentes internados, recuperados ou aqueles que viram pais, mães, avôs, avós, tios e tias, primos, primas, amigos, amigas e colegas de trabalho ou sala que morreram. Maggioni desprezou a vida de cada um dos mais de 70 mil brasileiros que morreram em decorrência da doença causada pelo novo coronavírus.

Ao dizer que nada fez de errado e se desculpar apenas “àqueles que se ofenderam” com o que o vereador chama de “brincadeira”, o representante do povo de Jataí jogou no lixo cada um dos 1.770 votos que recebeu nas eleições de 2016. Espero que o sr. não tenha sido contaminado com o novo coronavírus. Porque provavelmente o sr. convive com uma pessoa mais velha que não pode nem sonhar em estar com Covid-19. Ou deve conviver com alguém que trabalha para o sr. e ficará sem leito de UTI se chegarmos a uma situação de falta de vagas na rede hospitalar.

Responsabilidade social

O fato de Thiago Maggioni não ter apreço pela vida alheia ou não compreender a gravidade do ato irresponsável que cometeu pouco me importa. Aliás, o vereador deixou bem claro na narração da quadrilha que, além de amar a Covid-19, incentiva outras pessoas a comemorar a existência da doença: “Covid, eu te amo”. A pergunta que fica sem resposta é como o vereador irá reagir se for responsável por contaminar outra pessoa que venha a morrer caso a “brincadeira” de dar “viva ao coronavírus” custe a vida de alguém.

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